softwares

O Doutor adverte: as palavras estrangeiras que ingressam em nosso idioma devem receber tratamento idêntico às nacionais.

Olá, Professor! Trabalho em uma agência de publicidade, e um cliente de tecnologia disse que não existe o plural da palavra software. Consultei o Houaiss e ele não diz nada sobre isso. O cliente está correto?

Carolina G. — São Paulo

Prezada Carolina: no Inglês culto formal, hardware e software ainda são considerados substantivos não-contáveis (mass nouns), o que faz com que o emprego do plural seja desaconselhado pela maioria dos gramáticos daquele idioma. Para o resto das línguas do planeta, contudo, a opinião dos gramáticos do Inglês vale menos que um tostão furado, e os dois vocábulos, que entraram no vocabulário tecnológico de dezenas de países, passaram por uma evidente evolução. Inicialmente, quando software designava a parte não-física da máquina (como na velha piada: “Software é o que a gente xinga, hardware é o que a gente chuta”), era comum usar-se este vocábulo apenas no singular; no entanto, no momento em que ele passou também a significar “programa de computador”, o plural passou a ser empregado largamente. Só para teres uma idéia, a forma pluralizada softwares bateu mais de 20.000.000 ocorrências no Google; quase todas essas páginas são escritas em países cuja língua nativa usa o S como marca do plural (Português, Francês, Espanhol, por exemplo) ou em países cuja língua, apesar de marcar seus plurais de outra forma, usa o S para os plurais estrangeiros (como o Alemão e o Italiano). É natural que assim aconteça, porque os falantes de todos esses idiomas tratam software como um substantivo normal, desconsiderando a classificação de “não-contáveis” que a gramática do Inglês atribui a ele.

Quando os vocábulo migram, eles terminam, assim como as pessoas, submetendo-se às leis do seu novo país. Não importa que gramáticos ingleses considerem e-mail como um não-contável, porque o mundo inteiro envia e recebe e-mails (no plural); não importa que, em Inglês, o plural de mouse seja mice; para nós, é mouses mesmo. E tem mais: como a internet é uma estrada que vai e vem, os próprios falantes do Inglês começam a aceitar esses plurais — a julgar pelo considerável número de artigos americanos, ingleses e canadenses que condenam a sua adoção (e que não seriam escritos se não houvesse simpatia pelas novas formas). A forma mouses, aliás, vem recebendo a preferência dos usuários técnicos e já está registrada num dicionário importante como é o American Heritage.

Prezada Carolina: o teu cliente disse que esse plural “não existe”? Ele não entende nada de linguagem. Ele poderia alegar, isso sim, que o singular é a forma recomendada no Inglês culto, ou também no uso técnico, quando estiver em jogo a oposição conceptual hardware x software. Aqui, no entanto, é diferente. Abraço. Prof. Moreno

Depois  do Acordo: idéia> idéia

Quer conhecer a mitologia grega?
Então ouça o podcast Noites Gregas, do professor Moreno.