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Emprego dos pronomes Questões do momento

“por” para indicar autoria

O Doutor adverte: para ensinar alguma coisa aos outros, é preciso estudar primeiro.

Já que Vossa Excelência é um dos que adotou a imitação da língua do bardo, convido-o a ler a explicação elaborada pelo prof. Luiz K., mestre em Língua Portuguesa pela UERJ. Continuar usando aquele maldito “por“, principalmente numa página que se propõe a ensinar Português, depois de ler a explicação do prof. Luiz, é pagar um mico fenomenal.”

Jussara S. — Tradutora e consultora

Minha cara Jussara: quando comecei a ler tua mensagem, asseguro-te que fiquei desvanecido com aquele tratamento de Excelência, mas logo desconfiei da ironia quando me vi acusado de “imitar a língua do bardo” (para o povo da planície, leia-se “a língua de Shakespeare”, que vem a ser a boa e velha língua inglesa). Pressenti que eu estava levando chumbo por alguma coisa errada que eu devia ter feito, mas na hora não consegui atinar de onde vinha. No entanto, ao ver o teu convite para ler uma explicação do prof. Luiz com o respectivo endereço, resolvi aproveitar as maravilhas do hiperlinque e dar uma ida até lá. No nanossegundo que durou o trajeto, eu ia me conformando: por que não? Quem sabe aprenderei alguma coisa por lá? Afinal, o cardeal sempre pode aprender com o vigário…

Confesso que fiquei decepcionado; encontrei ali apenas um bom trabalho acadêmico, como tantos outros que temos de ler quando damos aula nos cursos de Mestrado: um latinzinho bem no início, para impressionar, alguma terminologia da Lingüística e a indefectível citaçãozinha da navalha de Okham; só faltou mencionar os novos paradigmas de Kuhn e a Estrutura das Revoluções Científicas, para que ficasse bem de acordo com o modelito básico — tudo isso para chegar a uma constatação óbvia (“Em Português, não usamos a preposição por quando se quer indicar autoria”) e a uma conclusão constrangedoramente equivocada (“Isso é imitação servil do Inglês, que utiliza aqui a preposição by“). Infelizmente, não copiei o texto do artiguinho, que acabou sendo removido daquele endereço (talvez o professor Luiz tenha pensado melhor e preferido se afastar, para não ter o desprazer de levar um quinau por uma luta que não é a sua). Graças a ti, no entanto, Jussara, nossos leitores vão poder acompanhar esta discussão, porque mantiveste na página uma resenha bem detalhada da referida peça, que conserva clara e intacta toda a linha de raciocínio do insigne professor.

Demorei para entender o que tudo isso tinha a ver comigo. Examinei minha consciência e meus arquivos do Word, enquanto dizia, entre os dentes: que a minha mão seque e caia se alguma vez na vida eu escrevi absurdo tamanho quanto “Dom Casmurro, POR Machado de Assis”, ou “Mensagem, POR Fernando Pessoa”. É óbvio que minha busca em nada resultou; eu nunca tinha cometido esse erro, nem mesmo quando não estava sóbrio. Mas então, a que vinha aquela acusação terrível contida no segundo parágrafo da tua cartinha? Que “mico fenomenal” seria esse que eu estaria pagando sem saber? De repente, a luz! Meu pecado estava bem na página de abertura do Sua Língua, em que aparece, há mais de sete anos, o “por Cláudio Moreno”! Finalmente eu entendia aquelas palavras (não muito gentis, é verdade) de tua parte: “Continuar usando aquele maldito por, principalmente numa página que se propõe a ensinar Português”! “Que se propõe a ensinar” — mas que ironia bem fina, esta! Pois bem, foi só então me dei conta da tua linha de raciocínio (secundada, até a retirada estratégica, pelo nosso mestre em Língua Portuguesa), que, como vais ver, está completamente equivocada. Como bem dizes, esta página se propõe a ensinar Português; por isso, puxa uma cadeira e presta bem atenção, que vais aprender algumas coisas que, pelo jeito, não chegaste a ver na faculdade. Ah, essas escolas modernas…

Não se trata aqui de usar a preposição por para ligar o nome do autor ao nome de sua obra; não há como fazer isso na estrutura sintática de nosso idioma. Aqui se trata da forma de indicar a autoria na portada (ou folha de rosto, ou frontispício) da obra, o que é bem diferente. Há várias maneiras de fazer isso: (1) ou se coloca simplesmente o nome do autor no topo da página, com o título mais abaixo, geralmente centrado — e nesse caso não há preposição alguma (Eça de Queirós/Os Maias); (2) ou se coloca o título centrado e, mais abaixo, o nome do autor precedido pela preposição de (Os Lusíadas/de Luís de Camões); (3) ou se coloca o título centrado e, mais abaixo, o nome do autor precedido pela preposição por (Sua Língua/por Cláudio Moreno). Dessas três hipóteses, a mais usada hoje é a primeira; a mais usada pela tradição, contudo, sempre foi a terceira (que, segundo pensavas, era apenas uma imitação do Inglês). Como é que eu sei disso? É que meu curso de Letras, se não foi dos melhores, ao menos teve a virtude de me acostumar ao manuseio das boas edições dos autores clássicos, talvez na esperança de que o contato físico acabasse por me render algum conhecimento. Como vês, não estavam tão errados assim.

De lá para cá, no entanto, surgiu a maravilhosa internet, com seus recursos que fariam a delícia de meus velhos professores — e é pelos caminhos do ciberespaço que te convido a me acompanhar até a biblioteca universal, a consultar as folhas de rosto de obras que merecem respeito. Primeiro, os clássicos portugueses: dá uma olhada na Menina e Moça, de Bernardim Ribeiro (1554), na Ortografia da Língua Portuguesa (1576) e na Origem da Língua Portuguesa (1606), de Duarte Nunes de Leão; na História da Província de Santa Cruz, de Pero Magalhães de Gândavo (1576); na Corte na Aldeia, de Francisco Rodrigues Lobo (1619); nas Epanáforas, de Francisco Manuel de Melo (1660); na Gramática Filosófica, de Jerônimo Soares Barbosa (1803). No século XIX, espia só o nosso querido Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco; Uma Família Inglesa, de Júlio Dinis; Viagens na Minha Terra, de Almeida Garret; Lendas e Narrativas, de Alexandre Herculano; Odes Modernas, de Antero de Quental; A Língua Portuguesa, de Adolfo Coelho; Sintaxe Histórica Portuguesa, de Epifânio Dias — obras que certamente conheceste, mesmo que apenas de ouvir, no teu curso de Letras.

Mas vamos continuar, que passeios virtuais não gastam a sola do sapato: no Brasil, verás nossa mimosa Marília de Dirceu, de Tomás Antônio Gonzaga e, bem a propósito, o Romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meireles. Reunidos num mesmo endereço poderás ver a folha de rosto de livros de Machado de Assis: Dom Casmurro, Helena, Ressurreição e Americanas, editados pela Garnier — todos ostentando aquele “maldito” por.

E de onde vem esse hábito? Bem, a esta altura da aula, ninguém vai cometer a blasfêmia de afirmar que todos esses autores — inclusive os portugueses quinhentistas e seiscentistas — estão “imitando o by do Inglês”, como dizia o nosso sumido professor, que tu fazes a maldade de não deixar anônimo. É claro que esta preposição está ali, logo abaixo do título — e é por isso que o por só aparece quando vem abaixo, nunca acima do título — exatamente por seu valor sintático de introduzir o agente da passiva de um verbo que está elíptico (“composto” ou “escrito”). Antes que te ponhas a duvidar do que digo, dá uma olhada na Crônica del Rei Dom João, de Fernão Lopes, e vais ver, na edição de 1644, a frase sem a elipse do verbo (“composta por”). Mais elucidativo ainda é o Dom Quixote, de Cervantes, que além de nos mostrar que o Espanhol também usa a mesma preposição, serve para demonstrar a elipse a que me refiro: na 1ª parte, ainda vem “compuesto por Miguel de Cervantes“; na 2ª parte, escrita e publicada alguns anos depois, já vem sem o verbo: “por Miguel de Cervantes“. E assim também se fazia no Francês, desde os primeiros livros impressos: no Quarto Livro das aventuras de Pantagruel, podes ver “composé par M. François Rabelais“; finalmente, no relato de Jean de Léry, que viveu no Brasil no séc. XVI, encontrarás “recueilli par Jean de Léry“. E assim por diante.

Esse é o papel da formação na cultura de um indivíduo, Jussara: sem que a gente perceba, os ensinamentos vão sendo incorporados por nós, até se tornarem uma segunda natureza. Quando criei o Sua Língua, meu cérebro mandou minha mão acrescentar, orgulhosamente, “Por Cláudio Moreno” — e eu o fiz com a maior naturalidade, seguindo a lição de todos esses autores que sempre escreveram muito melhor do que jamais escreverei. Imagino que não tenhas convivido muito com eles, ou não terias feito aquela afirmação apressada e superficial; depois desta explicação, contudo, tenho certeza de que não vais continuar a pagar o mico fenomenal de repeti-la. Abraço. Prof. Moreno

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