cãozão

Nossa língua tem três plurais diferentes para os nomes em “ÃO” — IRMÃOS, LEÕES, ALEMÃES —, mas um deles, pouco a pouco, vai deixando os outros para trás.

 

Martina tem onze anos e está cursando a 5ª série de uma escola da região serrana. De quinze em quinze dias, seus pais — amigos meus de longa data — vêm a Porto Alegre para visitar as livrarias. Às vezes nos encontramos, por acaso, na Livraria Cultura, onde costumo passear com minha filha menor. Na última vez que os vi, Martina me olhava com ar desconfiado, e só rompeu o silêncio porque a mãe, risonha, insistiu: “Vamos! Pergunta para ele! Pergunta, que ele sabe!”. Sem muita convicção, ela disse que era um desafio proposto à turma pela professora, cuja resposta não se encontra em lugar nenhum: se o plural de cão é cães, o plural de cãozão seria cãozães? “Claro que não”, respondi; “é cãezões — assim mesmo, com dois tis”. Eu estava apressado, eles estavam apressados, e combinamos que eu trataria deste assunto, com pormenores, nesta coluna — na qual faço questão de explicar, para quem torceu o nariz, qual deve ter sido o objetivo da professora ao levantar a questão.

Pois, caros amigos, o plural dos nomes terminados em -ão não é coisa muito simples, como vocês devem saber. O quadro atual é curoso: temos uma só forma no singular (leão, irmão, alemão), mas três formas no plural (leões, irmãos, alemães). A pergunta da professora poderia ser traduzida da seguinte forma: qual dessas três terminações (-ões, –ãos ou –ães) vai formar o plural de cãozão?

Como é que se escolhe entre elas? Quando as gramáticas registram a tripla possibilidade para o plural de vilão (vilões, vilães e vilãos) ou para aldeão (aldeões, aldeães e aldeãos), estão apenas refletindo o estado de hesitação de nossa língua, que teve paralisado, pela difusão do texto escrito, um movimento em direção a uma forma única de plural (-ões, sem dúvida alguma). Essa seria a situação ideal: ou teríamos três singulares, correspondendo aos três plurais diferentes, ou apenas um singular e apenas um plural. No entanto, ficamos assim suspensos no meio da evolução, com um único singular e três plurais diferentes, e temos de conviver com isso. Felizmente, o quadro tem algumas constantes: por exemplo, todos os aumentativos e todos os novos vocábulos em -ão que ingressam no Português fazem o plural em -ões, o que aponta esta como a forma escolhida como o plural canônico para os vocábulos com essa terminação. Os outros (poucos) que escolhem -ãos e -ães são facilmente memorizados pelos falantes (mão, mãos; irmão, irmãos; pão, pães) — isso quando não terminam também aderindo ao genérico -ões: é o caso de corrimão, cujo plural original é corrimãos (já que vem de mão), mas que aparece também, em todos os dicionários, com a variante corrimões.

Algo que pode nos ajudar — e muito! — nesses casos é olhar por cima do muro e ver o que nosso vizinho de sempre, o Espanhol, anda fazendo, pois lá existem três singulares para três plurais: hermano, hermanos; leon, leones; alemán, alemanes! A boa notícia é que podemos aproveitar isso para nossa língua (há estudos sérios sobre o assunto, mas vou simplificar): o -ano, -anos deles correspondem aos nossos -ão, -ãos (hermano, hermanos: irmão, irmãos); -on, –ones, aos nossos -ão, -ões (leon, leones: leão, leões); e -án, -anes, aos nossos -ão, -ães (alemán, alemanes: alemão, alemães). Quem souber Espanhol, deve aproveitar a comparação; pode haver um ou outro vocábulo desviante, mas em geral o sistema funciona direitinho.

Ao escolher cãozão como tema do desafio, a professora apostou na curiosidade natural dos jovens para fazê-los se dar conta de vários fenômenos importantes de nossa morfologia: primeiro, que há uma incômoda multiplicidade de plurais para os nomes em -ão; segundo, que o plural de todos os aumentativos seleciona a terminação -ões; e terceiro, que ocorre com -zão o mesmo plural interno que ocorre com -zinho: cão, cãozinho, cãozão: cães, cãezinhos, cãezões. Sorte a da Martina, que tem uma professora competente como essa!

obs.: este texto, que segue a grafia estabelecida pelo Acordo de 1943, não sofrerá alteração alguma quando o Novo Acordo entrar definitivamente em vigor — o que nos permite avaliar o quão pífias são as novas regras.