Nomenclatura Gramatical Brasileira

 

Professor: a gramática de Evanildo Bechara faz diversas referências, nas notas de rodapé, à NGB — Nomenclatura Gramatical Brasileira. Ela não tinha sido revogada? 

Carlos E. S. — Curitiba

Prezado Carlos: assim como os profissionais da área biomédica confiam na Nomina Anatomica (agora, Terminologia Anatomica — em Latim e, portanto, sem acento) que é uma nomenclatura internacional da anatomia humana, assim os professores de Língua Portuguesa confiam na Nomenclatura Gramatical Brasileira. Para os leigos no assunto, informo que a NGB, de 1958, representou um grande avanço no ensino do Português no Brasil (como o B presente em seu nome claramente indica, Portugal não tem nada a ver com ela). Antes dela, vivíamos numa verdadeira selva de terminologias; cada gramático de renome fazia questão de usar denominações próprias para as funções sintáticas, para as orações subordinadas, para as classes gramaticais, o que tornava quase impossível a homogeneidade no ensino gramatical. A partir da NGB, uma comissão formada por notáveis da época (entre eles, Antenor Nascentes, Rocha Lima e Celso Cunha) estabeleceu uma espécie de divisão esquemática dos conteúdos gramaticais, unificando e fixando, para uso escolar, a nomenclatura a ser usada pelos professores; em 1959, no governo JK, uma portaria recomendou sua adoção em todo o território nacional. Dessa data em diante, por exemplo, todos passaram a falar em objeto indireto, e não mais em “complemento terminativo” ou “complemento relativo”, ou quejandos; os adjetivos ficaram restritos aos qualificativos, enquanto os demais (demonstrativos, indefinidos, etc.) passaram a ser classificados como tipos de pronomes; o antigo condicional ganhou o duvidoso nome de futuro do pretérito; e assim por diante — o resto todo mundo sabe, porque todos aprendemos Português já dentro da NGB, usada até hoje. 

Ocorre que ela foi concebida com base nos conhecimentos de 1958 — quando ainda não funcionava regularmente, por exemplo, a cadeira de Lingüística nos Cursos de Letras. Os gramáticos da comissão, embora de renome, eram de formação tradicional e obviamente imprimiram nessa nomenclatura as suas concepções pessoais, muitas vezes limitadas. O resultado é conhecido por qualquer professor de Português: os livros mais sérios estão cheios de notas de rodapé, como percebeste, contestando aqui e ali a NGB, que precisa urgentemente ser revisada e reformulada, não só para adequá-la aos avanços registrados nos estudos da língua nesses últimos quarenta anos, como também para corrigir comezinhos erros de lógica, que tanto prejudicaram (e prejudicam ainda hoje!) o entendimento dos alunos. 

Um bom exemplo desses erros, difundido religiosamente em todos os livros didáticos deste país, é a absurda classificação do complemento nominal e do adjunto adnominal como funções normais do sintagma (ao lado do objeto direto, do indireto, do adjunto adverbial ou do predicativo), quando todos sabemos que eles são elementos internos aos sintagmas. Trocando em miúdos: eles não aparecem quando dividimos uma frase qualquer em suas partes constituintes; o complemento nominal e o adjunto adnominal só vão aparecer quando dividirmos as próprias partes constituintes da frase; em outras palavras, eles não são partes da frase, mas partes das partes das frases (vamos encontrá-los dentro de um sujeito, ou de um objeto direto, ou de um adjunto adverbial). Colocá-los no mesmo plano lógico das demais funções é o mesmo absurdo que dizer que na América do Sul temos a Argentina, o Uruguai, o Brasil, Minas Gerais, Curitiba e Venezuela… E notem: essa é apenas uma das inúmeras falhas que impedem que a NGB seja hoje levada a sério; na verdade, ela acabou se transformando num documento apenas com valor histórico. 

É evidente que ela precisa ser modernizada; o problema, contudo, é mais político do que parece, porque um documento desse tipo e desse alcance vai necessariamente tentar responder a uma pergunta crucial: qual é a descrição do Português que deve ser ensinada na escola? Acho que, na prática, só haveria uma coisa a fazer: criar uma comissão de lingüistas, de gramáticos e de professores efetivos (a turma do pó-de-giz, que fica ali, heroicamente, na linha de frente), a fim de que — com o bom senso e o desprendimento necessários para fazer concessões e abandonar vaidades — seja aprimorada a atual NGB. Como estamos no séc. XXI, não podemos deixar de aproveitar essa fantástica capacidade plebiscitária que tem a Internet, fazendo o que o Brasil de 1958 nem poderia imaginar: submeter as sugestões do novo projeto ao crivo dos milhares de professores e especialistas, a fim de que os membros da comissão ao menos possam sentir para que lado está soprando o vento. Não hesito em dizer que aqui devemos ser mais conservadores do que vanguardistas; a gramática a ser ensinada não precisa incorporar todos os avanços das pesquisas lingüísticas (o que seria inviável e, sem dúvida alguma, completamente inadequado), nem cair naquelas inovações terminológicas que pululam nas teses de pós-graduação. Devemos aproveitar o máximo possível da nomenclatura tradicional, já consolidada na memória de incontáveis gerações, modificando-a apenas naqueles pontos em que a mudança vai facilitar, para o aluno, a compreensão do modelo da língua. Um bom momento para essa imprescindível atualização da NGB teria sido o seu cinqüentenário, em 2008, mas infelizmente deixaram passar a oportunidade. Espero, ao menos, que alguma coisa aconteça antes que ela complete 100 anos.  Abraço. Prof. Moreno

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