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Lições de gramática Sintaxe das classes gramaticais

e nem

Diz um anúncio de jornal: “A Internet que não quebra a sua cabeça e nem o seu bolso.” Apenas um exemplo de algo que eu tenho lido bastante por aí e não consigo entender. Por que usar a expressão e nem quando a palavra nem teria exatamente o mesmo significado? Ou não teria?     

Giba Assis Brasil. 

Bem observado, Giba. A frase do anúncio está equivocada, sem dúvida. Contudo, o problema não é tão simples quanto parece. Há frases em que vai ocorrer, normalmente, a seqüência [E+NEM]. Explico.

1 — Só NEM — Nem é a união de [e+não] , como já observaste na pergunta. Como o E já está implícito no NEM, repeti-lo seria um daqueles erros tão famosos que até nome tem: pleonasmo vicioso: “Ele não voltou E NÃO avisou quando o fará” ou “Ele não voltou, NEM avisou quando o fará” Lembro que é indispensável que a oração introduzida por NEM seja antecedida por uma oração com NÃO ou qualquer outra palavra negativa (ninguém, nunca, jamais, etc.): “Nós não comparecemos à audiência, nem fomos citados de novo”; “Ninguém o ajudou, nem ajudará”; “Nunca visitavam os pais, nem telefonavam”; “Nem a polícia recuava, nem os manifestantes se dispersavam”.

Antes de todos, tudo e sempre, cabe ao NEM, sozinho,  expressar a negação: “Nem sempre teremos essa sorte”; “Nem tudo que reluz é ouro”; “Nem todos podem pagar esse preço”. Por fim, em algumas estruturas tradicionais o nem vale por e sem: “História sem pé nem [e sem] cabeça”; “Ele puxou o revólver, sem quê nem [e sem] para quê”; “Ele disse exatamente isso, sem tirar nem [e sem] pôr”.

2 — A seqüência E NEM — Observa os seguintes exemplos, todos corretos: “Ele me reconheceu E NEM me cumprimentou”; “Foi visitar o prefeito E NEM fez a barba”; “Devia-lhe muitos favores E NEM se propôs a ajudá-lo”. É importante perceber que este E não tem relação alguma com o NEM, ou seja, não existe, na verdade, a expressão E NEM. O que temos aqui é uma seqüência casual de dois vocábulos independentes, sintática e semanticamente. Vejamos:

(a) O valor da conjunção E, aqui, não é aditivo, mas adversativo (equivale a MAS, como na frase “Ele é bilionário E não ajuda ninguém”). Estas duas frases são sinônimas: “O professor me reconheceu E nem me cumprimentou” e “O professor me reconheceu, MAS nem me cumprimentou”.

(b) O NEM, por sua vez, está sendo usado para indicar que algo inesperado aconteceu. Compare:

1- O professor me reconheceu e NÃO me cumprimentou.

2- O professor me reconheceu, mas NÃO me cumprimentou.

3- O professor me reconheceu e NEM me cumprimentou.

4- O professor me reconheceu, mas NEM me cumprimentou.

Embora em todas as frases o nexo adversativo (tanto o MAS, quanto o E) indique que eu aguardava o cumprimento que não veio, em (3) e (4) fica implícito que isso era o mínimo que o professor devia ter feito. Percebe-se que nessas frases o NEM faz parte de uma expressão maior: NEM [AO MENOS], NEM [MESMO], em que a segunda parte pode vir explícita ou implícita:

5- O professor me reconheceu e NEM AO MENOS me cumprimentou.

6-O professor me reconheceu, mas NEM AO MENOS me cumprimentou.

Finalmente, meu caro Giba, nota que este NEM é bem diferente do que aparece acima, na seção 1. Enquanto aquele, por representar [e+não], deve sempre ser antecedido de uma oração negativa, este não tem a mesma exigência. Um grande abraço. Prof. Moreno

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