o quinto dos infernos — o retorno!

1 — “Ei, professor Moreno!!! Sobre os quintos dos infernos, eu também já ouvi falar quinto dos infernos. Em algumas culturas, o “inferno” era dividido em vários níveis. O quinto não estaria relacionado com, digamos, o quinto “andar” dos infernos existentes?

Leticia L. — Porto Alegre 

2 — “Professor, será que o emprego da expressão quinto dos infernos não está ligado à obra Divina Comédia, de Dante Alighieri? Um abraço.”

Alfran Caputi

3 — “Prezado Prof. Moreno, fiquei um pouco admirado com a resposta que o sr. deu sobre a origem da expressão, e resolvi fazer um comentário que talvez possa ser aproveitado para dar uma resposta de verdade [essa foi boa, Thiago!] para a dúvida entre quinto ou quintos dos infernos: antigamente existia uma crença católica de que era reservado, para aqueles que povoavam a terra, um lugar em um dos quatro infernos (purgatório, limbo, etc.). Esta crença se estende até hoje um muitos países católicos; por acreditarem na existência de quatro infernos, as pessoas costumavam se referir como “quinto dos infernos” àqueles lugares que, por elas, era tão ruim quanto um dos outros quatro infernos.” Thiago H. — São Paulo 

4 — “Caro Professor: antes de tudo, parabéns pelo site. Outra explicação possível a respeito da expressão quinto dos infernos é a seguinte: na mitologia grega, o inferno era o local de destino de todos os mortos. Não havia, portanto, o Céu. Ainda assim, ele era dividido em quatro partes, quatro infernos diferentes; no primeiro (chamado tártaro, se não me engano) e segundo iam os mortos que em vida foram maus, covardes, ou cometeram sérios delitos; o terceiro seria uma espécie de purgatório e o quarto, reservado aos heróis, homens corajosos, era chamado de Campos Elíseos, algo assim como o nosso paraíso. Por essa explicação, a idéia de mandar alguém para o quinto dos infernos seria correspondente a mandar alguém para um lugar que não existe.” Marcos Lázaro 

Meus caros leitores: vocês todos apresentaram hipóteses razoáveis para a origem da expressão, mas — pode parecer antipático, mas é necessário que eu diga — todos bateram na tábua, nenhum acertou no prego. O fato de diferentes religiões admitirem uma gradação de níveis infernais não vai explicar por quê, que eu saiba, só Português (e, de forma muito esporádica, o Espanhol) usa esta expressão. Se fosse uma expressão retirada das duas fontes básicas de nossa cultura — a herança greco-romana e a herança judaico-cristã —, ela estaria presente em todas as línguas européias, como aconteceu, por exemplo, com alfa e ômega, torre de babel, bezerro de ouro, bode expiatório, calcanhar de Aquiles, entre tantas.

Além disso, nos sistemas infernais que conheço (nunca fui; apenas repito as informações de quem lá esteve), nada há de tão especial no quinto. No Islã, o pior de todos é o sétimo, reservado aos hipócritas que fingem seguir os princípios do Alcorão. Para o bramanismo, há dezesseis infernos, não necessariamente seguindo uma ordem de rigor e punição; o quinto é reservado para aqueles que agem traiçoeiramente com os amigos e prestam falso testemunho (o sétimo, muito merecidamente, é reservado para quem rouba do rei ou copula com a rainha). Importantes textos do budismo descrevem dezoito infernos, onde a alma danada é submetida a torturas insuportáveis — sem que nada de especial destaque o de número cinco

Quanto a Dante, meu caro Alfran, uma das três partes da Divina Comédia descreve o Inferno (não “os infernos”), concebido topograficamente mais ou menos como o garimpo da Serra Pelada (uma montanha com círculos descendentes). São nove os círculos deste inferno; em cada círculo são punidos diferentes tipos de pecados. No quinto, que é um dos menos impressionantes, ficam os iracundos, isto é, os que se deixaram dominar pela ira — nada, portanto, que se relacione com a nossa expressão. 

A possível origem católica, trazida bravamente à discussão por nosso amigo Thiago, teria mais força se outras línguas de países tradicionalmente católicos (como o Francês e o Italiano) usassem o “quinto dos infernos” — o que não acontece. Além disso, essa idéia de quatro infernos é uma grande surpresa para mim. Embora não seja religioso, estudei em escola pública e tive aulas regulares de catecismo (que eram obrigatórias, na época); juro que, na minha cabeça distraída, havia um Inferno propriamente dito, onde queimavam as almas danadas, e outras estações transitórias, o Limbo e o Purgatório, de onde as almas seriam liberadas ao menos no dia do Juízo Final. Sei que há várias concepções divergentes a respeito da composição do Inferno, no próprio seio do catolicismo, mas nada que esteja tão presente no imaginário popular a ponto de justificar a criação de um “quinto” inferno.

Agora, nós, prezado Marcos: a Grécia também fica fora dessa. Quem tentar traçar a topografia do Mundo dos Mortos, a partir dos textos de Homero, Hesíodo, Platão, entre muitos outros, verá que a concepção grega dos infernos não era homogênea. Não há dúvida de que parte do Tártaro é um local de punições (onde ficam Tântalo e Sísifo, hóspedes ilustres), e de que os Campos Elíseos eram o “bairro” mais privilegiado; no entanto, há divergências irreconciliáveis a respeito da localização do mundo de Hades, da posição de suas entradas, da sua divisão geográfica, da distribuição dos mortos pelas diferentes regiões, etc. (uma interessante tentativa de recriação do Hades pode ser vista no belíssimo sítio de Mitologia mantido por Carlos Parada.). De qualquer forma, não procede a tua engenhosa idéia de quatro infernos gregos, usando-se a expressão quintos dos infernos para significar “lugar nenhum”, assim como a velha expressão irônica de calendas gregas quer dizer o mesmo que “nunca”, já que o calendário grego não tinha essa data. 

É por tudo isso, prezados leitores, que escrevi — desculpem mais uma vez a pretensão de citar a mim próprio! — ser essa “uma expressão meio misteriosa; há muitas hipóteses para sua origem, mas nenhuma chega a me convencer totalmente”. É excelente, contudo, que vocês apresentem suas hipóteses, porque, ao descartá-las, podemos ao menos ter certeza de onde NÃO veio aquela expressão. Abraço para todos. Prof. Moreno

P.S.: nessa nova recorrida pelas minhas fontes, confirmou-se o significado de quintos dos infernos como o de um lugar distante; apareceram mais algumas expressões equivalentes, como fim do mundo, fim da galáxia, na Conchinchina e um curiosíssimo (porque vem do Equador, não do Rio Grande do Sul) lá onde Cristo perdeu o poncho.

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