A OSPA e a osga

Uns enfiam o pé na /pôça/, outros na /póça/; uns dizem /algôz/, outros preferem /algóz/ —  e todos clamam que estão com a razão. A mesma hesitação se manifesta na hora de pronunciar as vogais de uma sigla: a Ospa (Orquestra Sinfônica de Porto Alegre) é /ôspa/ ou /óspa/? Veja o que está por trás disso tudo.

Publicar alguma coisa na internet gera conseqüências tão imprevisíveis quanto lançar ao mar uma mensagem na garrafa. Há quase dez anos, quando o www.sualingua.com.br era tão jovem que ainda não comia com a mão, respondi a uma consulta de um casal de músicos de Porto Alegre, integrantes da Ospa, que estavam intrigados com o fato dos vocábulos harpa e arpejo serem escritos de maneira diferente. “Se ambos vêm da mesma raiz, arpejo também não deveria ter H?”, perguntavam os dois, com absoluta propriedade. A razão desta discrepância ortográfica, expliquei, foi a loucura que fez a Itália ao suprimir o H inicial de todos os vocábulos (Port. homem, Esp. hombre, Fr. homme — mas It. uomo; Port. hora, Esp. hora, Fr. heure — mas It. ora). Ora, arpejo, como a maior parte de nossos termos musicais, veio do Italiano arpeggio — e como lá a velha harpa virou arpa, deu no que deu…

Vai daí que esta garrafa vagou pelo ciberespaço por quase uma década, até que minha antiga resposta veio despertar no jovem Michel P., de 15 anos incompletos, uma dúvida que ele classifica de “atroz” (não lembro bem, mas acredito que, nesta idade, minhas dúvidas também costumavam ser “atrozes”): “Professor, como é que se diz em voz alta o nome de nossa orquestra? É /óspa/ ou /ôspa/? Meu avô, aqui em Lajeado, fala com o O fechado, mas ele é meio alemão e aí não conta, porque fala tudo assim, até /bôsta/” [uso as barras inclinadas para assinalar que estamos falando da pronúncia, não da grafia].

Talvez não saibas, meu caro Michel, que a resposta à tua pergunta serve para dividir os gaúchos em duas facções que não se bicam, assim como chimangos e maragatos, gremistas e colorados. Conversando com Luiz Osvaldo Leite, presidente honorário da república de seus amigos e um dos grandes incentivadores da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, fiquei sabendo que não há entrevista sobre a Ospa em que não lhe perguntem a opinião: afinal, como é que se diz? A resposta que ele dá é a mesma que eu daria: cada um pode escolher a que mais lhe aprouver — mas a tendência dominante é, sem dúvida, a pronúncia aberta do O. Cabe a mim, nesta coluna, explicar o porquê disso tudo.

Em primeiro lugar, por que existe esta dúvida? Ora, ela nasce da tradicional hesitação que os brasileiros têm na determinação do timbre do O e o E em dezenas de vocábulos. Nossas gramáticas e dicionários vivem discutindo a pronúncia de dolo, algoz (dizemos /ô/ ou /ó/?), quibebe, coeso, extra, obsoleto (dizemos /ê/ ou /é/?), entre muitos outros em que a escolha entre aberto e fechado ainda não está consolidada pelo uso. E não se espante com isso o leitor: se, por um lado, a ortografia é regulamentada e fixada por uma norma específica, nada semelhante existe para a língua falada, que abriga um sem-número de variantes regionais, etárias e sociais. Como já mencionei em colunas anteriores, uns metem o pé na /póça/, outros o metem na /pôça/; há quem faça /ióga/, há quem prefira /iôga/. Não é de estranhar, portanto, que as pessoas se dividam quanto ao nome da nossa orquestra sinfônica.

Em segundo lugar, a tendência a priorizar a pronúncia /óspa/ coincide com o padrão dominante nessa configuração fonológica: birosca, cosca, gosma, losna, bosta, morta, amostra, aposta, costa, hoste, posta, resposta (e, muito parecida, a osga, nome daquela simpática e inofensiva lagartixinha de parede). Vocábulos femininos com O fechado existem, mas são minoria: mosca, rosca, lagosta, fosca, tosca, crosta, ostra ─  e não é por acaso que se ouve, por hipercorreção, um e outro candidato a celebridade pronunciando /óstra/… É por isso, aliás, que nossos bons dicionários  indicam, entre parênteses, quando o E ou o O são fechados; quando nada mencionam, é porque a pronúncia é /ó/ ou /é/, ou seja, as vogais abertas são tomadas como “default“.

Em suma, caro Michel, eu uso e recomendo a pronúncia aberta, embora nada tenha contra  os partidários de /ôspa/. Só lhes peço que aposentem o velho argumento de que o O, nesta sigla, como representa a vogal inicial de /ôrquestra/, também deveria ser fechado. Não é assim que as coisas funcionam; basta ver, em siglas corriqueiras, que não há correspondência necessária entre o timbre da vogal da sigla com o da vogal da palavra representada: IBOPE (o O está por “Opinião”); SEC (o E está por “Educação”), GBOEX (o E está por “Exército”), CEP (o E está por “Endereçamento”), BO (o O está por “Ocorrência”), e por aí vai a valsa.

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