o gênero de PERSONAGEM

Prezado Doutor: eu estava lendo uma resenha literária e estranhei quando o autor falou sobre “o personagem Capitu”. Eu sempre aprendi que era “a personagem“, mas meu amigo me fez ver que também soa meio esquisito dizer “a personagem Bentinho”. Afinal, como é que ficamos?

Sérgio G. Taquara (RS)

Meu caro Sérgio: para que tu e os demais leitores possam entender a minha posição quanto ao gênero do vocábulo personagem, devo começar relembrando alguns pontos de nossa velha gramática descritiva. Os substantivos do Português que se referem a seres humanos apresentam, na sua maior parte, uma forma para cada gênero: professor, professora; mestre, mestra; padeiro, padeira; etc. Há, no entanto, um pequeno grupo que tem apenas uma forma única, que vamos usar tanto para homens, quanto para mulheres. É muito importante lembrar que este grupo de substantivos uniformes divide-se, por sua vez, em três subgrupos:

1 — comum-de-dois — é aquele substantivo que, apesar de invariável, permite que nós distingamos o feminino e o masculino com base no artigo, numeral ou pronome que o antecede: o/a agente, este/esta colega, aquele/aquela intérprete, meu/minha cliente.

2 — sobrecomum — é o substantivo que tem um gênero gramatical determinado (ele ou é masculino, ou é feminino), mas que serve para designar pessoas de ambos os sexos. Um bom exemplo é cônjuge; este é um vocábulo exclusivamente masculino (o cônjuge, meu cônjuge); se eu precisar distinguir entre o homem e a mulher, no entanto, vou ter de lançar mão de recursos lingüísticos adicionais: o cônjuge feminino, o cônjuge varão, etc. Este tipo de substantivo pode (e deve), por sua vez, ser dividido em dois subgrupos:

2.1 — sobrecomum masculino — serve para ambos os sexos, mas só tem a forma masculina, com a qual vão concordar todos os seus determinativos: O indivíduo, OS dois cônjuges, O algoz.

2.2 — sobrecomum feminino — serve para ambos os sexos, mas só tem a forma feminina: A testemunha, A vítima, A criança

O problema com PERSONAGEM pode ser traduzido numa simples pergunta: em qual dos três grupos acima ele deve ser enquadrado? Da resposta que escolheres, caro leitor, dependerá o tratamento que vais dar a esse vocábulo:

A — sobrecomum masculino — se a tua opção foi por esse grupo, vais usar sempre o personagem, não importando se é homem ou mulher. “Capitu é talvez o melhor personagem de Machado de Assis”, “Ceci e Isabel são os dois personagens femininos mais importantes de O Guarani“, etc. Este é o gênero do vocábulo em Francês (personnage), de onde proveio a nossa palavra personagem; talvez por isso mesmo essa opção pelo masculino seja muito atacada pelos puristas, que vêem aqui o espectro do galicismo (ainda haverá quem fale nisso?).

B — sobrecomum feminino — quem prefere esta, usa sempre o feminino: “A personagem Bentinho”, “D. Quixote e Sancho Pança são as duas personagens imorredouras de Cervantes”. Muitos autores defendem esta forma, baseados num princípio bastante sólido: quase todos os vocábulos em –agem são femininos, em nosso idioma. Um exemplo famoso é a obra A Personagem de Ficção, organizada por Antônio Cândido, nossa grande autoridade em literatura.

C  — comum-de-dois — esta é a posição defendida por Celso Luft e Houaiss; esta também é a posição que prefiro. Da mesma forma que usamos O e A selvagem, vamos usar A personagem para os indivíduos femininos (“a personagem Capitu”; “as personagens Cecília e Isabel”) e O personagem para o sentido abstrato (agenérico) ou para o exclusivamente masculino: “o personagem de teatro é mais denso que o personagem do cinema”; “o personagem Bentinho”; “Bentinho e Capitu são os dois melhores personagens de Machado”; e assim por diante.

Todos nós sabemos que não adianta tentar forçar uma das escolhas acima; o máximo que podemos fazer é usá-la e, assim fazendo, contribuir para sua difusão, talvez até influenciar as outras pessoas para que também a usem. E não adianta ficar torcendo para que a nossa seja considerada a vencedora, porque jamais veremos isso acontecer — as três vão permanecer vivas por muito tempo, sobrevivendo a qualquer um de nós que esteja lendo essas linhas. Cada uma delas tem as suas razões, o que faz de personagem um belo exemplo de tolerância lingüística: usem a forma que preferirem, mas me dêem o direito de defender a minha escolha. Abraço. Prof. Moreno

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