japonesismos

Prezado Professor: meu namorado diz que o idioma japonês só contribuiu para nossa língua com nome de comida fria e sem gosto (sushi e sashimi) e de lutas marciais (judô e caratê). Eu tenho certeza de que recebemos outras palavras japonesas, mas na hora não me ocorreu mais nenhuma para contra-argumentar. O senhor pode ajudar?.

Bárbara L. — Londrina (PR)

Minha prezada Bárbara: é evidente que recebemos vários vocábulos japoneses além desses. Para tua informação, os portugueses chegaram ao Japão quarenta anos depois do descobrimento do Brasil, tornando-se os primeiros ocidentais a estabelecer relações diplomáticas e comerciais com aquele país. Nesse período de cinco séculos, muitos elementos do Japão foram incorporados às culturas ocidentais, trazendo consigo, inevitavelmente, as palavras correspondentes. Assim, entraram no Português termos universalmente conhecidos como soja, samurai, gueixa, haicai, haraquiri, zen, origame, quimono, xógum, bonsai, saquê. De menor fama, entraram também cabúqui (gênero teatral), catana (tipo de espada), tofu, iquebana, poncã (tipo de tangerina) e biombo. Das lutas marciais, além do judô e do caratê, vieram o jiu-jítsu, o aiquidô, o quendô, o caratê, o sumô (entre outras), além do inevitável tatame — sem falar no ninja, que já vi até usado como adjetivo elogioso! (“Ele teve uma atitude ninja“). A imigração japonesa para as Américas gerou novos tipos sociais, como o decasségui, o gaijin e o nissei. Da Segunda Guerra, mantivemos o camicase e o banzai (que alguns etimologistas malucos dizem ser a origem do nosso obscuro banzé…). A última década assistiu à invasão do caraoquê (espécie de divertimento solitário musical, onde alguém pensa que canta, enquanto os demais sofrem); o pessoal dos quadrinhos e dos desenhos de animação usa mangá e anime com naturalidade; o crescente prestígio da culinária japonesa vai nos trazer todo um vocabulário especializado — e assim vão as coisas, se nenhum deputado de pouca visão resolver hostilizar todos esses vocábulos, acusando-os de estrangeirismos que ameaçam a pureza de nosso idioma.

Não perguntaste, mas vou te informar, de inhapa: o Português também deixou sua marca no Japão. Tal foi a penetração lusa na Ásia, a partir do séc. XV, que nossa língua foi usada, por vários séculos, como a língua geral de comércio em todos os portos asiáticos. Samuel Purchas, autor do séc. XVI que relata as viagens e expedições comerciais inglesas aos países do Oriente, fala de um mercador inglês que, no Japão, teve de usar o Português para conseguir fazer-se entender pelo imperador. Daí teriam ingressado, no Japonês, alguns vocábulos nossos. Peixoto da Fonseca (O Português entre as Línguas do Mundo. Coimbra, Almedina, 1985) menciona, entre outras, furasuko (de frasco), marumeru (de marmelo), bisukettu (de biscoito), pisutoru (de pistola), retteru (de letreiro), arufabetto (de alfabeto) — explicando que a sílaba japonesa é sempre ou uma vogal isolada, ou uma consoante seguida de vogal, o que os faz desmanchar os encontros consonantais estrangeiros com o acréscimo de um /u/ (em frasco, o /u/ aparece entre o /f/ e o /r/ e entre o /s/ e o /c/). Além disso, como todos sabemos, eles substituem o /l/ das palavras exóticas pelo /r/ (o que faz da Coca-Cola uma /kokakora/). Pronto; podes voltar a discutir com o namorado, Bárbara. Abraço. Prof. Moreno 

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