coletivos

Professor Moreno, tenho curiosidade em saber o coletivo de leões (o animal, rei da floresta). Pesquisei algumas gramáticas e não encontrei o coletivo específico para eles. Vi que matilha pode ser usado para animais ferozes e cambada para gatos (já que o leão é um felino), mas não sei se são os indicados para leões. Sou professora de inglês e esta questão surgiu de uma aluna minha, que recebeu um e-mail fazendo referência aos leões como um grupo. Se puderes me ajudar, agradeço.

Tânia Gonçales

Minha cara Tânia: os coletivos específicos são tão poucos que há muito se deixou de levar tão a sério o estudo desta espécie de substantivo. As cabras têm um coletivo determinado (fato), e assim também os camelos (cáfila); os porcos não deixam por menos (vara), e os peixes vivem em cardumes. E a tartaruga? A cotia? O jacaré? O tatu? A lesma? O tamanduá? O bicho-preguiça? O canguru? Esses não têm coletivos específicos, principalmente por não terem o costume de aparecer em grandes grupos. Se fizermos questão de empregar um coletivo para estes animais, devemos usar os chamados coletivos genéricos (que, na verdade, terminam sendo usados para tudo, até mesmo para o porco, o camelo e a cabra, que tinham os seus coletivos específicos): bando, grupo, manada, rebanho, etc. É o caso dos teus leões; basta escolher um desses genéricos, que não esteja diretamente relacionado com alguma espécie (cardume de leão não dá, nem vara; cáfila muito menos, é óbvio). 

Outra leitora, a Nanci, escreveu perguntando o coletivo de rato: “Seria ninhada (por causa da criação), ou bando, ou nenhum deles?”. Ninhada serve tanto para os ratinhos quando para os filhotes de qualquer ave ou mamífero (de pinto, de cachorro, de gato, de leitão, etc.) nascidos de uma só vez; com certeza nossa leitora teve a atenção atraída pela expressão ninho de rato, usada para cabelo emaranhado, cama com as cobertas desfeitas ou gaveta desorganizada. O equívoco é normal; nossa memória vocabular vive nos pregando peças desse tipo. Como no caso dos teus leões, voltamos, assim, aos coletivos genéricos. Como grupo e manada (é ruim!) de ratos não dá, usamos bando, ou coisa semelhante. Estes coletivos estão ficando tão polivalentes que encontrei uma definição de cambada que poderia figurar naquela famosa enciclopédia chinesa citada por J. L. Borges: “cambada de caranguejos, chaves reunidas, gente ordinária, malfeitores, objetos enfiados em cordão, peixes, vadios e vagabundos”.

Não podemos esquecer que o Português usa, para expressar a idéia coletiva, sufixos extremamente produtivos, o que, aliás, explica por que temos tão poucos coletivos específicos: –ada, -eiro, -ria, -edo: boiada, formigueiro, cavalaria, pulguedo, etc. Para rato, o Aurélio XXI registra ratada e rataria. Para leão, certamente o Português poderá produzir algo como leãozada ou leonada, se for necessário — o que nunca é impossível: no momento em que se começou a chamar de perua aquele tipo de mulher espalhafatosa e cheia de jóias, ao lado de bando de peruas, passei a ouvir também formações derivadas como “Naquele bar tem uma peruada (ou peruagem, ou peruama) infernal”. Insondáveis são os caminhos de um idioma. Abraço. Moreno

Depois do Acordo: jóias > joias

idéia>ideia

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