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O Almirante Nelson e a sílaba tônica

Na hora da morte, o Almirante Nelson teria “saído do armário”, pedindo a seu comandante que lhe desse um beijo de despedida. Há controvérsias.

Como tive a oportunidade de mostrar no artigo Malan e a tônica, as palavras são percebidas com clareza só até a sílaba tônica: o que vier depois vai-se diluindo, perdendo a nitidez e a definição. Este fenômeno, velho conhecido dos lingüistas, provocou a infindável polêmica que envolve até hoje a romântica morte de Lord Nelson, o herói máximo da marinha inglesa: quais teriam sido as últimas palavras do Almirante?

No finzinho da batalha de Trafalgar, quando a esquadra inglesa já vencia a esquadra francesa e a espanhola juntas, em 1805, um atirador de elite francês, do alto do mastro do Redoutable, a menos de 20 metros, reconheceu a figura inconfundível de Nelson no convés do HMS Victory e fez fogo sobre ele: a pesada bala do mosquete francês atingiu-o no ombro esquerdo, atravessou completamente seu peito e prostrou-o agonizante no tombadilho. Era uma e meia da tarde; levado para o convés inferior, o herói inglês morreu três horas depois, cercado por seus oficiais, que vinham trazer notícias do sucesso da batalha. Dirigindo-se a seu subcomandante, o capitão Sir Thomas Hardy, Nelson pediu-lhe que não o jogassem no mar, como era o costume, mas que o enterrassem junto a seu pai e a sua mãe, no solo inglês. Em seguida, teria dito “Kiss me, Hardy” (“Beije-me, Hardy”); o capitão ajoelhou-se a seu lado e beijou-o na face. Muitos contemporâneos, no entanto, entenderam que ele teria dito, na verdade, “Kismet, Hardy” (“Foi o destino, Hardy”), e que o beijo do capitão seria um gesto espontâneo de respeito pelo herói moribundo. 

Kismet, ligado a um radical do Árabe com o significado de “quinhão”, é um conceito islâmico que traduziríamos como “destino, fatalidade”. Uma enciclopédia do Islã define o termo como “a força que ordena os acontecimentos de acordo com a vontade de Alá. O destino de cada um é inevitável; é a maneira como reagimos ao kismet que vai determinar nossa estatura moral”. Ora, é exatamente por esse caráter fatalista que muitos negam que tenha sido essa a palavra dita por Nelson, porque ele, sendo um admirável homem de ação, não poderia acatar a idéia de um destino imutável. Por outro lado, a versão de que ele teria dito “Kiss me” também não é fácil de engolir, pois implica admitir que poderia haver mais do que uma simples relação de comando entre ele e o Capitão Hardy (o que levou, como era de esperar, muitos movimentos gays a contabilizarem Lord Nelson entre os famosos homossexuais enrustidos da História). Jamais saberemos a verdade, porque a sílaba tônica dos dois vocábulos é idêntica. Cada um interprete como quiser; fica a lição, no entanto, de que devemos cuidar melhor de nossas últimas palavras. Eu pretendo fazer rascunho das minhas e submetê-las ao exame de alguns amigos de confiança. 

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