colo e regaço

Prezado Doutor, li em algum lugar que o colar se chama assim porque foi feito para usar no colo, mas não consigo ver relação nenhuma entre os dois vocábulos. Como é possível? Colo não é onde se está sentado? Obrigado.

A.P. Schmidt — Maringá (SP)

Meu caro Schmidt: não vais enxergar a relação entre dois vocábulos se não souberes que podemos usar o vocábulo colo para designar coisas bem diversas entre si (vou deixar fora da discussão o emprego específico que a Medicina e a Biologia fazem deste termo). Bluteau, em 1712, já registrava, com seu estilo peculiarmente retorcido: “esta palavra de três maneiras se usa no Português. A mais comum é por regaço; a segunda, é pelo lugar que se dá a um menino nos braços, e parece que se chama assim porque o menino, posto nos braços, deixa o braço ao colo de quem o traz; a terceira é o pescoço”. Vamos ver cada uma delas.

Regaço — este malsoante vocábulo provém de regaçar (o mesmo que arregaçar) e designa aquela concavidade que o tecido da saia ou do capote faz entre as coxas de quem está sentado. Eça de Queirós fala de uma rapariga que fazia uma grinalda “com as flores que lhe enchiam o regaço“. Machado descreve uma pensativa personagem que, “com os cotovelos no regaço, tinha os olhos encravados na parede”. Alencar mostra uma mulher que cardava “uma porção de algodão cujos flocos alvos e puros caíam sobre uma grande folha que tinha no regaço“. Noto que poucos brasileiros deixariam de usar, nesses exemplos, o vocábulo colo — como também os próprios escritores mencionados também fizeram, em outras passagens: o Teodorico de Eça encontra Miss Mary “lendo o seu Times, com um gato branco no colo“, da mesma forma que Alencar descreve Iracema “sentada com o filho no colo“. 

Pescoço — é nesse sentido que colo produziu o colar e a coleira (ambos traduzidos, no Francês, por collier), além do colarinho. É assim que aparece nos Lusíadas, de Camões: “O forte escudo, ao colo pendurado”, ou “O valeroso Afonso, que por cima/De todos leva o colo alevantado”, ou, mais claro ainda, “Vê-lo cá vai cos filhos a entregar-se/A corda ao colo, nu de seda e pano”. No conto “O Relógio de Ouro”, Machado descreve assim o ímpeto homicida de Luís Negreiros, um Otelo tropical: “O infeliz marido lançou as mãos ao colo da esposa e rugiu: — Responde, demônio, ou morres”. Na Pata da Gazela, de Alencar, a heroína tem “uma cintura de sílfide, um colo de cisne“. Como podes ver, aqui só se falou de pescoço.

Nem um, nem outro — O terceiro significado é aquele lugar onde se carrega um bebê (que Bluteau, politicamente incorreto, chama de “menino”, no masculino): em parte apoiado no peito, em parte na raiz do pescoço. É aí que fica o “colo ofegante” das heroínas de nossa literatura romântica; é este o colo que as damas mostram, com o decote do vestido, nos bailes da Corte. Machado nos dá um exemplo valiosíssimo, em seu A Mão e a Luva: “Todo o colo ia coberto até o pescoço“. Que tal? Este colo é definido pelo velho Morais como “o pescoço, a cabeça e os ombros, onde se carregam pesos”. Este é o que as crianças pedem aos pais, quando estão cansadas de caminhar; não por acaso, é neste colo que Santo Antônio carrega o Menino Jesus, nas imagens de igreja. 

Não hesito em dizer que o primeiro e o terceiro são os dois sentidos mais presentes em nossa língua atual; o de pescoço é o menos reconhecido pelo leitor brasileiro, e não admira que não tenhas visto a relação com o colar. Abraço. Prof. Moreno

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