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normatização

O Doutor sempre observa com interesse os esforços de uma palavra nova que luta para sobreviver.

Meu caro Doutor: depois de assistir a uma palestra sobre a “normatização das relações sociais na América Latina”, fechou o tempo em nosso grupo de estudos, porque uns dizem que o verbo normatizar não existe e muito menos o substantivo normatização. Eu não vejo nada de estranho nesse vocábulo, mas não encontrei no dicionário e não tive argumentos para defendê-lo. Afinal, essa palavra existe? Ou o certo seria normalização, como querem meus colegas? Lúcia S. — São Paulo (SP)

Minha prezada Lúcia: em primeiro lugar, normatizar não veio para ser usado no mesmo sentido de normalizar; o aparecimento recente deste verbo revela a preocupação em individualizar uma nuança específica. Normalizar, forma mais antiga, deriva do adjetivo e significa “tornar normal”, assim como legalizar e banalizar significam “tornar legal e banal”, respectivamente. Nas últimas décadas, este verbo teve seu alcance ampliado para designar também a atividade de regulamentação de parâmetros e de especificações técnicas, como se pode ver no Aurélio XXI e no Houaiss. No entanto, tudo indica que esse acúmulo de significados por parte do mesmo vocábulo não estava sendo funcional, pois logo surgiu normatizar, também registrado nos dois dicionários mencionados, com o significado específico de “regular algo através de uma norma”. Sua utilidade já pode ser medida pelo tema da palestra a que assististe: normatizar as relações sociais na América é bem diferente de normalizá-las

Transmite a teus colegas uma velha verdade lingüística: as palavras não nascem por acaso; elas são criadas pela própria língua, que é uma verdadeira máquina de formar palavras, para atender a finalidades específicas. Quando se cria um verbo a partir de um substantivo, ou um substantivo a partir de um verbo (e assim por diante), é para permitir a inserção do mesmo conceito em um outro ponto da estrutura sintática. O significado “regular algo por meio de normas” é representado por “normatizar“, que, por sua vez, produziu normatização. Usando este vocábulo, o falante pode encaixar todo o processo “regular algo por meio de normas” no lugar de um sintagma nominal qualquer (pode ser sujeito da frase, objeto, predicativo, etc.). Se não dispuséssemos desse substantivo, uma afirmativa simples do tipo “há interesse na normatização do setor” passaria a um antieconômico “há interesse em regular o setor por meio de normas”. E de que maneira conseguiríamos dizer que “a normatização do setor exige esforço concentrado”? Poderíamos recorrer a um daqueles desajeitados vocábulos de apoio (ato, fato, dado, etc.) e construir uma ladainha do tipo “o ato de regular o setor por meio de normas exige esforço concentrado” — mas aí alguém sentiria a necessidade irreprimível de criar um vocábulo para “o ato de regular”, e tudo voltaria à estaca zero.

Alguém ainda poderia questionar se normatizar é vocábulo bem formado. Eu diria, a esta altura, que já é tarde, e Inês é morta! Embora não seja aceita por algumas instituições tradicionais, como a ABNT, a palavra já anda por aí, viva, saudável, fazendo parte dos dois mais modernos dicionários de nosso idioma, usada alegremente por um grande número de falantes de boa cultura e formação superior. Seu processo de criação pode ter sido similar a dogma:dogmatizar, drama:dramatizar: o sufixo –izar foi acrescentado a um radical que possui, subjacentemente, um /t/, como se pode ver em normativo.

Tua pergunta, Lúcia, veio juntar-se a dezenas de outras que revelam a resistência de muitas pessoas ao surgimento de vocábulos novos! É espantoso como há um grande número de brasileiros letrados, sinceramente interessados no estudo do idioma, que se arrepiam assim que vêem uma palavra nova aparecer na esquina! No fundo, devemos tratar essas novatas com a mesma humanidade que tratamos uma pessoa desconhecida que nos apresentam: vamos observá-las com interesse, tolerância e curiosidade para ver se elas merecem fazer parte de nossa memória ou se vão engrossar o exército daquelas que já esquecemos. Abraço. Prof. Moreno.

P.S.: eu não me espantarei se, um dia desses, aparecer um normativar para indicar “tornar normativo”. Filosoficamente, vou sentar na minha cadeirinha e ficar esperando que surja logo um normativizar para brigar com ele. Se houver sobrevivente, a língua vai incorporar o vocábulo e enriquecer nosso léxico. Isso não é bom?

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