haja vista

Prezado Prof. Moreno: recentemente, ao fazer a defesa de minha dissertação de mestrado, fui corrigido por um membro da banca sobre o uso da expressão haja vista, dizendo que o correto seria haja visto. A frase em questão era “O presente trabalho justifica-se por se tratar de tema relevante, haja vista a preocupação das diversas instituições citadas”.. O que o Professor tem a comentar? E. Fernando — Ribeirão Preto (SP)

Meu caro Fernando: teu examinador não se saiu muito bem em sua participação. Em primeiro lugar, porque a tua frase não merece nenhum reparo; depois, porque a emenda que ele sugeriu é que é inaceitável. Talvez não haja outra expressão tão discutida quanto haja vista; todo gramático, todo estudioso, todo diletante mais sério (e os outros também…) já andaram escrevendo sobre ela. As interpretações propostas para sua estrutura chegam a meia dúzia: hajam vista OS acontecimentos; haja vista AOS acontecimentos; haja vista DOS acontecimentos; hajam-se EM vista os acontecimentos; haja vista os acontecimentos. Por que essa fartura? Sejamos sinceros: é que ninguém consegue determinar com clareza o que faz aí o verbo haver e o que faz aí o vocábulo vista (é particípio de ver, ou é um substantivo?); conseqüentemente, cada um de nós vai tratar os elementos dessa expressão de acordo com a leitura feita.

Nosso grande mestre Celso Pedro Luft considera haja vista uma expressão estereotipada, inanalisável, um espécie de “fóssil morfossintático”, que deve ser classificada entre aquelas expressões de exemplificação ou explicação do tipo isto é, a saber, por exemplo. Como acontece com todas essas estruturas cristalizadas, a tendência é deixá-la imóvel, sem flexão: haja vista, e pronto.

Contudo, como há opiniões discordantes, vou analisar a tua frase à luz de cada uma das três correntes majoritárias:

A PRIMEIRA, acima de todas as outras, que eu também defendo, recomenda deixar tudo como está, invariável: “HAJA VISTA os acontecimentos”, “HAJA VISTA o preço”. Se adotarmos esta, tua frase está tranchã.

A SEGUNDA admite a flexão do verbo haver, que deverá concordar com o substantivo que vier logo após: “HAJAM vista os acontecimentos”, “HAJA vista o acontecimento“. Como escreveste “haja vista a preocupação“, continuas acertando.

A TERCEIRA, com menos adeptos, deixa o verbo haver imóvel mas exige a flexão do vista: “haja VISTOS os acontecimentos“, “haja VISTAS as provas“, “haja VISTO o livro“. Na óptica desta última, deste em cheio no alvo ao escrever “haja vista a preocupação“.

Como podes ver, enquanto estás certo por todos os costados, a correção (?) proposta pelo teu examinador não vai, ironicamente, encontrar apoio em nenhuma das três hipóteses: o masculino singular de “*haja visto a preocupação” não tem o menor cabimento. Talvez o ouvido dele tenha sido traído por uma frase que está correta, embora nada tenha a ver com a estrutura que estavas utilizando: “Espero que ele haja visto a carta que deixei em cima da mesa” (“tenha visto”) — mas isso é vinho de outra pipa. Abraço. Prof. Moreno

Depois do Acordo: conseqüentemente > consequentemente

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