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locução x vocábulo composto

Este é o ponto mais controvertido do Vocabulário Ortográfico da ABL. Reunimos aqui três perguntas que versam sobre o mesmo ponto, esperando, assim, fornecer todo o material necessário para o leitor decidir de que lado vai ficar.

locução x vocábulo composto

Caro Professor, há diferença entre locução substantiva e substantivo composto? Em caso afirmativo, poderia o Professor me esclarecer qual é essa diferença? Um grande abraço!

Paulo Sérgio A. — Rio de Janeiro

Meu caro Paulo, este sempre foi (e sempre será) o grande problema do uso do hífen em nosso idioma: saber quando uma locução passa a ser um substantivo composto. Em que momento saímos da Sintaxe (vários vocábulos) e entramos na Morfologia (um só vocábulo)? Por que papel almaço e papel da Índia são locuções, e papel-bíblia é um substantivo composto? Por que alguns (Aurélio, por exemplo) consideram pôr-do-sol um substantivo, enquanto Houaiss classifica como uma simples locução (pôr do sol)? Apesar de existirem vários “palpites” sobre como se poderia fazer esta diferenciação, acho que nunca poderemos chegar a uma resposta definitiva — não por deficiência de nossas teorias ou incompetência de nossos estudiosos, mas exatamente pela natureza difusa do problema.

Embora não seja especificamente sobre este assunto, minha tese de doutorado trata desta progressiva lexicalização de estruturas sintáticas (em outras palavras, da passagem da Sintaxe para o Léxico), um processo usual no Português em que a frase ou locução X passa a ser o vocábulo composto Y). Examinando os dados, a conclusão obrigatória é que não existe um limite definido para essa passagem. Em vez de uma alteração definitiva, pontual, em que X se transforma em Y (assim como, num dado momento, a lagarta vira borboleta), o que temos é uma transformação tipo “O Médico e o Monstro”, em que o novo ser é, ao mesmo tempo, médico e monstro, se bem entendes a metáfora.

Nota que a presença do hífen, aqui, é o que serve para distinguir aquilo que consideramos locução daquilo que consideramos vocábulo. Há gramáticos que vêem em ponto e vírgula uma locução (daí não usarem o hífen); Aurélio e Houaiss, por sua vez, consideram-no um vocábulo e, ipso facto, escrevem ponto-e-vírgula (como podes ver, é uma repetição do pôr-do-sol/por do sol do primeiro parágrafo).

É exatamente por isso que ninguém entendeu essa orientação esdrúxula do VOLP de eliminar o hífen de vocábulos compostos que tenham preposição ou conjunção entre os elementos. Foi uma interpretação equivocada do texto do Acordo, e tenho certeza de que a ABL acabará voltando atrás, para não se cobrir de ridículo. Portugal entendeu corretamente o que foi disposto e manteve os hifens em vocábulos como pé-de-moleque, maria-vai-com-as-outras, mula-sem-cabeça, dia-a-dia, pé-de-cabra, etc. Abraço. Prof. Moreno

pão-de-ló e dia-a-dia

Caro professor, desculpe-me incomodá-lo mais uma vez, porém, uma dúvida veio à baila e gostaria, se possível, que o senhor me esclarecesse. Há alguns dias, ouvi num programa de rádio que o hífen havia sido abolido em todas as palavras compostas ligadas por preposição (ex.: fora-da-lei, à-toa, pão-de-ló, dia-a-dia, etc.). Pois bem, ontem mesmo, vi numa edição atualizada do Aurélio (apregoando estar de acordo com o Acordo Ortográfico) a palavra pão-de-ló com hífen (como sempre escrevemos). Bem, o que de fato é verdade? Grato mais uma vez.

Valdecir T. — São José dos Campos (SP)

Meu prezado Valdecir: tua pergunta toca no ponto mais controvertido do novo Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, (o famoso VOLP), recentemente publicado por nossa Academia de Letras. Interpretando equivocadamente o texto do Acordo, a comissão brasileira decidiu, sem tir-te nem guar-te, eliminar o hífen de qualquer composto que tenha preposição ou conjunção unindo os seus elementos — exatamente como pão-de-ló ou dia-a-dia, como vocês perguntaram.

Ora, mesmo que aqui o texto do Acordo não tenha uma redação muito feliz (como todo o resto, aliás), fica bem claro, numa leitura mais cuidadosa, que o princípio geral é usar o hífen apenas nos vocábulos compostos, distinguindo-os das meras locuções. Afinal, essa sempre foi a utilidade deste sinal: distinguir uma mesa redonda (quadrada, oval, etc) de uma mesa-redonda (reunião para discutir um tema ou fazer uma deliberação), ou seja, distinguir uma locução formada por duas palavras independentes (mesa redonda) de um vocábulo composto (mesa-redonda).

Pois nossas sumidades resolveram manter este hífen apenas quando o vocábulo é composto de dois elementos (pombo-correio, couve-flor, água-furtada); quando tem mais de dois, a comissão, numa atitude inexplicável e completamente equivocada, decidiu suprimi-lo. Dessa forma, se fôssemos levar a sério esta sandice, substantivos compostos como pé-de-moleque, fora-da-lei, mula-sem-cabeça passariam a ser escritos pé de moleque, fora da lei, mula sem cabeça! Teríamos, pela primeira vez na História, substantivos com espaços em branco entre os seus elementos! Um vocábulo com espaços entre seus componentes? Isso não existe. A diferença entre vocábulo e locução deve ser assinalada por hífen, não importa o número de componentes que o composto venha a ter. Ele vive fora da lei: é uma locução formada de três vocábulos. O xerife prendeu os fora-da-lei: é um vocábulo composto.

Infelizmente, a nova edição do Vocabulário Ortográfico traz todos esses vocábulos sem o hífen, mas, curiosamente, classificados ora como substantivo, ora como adjetivo. Ao lado de maria vai com as outras, tiveram a coragem de registrar “s.f.“. Substantivo feminino? Mas isso é uma frase completa, com sujeito, verbo e tudo mais! Sem o hífen, fica completamente impreciso o limite entre a morfologia e a sintaxe.

Não preciso dizer que este escandaloso equívoco, que torna o VOLP totalmente imprestável, é a interpretação brasileira; os portugueses, com mais prudência, ainda não prepararam o seu VOLP, mas todos os especialistas que comentam o Acordo são unânimes em conservar o hífen de pé-de-moleque, pé-de-valsa, pão-de-ló, deus-nos-acuda, bumba-meu-boi e tantos outros. É assim que todos nós também devemos escrever. A Academia foi contra? Pior para ela, que vai se cobrir de vergonha por ter chancelado uma publicação tão irresponsável como esta. Abraço. Prof. Moreno

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