Categorias
Etimologia e curiosidades Origem das palavras

Derivados de CABEÇA

Descubra o que cabo, cadete, capital e capítulo têm a ver com cabeça.

Um dos processos mais criativos para nomear as coisas que nos cercam consiste em projetar sobre a realidade o vocabulário referente ao nosso próprio corpo. Falamos nos braços e na boca de um rio, num de serra, num de laranja-lima ou num -de-vento. A agulha tem olho, a mesa tem pernas ou pés, o pilão tem mão, o livro tem orelha, o alho tem dente. É claro que a língua não faz estas escolhas por acaso, mas sim por óbvias analogias com a forma e a função: assim como as pernas nos sustentam, é natural que elas também sustentem as mesas, as cadeiras e os bancos. Nesse contexto, a cabeça aparece como símbolo de formas redondas (cabeça de alho, de alfinete, de prego), de posições de destaque (cabeça-de-área, cabeça-de-ponte, cabeça-de-praia) ou de chefia e comando — com exemplos históricos como chefe, capitão, caudilho e capataz, todos derivados do latim caput (“cabeça”). Veremos abaixo outros derivados de cabeça não tão evidentes assim.

cabo

Vem do provençal cap, uma derivada do latim caput (“cabeça; extremidade”) e serve para designar, na Geografia, uma ponta de terra, geralmente elevada, que avança mar adentro. Por isso chamamos de cabotagem a navegação costeira, que vai de um porto a outro, de um cabo a outro do litoral, sem se aventurar em alto mar. Como a idéia “cabeça” também significa, metaforicamente, “chefia”, o mesmo vocábulo assume, tanto no provençal quanto no português, o significado de “chefe, comandante”, e figura na escala hierárquica de nosso exército como o grau imediatamente acima do soldado raso. 

cadete

Entre nós, o cadete é o oficial estudante que cursa a Academia Militar. Vem do francês da Gasconha capdet (literalmente, “pequena cabeça”, “pequeno chefe”) e designava os filhos dos nobres gascões que se incorporavam ao exército do Rei da França para fazer seu aprendizado militar. Como essa missão geralmente cabia aos filhos não-primogênitos, o termo passou a designar, por extensão, “o filho que nasce depois de outro; o segundo ou terceiro filho”. No sentido tradicional de jovem que se inicia na carreira das armas, o termo ficou famoso com a figura inesquecível de D’Artagnan, o espadachim gascão que se torna cadete dos mosqueteiros do Rei, no mais famoso romance de Alexandre Dumas.

capital

Também deriva do caput latino. Inicialmente era um adjetivo que se referia diretamente à cabeça, como ainda se vê em pena capital (“mortal; que pode custar a cabeça”) e em cidade capital (“cidade dominante”), hoje simplesmente chamada de capital. A partir do séc. XVI, os banqueiros italianos passaram a usar este termo para designar “a parte principal de uma dívida, excluídos os juros”. Pouco a pouco, com o desenvolvimento da Economia Política, o sentido foi sendo ampliado, até que, no séc. XIX, passou a significar “a riqueza considerada como meio de produção”, por oposição ao “trabalho”, relação que Marx analisou no clássico O Capital

capítulo

Em latim, capitulum, diminutivo de caput (literalmente, “cabecinha”), já era usado para designar as partes de um texto. No final da Idade Média, o termo era usado principalmente para designar as seções dos livros bíblicos (que até hoje se dividem em capítulos e versículos), mas logo passou a indicar também os títulos principais de tratados e de documentos legais. O verbo capitular, que originariamente se referia ao estabelecimento das cláusulas de um acordo, passou a ser empregado com o sentido predominante de “render-se sob condições”: na 2ª Guerra, o poderio nazista obrigou a França a capitular. 

capricho

Vem do italiano capriccio, formado por capo, “cabeça”, mais riccio, “eriçada” (do mesmo radical latino ericius que nos deu o ouriço), que significava originalmente “calafrio, arrepio de pavor”. A partir do séc. XVI, passou a ser empregado em um dos sentidos que o termo tem até hoje, de “impulso súbito; ato aparentemente imotivado”. No séc. XIX, o dicionário de Morais registra um novo sentido para capricho: um enfeite arquitetônico rebuscado, mas de execução perfeita — de onde certamente saiu a noção de “esmero” que o termo tem atualmente. Na música, designa uma composição musical de forma livre, cheia de fantasia, que muitas vezes incorpora melodias populares ou folclóricas (o Capriccio Italiano, de Tchaikovsky, é um bom exemplo).

cachalote

Na sua forma mais antiga, cacholote, formado por cachola, palavra que usamos até hoje como sinônimo popular de “cabeça”, seguida do sufixo –ote — literalmente, “cabeção”. É a maior de todas as baleias dentadas. Sua principal característica é a grande cabeça retangular, que corresponde a cerca de 40% do seu comprimento total. O termo é de origem portuguesa e entrou no inglês (chachalot), no francês (chachalot) e no espanhol (cachalote). Presume-se que a terrível Moby Dick, do romance homônimo de H. Melville, fosse um macho albino de cachalote.

cefaléia

Este derivado do grego kephalê (“cabeça”) é o nome erudito para a popular dor de cabeça. Ao contrário do caput latino, presente em tantas palavras de nossa língua, o radical grego só aparece na linguagem científica, em termos como cefalópodes (literalmente, “os que têm pés na cabeça”), classe de animais a que pertencem os polvos e as lulas, e encéfalo (“o que está dentro da cabeça”, isto é, o cérebro). Por isso dizemos que está acéfalo (“sem cabeça”) o país ou o organismo que está sem comando.

precipício

Vem do latim praecipitium, “queda de um lugar alto”, derivado de praecipitis, “de ponta-cabeça” — o que daria ao nosso precipício a idéia de um lugar de onde se cai (ou se é atirado) de ponta-cabeça. A idéia, que também está presente no vocábulo despenhadeiro, adquire sentido se lembrarmos que uma das formas de morte prevista pelo código penal romano era precipitar o condenado do alto da rocha Tarpéia, uma alta escarpa da colina do Capitólio, onde ficava o Fórum e o templo de Júpiter. Como era nesse templo que culminavam os triunfos dos generais romanos, popularizou-se a expressão “Do Capitólio à rocha Tarpéia não vai mais que um passo” para lembrar aos políticos arrogantes que, nesta vida, a fama e o poder são passageiros. 

 Depois do Acordo: idéia > ideia

cefaléia > cefaleia

Tarpéia > Tarpeia

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.