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Lições de gramática Sintaxe das classes gramaticais

O ou LHE

Veja o novo uso que vem sendo dado, pouco a pouco, ao famigerado pronome LHE.

Doutor Moreno, meu nome é Irene; eu sou professora de alemão e estou com uma enorme dúvida na gramática portuguesa, com relação ao verbo conhecer. Quando eu converso com uma pessoa e quero dizer que a conheço, qual é a forma correta? “Eu LHE conheço” ou “Eu A conheço”? Existe uma variação do pronome em relação ao tratamento mais formal? Muito obrigada!

Irene Schwarz

Minha cara Irene: a tua “enorme” dúvida é bem pequenina… O verbo conhecer é um transitivo direto, e, portanto, recebe o pronome oblíquo O (feminino, A): “Eu O conheço” (homem), “Eu A conheço” (mulher). É claro que estamos falando do registro culto, onde O representa especificamente objetos diretos, enquanto LHE representa objetos indiretos.

No registro popular, no entanto, onde não existe essa consciência da sintaxe (quem sabe o que é objeto direto ou indireto?), é natural que o uso desses pronomes tenha sofrido uma enorme alteração. Em primeiro lugar, o Português falado no Brasil simplesmente eliminou o pronome O, passando-se a usar ELE como complemento de verbos transitivos diretos: “Eu vi ele“, “Encontrei ela“, etc., prática ainda inaceitável na linguagem culta. Em segundo lugar, o LHE desvinculou-se totalmente de sua função sintática original e passou a ser empregado apenas como forma respeitosa de tratamento. Enquanto se usa “eu TE conheço”, “eu TE vi” para uma pessoa íntima, prefere-se “eu LHE conheço”, “eu LHE vi” para uma pessoa de maior hierarquia ou cerimônia — outra prática ainda considerada inaceitável no registro culto, que aqui exigiria “eu O conheço”, “eu O vi”, etc.

 Se eu estivesse ensinando um estrangeiro a escrever Português, eu insistiria na distinção sintática entre O e LHE; no entanto, se eu o estivesse ensinando a falar, com certeza eu o acostumaria a alternar entre o TE (para os mais próximos) e o LHE (para os de maior cerimônia), de acordo com a menor ou maior formalidade da situação, porque assim ele estaria perfeitamente integrado com a fala do Português Brasileiro. Abraço. Prof. Moreno

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