surdo-mudo

 

Prezado Doutor: há um vocábulo composto que é apontado como exceção por um grande número de gramáticas. Refiro-me a surdo-mudo, que pode flexionar-se ora como surdo-mudos, ora como surdos-mudos; ora como surdo-muda, ora como surda-muda. Sou leitora assídua de sua página e me lembro de ter visto, em algum lugar, o senhor dizer que não há exceções em nossa língua. Afinal, surdo-mudo é ou não é exceção?”

A. Paula — Anta Gorda (RS)  

Minha cara Ana Paula: apesar de muitos gramáticos darem este vocábulo como exceção, ele é um composto como qualquer outro. Sua flexão é absolutamente regular e previsível, como vais ver em seguida; o problema da maioria desses gramáticos é sua falta, tantas vezes mencionada neste sítio, de uma formação científica adequada. Alguns têm sensibilidade aguçada para os fatos da língua, mas não conseguem enquadrar os fatos que observam na moldura da teoria. Vejamos.

Como já deves ter percebido, os vocábulos compostos do Português podem ser substantivos ou adjetivos. Na flexão dos SUBSTANTIVOS COMPOSTOS, aplica-se, basicamente, o princípio de flexionar todos os componentes flexionáveis do vocábulo. Observa couve-flor, couves-flores; obra-prima, obras-primas; onça-pintada, onças-pintadas; segunda-feira, segundas-feiras — todos os componentes (os substantivos couve, flor, obra e feira; os adjetivos prima e pintada; o numeral segunda) fizeram o que habitualmente fazem, quando são vocábulos isolados: formaram alegremente o seu plural. Compara com guarda-chuva, guarda-chuvas; abaixo-assinado, abaixo-assinados; o vale-tudo, os vale-tudo — os componentes com flexão nominal flexionaram-se (o substantivo chuva e o particípio assinado), enquanto os demais fizeram o que costumam fazer: ficaram invariáveis (os verbos guarda e vale; o advérbio abaixo; o indefinido tudo). Na frase “o surdo-mudo voltou”, o sujeito é um SUBSTANTIVO composto, formado de um substantivo (surdo) mais um adjetivo (mudo); consequentemente, vamos variar os dois componentes do vocábulo: o surdo-mudo, a surda-muda, os surdos-mudos, as surdas-mudas

Diferente, contudo, é a formação dos ADJETIVOS COMPOSTOS: ou eles estão constituídos de [adjetivo+adjetivo], ou de [substantivo+adjetivo]. No primeiro caso (que é o que nos interessa aqui), só flexionamos o segundo componente: parecer técnico-científico, pareceres técnico-científicos, assessoria técnico-científica, assessorias técnico-científicas. Nota como só sofreu variação de gênero e número o adjetivo científico. Ora, na frase “o menino surdo-mudo voltou”, o composto é agora interpretado como um ADJETIVO composto do primeiro tipo; sua flexão, portanto, será “o menino surdo-mudo“, “os meninos surdo-mudos”, “a menina surdo-muda“, “as meninas surdo-mudas“. Podemos até fazer uma frasezinha mnemônica (boa para lembrar): “No ensino dos SURDOS-MUDOS [substantivo] é importante que haja professores SURDO-MUDOS” [adjetivo]. Queres mais? “A SURDA-MUDA [substantivo] tinha receio de gerar uma filha SURDO-MUDA [adjetivo]”. Percebes a confusão daqueles gramáticos? Não se deram conta de que o vocábulo, ao mudar de classe, ficou submetido a outro sistema de regras. Espero ter sido claro, que o assunto é meio enroscado. Abraço. Prof. Moreno

 

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