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palavras que invejamos

Diante de tanta palavra boba que importamos, o Doutor destaca algumas que realmente seriam úteis.

Quando aprendemos nossa língua materna, aprendemos também uma visão particular da realidade. Cada língua é uma janela que se abre para um ponto diferente da paisagem; quem espia o mundo pela janela do Inglês certamente não vai ter a mesma vista de quem usa a janela do Chinês. Por isso, é natural que existam vocábulos intraduzíveis de uma língua para outra, nascidos exatamente dessas diferenças de pontos de vista. Os estrangeiros nos invejam porque conseguimos, com a nossa saudade, exprimir num único vocábulo o que eles levam frases inteiras para dizer; basta ver como o Aurélio a define: “Lembrança nostálgica e, ao mesmo tempo, suave, de pessoas ou coisas distantes ou extintas, acompanhada do desejo de tornar a vê-las ou possuí-las”. 

Bem que poderíamos propor uma troca: emprestamos saudade a eles, e eles nos emprestam algumas palavras que nos seriam de grande utilidade, como as que vamos ver a seguir. 

fisselig — em Alemão, significa “controlar o outro até fazê-lo ficar paralisado”. Ficamos fisselig quando a pressão com que somos observados é tão grande que nosso desempenho vai a zero. Quando o irmão mais velho resolve ensinar a irmã a dirigir, ele acaba dando tanta instrução e recomendação que a coitadinha, a seu lado, termina paralisando; ela ficou fisselig

mokita — num dialeto da Nova Guiné, designa uma “verdade que todo o mundo conhece, mas da qual ninguém ousa falar diretamente”. Dentro de uma família, por exemplo, há fatos desagradáveis, como o alcoolismo de um tio ou a debilidade de um primo, sobre os quais todos os parentes evitam falar. Em nome da convivência, é muitas vezes melhor que continue sendo mokita.

esprit de l’escalier — do Francês, significa literalmente “espírito da escadaria”. Designa aquela resposta esperta que só nos vem à mente quando o momento certo já passou. Só depois que nos afastamos com o rabo entre as pernas é que nos ocorre aquilo que poderíamos ter dito e que liquidaria a discussão; é tarde demais, porque já estamos “nas escadarias”. 

drachenfutter — em Alemão, significa literalmente “comida de dragão”. É assim que eles chamam as flores ou os bombons que o marido culpado compra para acalmar a esposa, antecipando a recepção que vai ter ao chegar em casa; a expressão não é muito carinhosa, como se vê.

dohada — em Sânscrito, designa “os estranhos desejos de uma grávida”. Uma das línguas mais antigas do planeta já tinha nome para aqueles súbitos desejos por alimentos esquisitos que acometem as gestantes do mundo inteiro. O povo sabe: pedir morango com picles ou lingüiça com doce-de-coco é sinal de gravidez. 

frotteur — em Francês, é literalmente “aquele que se esfrega”; designa aquele pervertido que aproveita as aglomerações e o aperto dos transportes coletivos para ficar se esfregando libidinosamente nos que têm o azar de ficar imprensados à sua frente. 

bustarella — em Italiano, “envelopezinho”. É uma maneira mais delicada de designar a propina, aquele dinheiro que se dá de suborno a um funcionário público a fim de apressar ou aprovar alguma coisa. Por ser um ato imoral e ilegal, os italianos cunharam essa expressão socialmente aceitável e altamente sugestiva (imagina-se o que vai dentro desse pequeno envelope). Na Itália de hoje, muita coisa pode ser conseguida com emprego de uma bustarella; aqui, devido ao gigantismo de nosso país, foram substituídas por malas e contêineres.

schadenfreude — em Alemão, significa “o prazer de ver a desgraça dos outros”, aquele componente um tanto sádico do nosso humor que nos faz rir das agressões entre os Três Patetas ou das videocacetadas da TV. Peter Gay, um historiador judeu, jamais esqueceu a schadenfreude que ia sentindo à medida que os nazistas foram perdendo as medalhas de ouro nas Olimpíadas de 1938.

qualunquismo — vem do italiano qualunque, “qualquer um”. Trata-se da indiferença do cidadão pelos assuntos políticos de seu país. Esta perigosa apatia política é uma tendência crescente das sociedades desenvolvidas, como se viu há pouco na altíssima abstenção das eleições na França. Traduz-se por frases do tipo “Para que votar, se todos os políticos são iguais?”, entre outras asneiras do gênero.

koyaanisqatsi — na língua dos índios Hopi, significa “a vida fora do equilíbrio”. Essa esquisita palavra indígena é perfeita para designar essas calamidades da natureza que o uso descontrolado da tecnologia pode ocasionar. O desequilíbrio ecológico causado por pesticidas ou a inversão térmica das grandes cidades são um triste exemplo de koyaanisqatsi — título, aliás, de um impressionante filme de denúncia, com a famosa trilha sonora de Phillip Glass.

ohrwurm — significa, no alemão, “verme do ouvido”; é uma excelente designação para aquela melodia ou aquela simples frase musical que se propaga, do dia para a noite, por toda uma população. Quando sentir que não consegue tirar uma música da cabeça, fique sabendo que foi infectado por um desses “vermes”. Isso acontece muito com a trilha sonora de comerciais ou, o que é pior, aquela musiquinha desagradável que anuncia a chegada do caminhão de gás. 

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