Camarões

É mais simples do que parece: o país da África que chamamos de CAMARÕES foi batizado por exploradores portugueses do séc. XVI – e a origem deste nome é o mesmo camarão que recheia nossa empadinha.

EDU-CAMARÕES

A Copa do Mundo terminou há uma semana, mas deixou algumas perguntas pendentes que preciso responder. Dois leitores ― N. Muller e E. Laux ―, por razões diferentes, cismaram com o nome Camarões. Um deles alega que não deve haver relação alguma entre este nome e o nome de nosso saboroso crustáceo porque a língua oficial do país (que se autodenomina Cameroun) é o Francês, e o camarão, neste idioma, atende pelo nome de crevette. O outro acha que houve um equívoco na hora de transpor o nome do país para nosso idioma; Cameroun teria sido “traduzido”, à moda galega, por camarões, quando, na verdade, tem o nobilíssimo significado de  “Leões Indomáveis”.

Pois, prezados leitores, para entender o nome deste país, somos obrigados a voltar no tempo, à era das Grandes Navegações empreendidas por Portugal e pela Espanha. Queiramos ou não, quem batizou grande parte dos países da América e da África ― entre eles, o Brasil — foram os navegadores europeus. Isso vai contra o princípio moderno de autodeterminação dos povos, mas, naquela época, esta era a regra do jogo:  quem domina e coloniza dá o nome — e  nem preciso dizer que os primitivos habitantes dessas regiões nunca foram chamados a opinar.
As expedições espanholas, por exemplo, escolheram Venezuela por verem, nas palafitas dos nativos, uma sugestão de Veneza; Argentina, por julgarem, equivocadamente, que a região do Rio da Prata tinha jazidas de prata; Honduras (do Espanhol hondo, “fundo”), por terem ali encontrado águas muito mais profundas que o comprimento de suas sondas ― e assim por diante.

Pois este é exatamente o caso de Camarões. Em 1472, navios portugueses comandados por Fernando Pó, que fazia o reconhecimento da costa da África, entraram no estuário do rio Wuri, no Golfo da Guiné, e ali ficaram espantados pela quantidade de camarões de água doce, tão abundantes que bastava baixar um balde pela amurada para trazê-lo fervilhando de crustáceos. Compreensivelmente, o local passou a ser conhecido como “o rio dos Camarões”, e assim foi chamado até o séc. 19. O nome português passou por várias adaptações ao longo da história do país, tornando-se Kamerun sob a colonização alemã e Cameroun sob o domínio francês, denominação esta que os camaronenses optaram por conservar mesmo após sua independência.

Quanto à expressão Leões Indomáveis, esclareço que não se refere ao país nem a seus habitantes, mas sim aos jogadores da seleção camaronense. Assim como as seleções têm apelidos (a uruguaia é a Celeste; a brasileira, de triste memória, é a Canarinho; a italiana é a Azzurra), assim também os componentes de certas equipes são designados por nomes especiais. É por isso que  se chamam os costa-riquenhos de Los Ticos, os franceses de Les Bleus ou os italianos de Azzurri.

[Ilustração de Edu Oliveira – jornal Zero Hora]

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