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Antártica ou Antártida? 

Numa mesma semana, dois leitores (José Antônio S., de Iraí, e Adolfo A., de Santo Ângelo) vieram com a mesma pergunta: o nome do continente onde fica o Pólo Sul é Antártica ou Antártida? Tudo indica que a forma mais indicada é a primeira. O nome Ártico vem do Grego arktos (“urso”) , não por causa dos ursos do Pólo Norte, mas sim por causa da Grande Ursa, a constelação do Norte. O continente gelado do Sul, a Antártica, foi convenientemente batizada como “oposta ao Ártico” (anti+arctico). Nos mapas-múndi do século dos Descobrimentos figurava um “continente Austral”, que se estenderia da Austrália (que só era conhecida em parte) até a Terra do Fogo, sem interrupção. Muitos navegadores dos séculos XVI e XVII chegaram bem perto, ao passar do Pacífico ao Atlântico, mas, ao que parece, o primeiro a atravessar o Círculo Antártico foi James Cook, na sua viagem de 1772-5, comandando o Resolution e o Adventure (nomes perfeitos para um navio se tornar lendário…) .

De onde teria vindo a variante Antártida (com D), usada principalmente pelos países de língua espanhola (a Argentina, o Chile, a própria Espanha)? A melhor explicação que encontrei foi de uma enciclopédia chilena na Internet (Icarito), que justifica a alteração por uma associação equivocada com o continente perdido da Atlântida. Faz sentido, por duas razões. A primeira, de base lingüística: desconsiderando a etimologia do nome (que está, como vimos, associada ao Ártico), pode-se construir uma simples proporcional, em que o adjetivo atlântico está para o substantivo Atlântida assim como o adjetivo antártico estaria para Antártida. A segunda, pelo lugar que ambas, Atlântida e Antártica, ocuparam no imaginário do Ocidente por centenas de anos: terras misteriosas, ignotas, onde tudo poderia acontecer. Enquanto os noruegueses de Amundsen e os ingleses de Scott, na virada deste século, não desbravaram o Continente Branco, a Literatura se aproveitou deste último rincão desconhecido de nosso planeta para imaginar paisagens fantásticas. Basta lembrar ao leitor o mundo tropical, misterioso e aterrorizante, que Poe situa nas imediações do Pólo Sul em seu inigualável A Narrativa de Arthur Gordon Pym, que mereceu a continuação de pelo menos dois famosos escritores, Júlio Verne (A Esfinge dos Gelos) e H. P. Lovecraft (As Montanhas da Loucura).

O Francês ora usa Antarctique, ora Antarctide. No Brasil, a hesitação vai pouco a pouco se resolvendo em favor da forma internacional Antártica. É a forma utilizada, por exemplo, no sítio da Universidade Federal de Santa Maria (www.ufsm.br/antartica), que desenvolve pesquisas na região, e no sítio de Amyr Klink, Antártica 360° (www.360graus.com.br). Quem alega que Antártica é o nome da cerveja, e não do continente, está tomando o efeito pela causa: a cerveja é que foi batizada de Antárctica (assim mesmo, com o C antes do T) em homenagem às terras geladas do Sul — com direito aos dois pingüins no rótulo. Só não sei se aqui Antártica é substantivo ou adjetivo (comparando: se é cerveja Brasil ou cerveja Brasileira; ou, num exemplo ainda mais adequado, se é cerveja Ártico ou cerveja Ártica). Isso se resolve com uma pesquisa na história da Cervejaria Antárctica, que tem, aliás, como concorrente principal, a Cervejaria Brahma, cujo nome vem do famoso deus Brahma (que estava presente nos rótulos primitivos); sua adoração (do deus, não da bebida) é conhecida por “bramanismo”.

Depois do Acordo:

pólo > polo
lingüística > linguística
pingüins > pinguins

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