trissesquicentenário

Prezado Senhor: precisamos de um vocábulo adequado para designar o 450º aniversário da cidade de São Paulo. Outro professor que consultamos disse que é trissesquicentenário, mas continuamos em dúvida e resolvemos consultar o senhor, que ainda parece ser de confiança.

Jornal XXX – Redação — São Paulo

Prezados amigos do Jornal XXX: fico satisfeito por gozar, entre vocês, de uma boa reputação; agrada-me essa aparência de ser confiável (embora aquele “ainda” esteja a me avisar que pode não ser por muito tempo…). Entendo o problema de vocês: como ninguém quer andar falando por aí no quadringentésimo qüinquagésimo aniversário da cidade, seria bom se tivéssemos um vocábulo para substituir toda essa traquitanda. No entanto, já vou avisando: percam as esperanças.

O elemento sesqui (literalmente, “e meio” — do Latim semis, “meio”, mais que, “e”) costuma indicar uma vez e meia a medida especificada em X na fórmula [sesqui + x]. No Latim, sesquilibra era uma libra e meia; sesquimensis era um mês e meio; sesquiuncia era uma onça e meia. Por analogia, criou-se sesquicentenário, um centenário e meio.

Ora, para indicar os 450 anos, criou-se artificialmente o mostrengo trissesquicentenário, que deveria ser decomposto, no cérebro do falante, como [três vezes um centenário e meio] — numa ingênua tentativa de transpor mecanismos da matemática para o mundo infinitamente mais complexo que é a linguagem humana. Não é assim (graças aos deuses!) que as palavras funcionam. Os poucos lunáticos que tentaram defender essa palavra tiveram a felicidade de estar diante de uma conta redonda (450 = 150 x 3). E como ficam os 250, os 350, os 550, que não são múltiplos de 150? Nos EUA (sim, lá também há birutas de todo o gênero) tentaram emplacar um demisesquicentennial (“meio sesquicentenário”) para designar os 75 anos! Felizmente, é sempre assim que acontece quando são propostas essas palavras inviáveis: a língua vem, cheira, não gosta e aí enterra. Abraço. Prof. Moreno

Depois  do Acordo:   qüinquagésimo> quinquagésimo

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Então ouça o podcast Noites Gregas, do professor Moreno.