Categorias
Flexão nominal

magríssimo, macérrimo e magérrimo

Quem fica muito magra fica magríssima, macérrima ou magérrima? E muito elegante? Elegantíssima ou elegantérrima? O Doutor esclarece essa questão crucial para o verão que se aproxima.

Caro professor Moreno: outro dia, em conversa acontecida no horário do jantar, minha filha de 15 anos, estudante do 2º Grau, aluna premiada no colégio, falou mais ou menos assim: “fulano estava elegantíssimo“; na mesma hora retruquei, dizendo que o correto seria elegantérrimo. Minha filha então argumentou que os dois eram corretos. Na mesma semana, na revista Marie Claire , li alguma coisa que parecia vir em defesa aos meus argumentos, num artigo que colocava a palavra “elegantíssimo” em itálico, como que em tom pejorativo e depois fazia uma referência a outro “elegantérrimo” em tom mais enfático. As duas maneiras estão corretas ? Se estão corretas, existe uma que seria mais elegante utilizar ? Antecipadamente agradeço. 

Paulo P.G.  — Palmas (TO)

Meu caro Paulo: tua filha mereceu o prêmio de melhor estudante: ela é que está com a razão. O superlativo de elegante é elegantíssimo. Nosso idioma forma seus superlativos por meio de uma simples fórmula morfológica: [adjetivo+íssimo]; assim brotam, naturalmente, belíssimo, grandíssimo, duríssimo, caríssimo. Alguns (muito poucos — não chegam a 50, de 50.000) têm também outra forma alternativa, usando a forma latina. É o caso de doce (docíssimo e dulcíssimo), negro (negríssimo e nigérrimo), etc. Podes dar uma olhada em superlativos eruditos. Em alguns dessas formas latinas aparece o sufixo superlativo -érrimo, que também vais encontrar em paupérrimo, macérrimo (incluo, lá no fim, uma discussão sobre esta palavra; não perguntaste, eu sei, mas não pude resistir…), celebérrimo — todos, como podes ver, com um inegável toque erudito. 

Acontece, Paulo, que certos setores da imprensa — principalmente ligados à moda e ao colunismo social — passaram a usar liberalmente este sufixo, criando formas como chiquérrimo, riquérrimo, elegantérrimo; já ouvi boazudérrima (e, para meu espanto, uma forma totalmente inusitada, que não existia nem no Latim: carésima, gostosésima, peruésima!). Não tenho nada contra elas; as palavras, como os seres humanos, têm direito de existir, mesmo que não sejam lá boa coisa. Até gosto de usar algumas, quando quero fazer ironia ou brincadeira; só não vou empregá-las quando estou falando ou escrevendo em tom mais formal ou profissional.

Nesse sentido, a tua pergunta final é extremamente adequada: “se ambas estão corretas, existe uma que seria mais elegante utilizar?”. É isso aí, Paulo! Esse é o verdadeiro segredo de quem usa bem o Português: não se trata apenas de escolher entre uma forma correta e uma errada, mas sim escolher, entre duas formas corretas, a mais adequada para a situação. Elegantíssimo? Podes usar sempre, em qualquer contexto, em qualquer nível de linguagem. Elegantérrimo? Usa só no salão de beleza, na crônica social, na conversa entre amigos. Um abraço, e não deixes de dizer à tua filha que ela é que estava certa. Prof. Moreno

P.S.: Quanto ao macérrimo: eu disse, acima, que a composição vernácula de nossos superlativos é [adjetivo+íssimo] e que alguns apresentam, concomitantemente, uma forma mais erudita, proveniente do Latim. Assim acontece com pobre, que tem pobríssimo (pobre+íssimo) ou paupérrimo (no Latim, “pobre” é pauper, que encontramos também em pauperismo, depauperar, etc.); com doce, que tem docíssimo ou dulcíssimo (no Latim, “doce” é dulcis, radical que encontramos em edulcorante, dulcificar ou no nome Dulce). Pois bem, o adjetivo magro tem o superlativo vernáculo magríssimo ou a forma alatinada macérrimo; no Latim, “magro” é macer, radical que podemos encontrar em emaciar ou macilento. Com a nova “moda” do sufixo –érrimo, no entanto, criou-se também magérrimo, uma combinação popular, meio cruza de jacaré com cobra-d’água, onde se nota talvez uma analogia com negro nigérrimo. “Existe essa forma?” — já me perguntaram várias vezes. A resposta é sim; é claro que existe, se a maioria da população a utiliza diariamente (e os dicionários registram). Agora, quanto a usá-la ou não, vale o que eu sempre digo a respeito dessas variantes: camisa-pólo com bermuda é roupa bonita e decente, mas não serve para todas as ocasiões. Traje de recepção? Macérrimo. Traje de passeio ou esporte? Magríssimo. Camiseta com sandália, ou pijama com chinelo? Magérrimo

Depois do Acordo: pólo > polo

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.