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etimologia médica

Hipócrates e Galeno, os dois grandes médicos da Antiguidade Clássica, ficariam abismados se pudessem conhecer os avanços científicos e tecnológicos da Medicina moderna; no entanto, muitas das palavras que eles usavam dois mil anos atrás fazem parte do vocabulário de todos os médicos do séc. XXI.

1. À minha volta tem início uma animada conversa sobre signos e horóscopos. Eu começo a me remexer na cadeira, estudando furtivamente as possíveis rotas de fuga, quando o dono da casa, bom amigo de muitos anos e excelente anfitrião, olha para mim, sorridente, e já vai avisando aos circunstantes que, nestas questões astrológicas, não adianta falar comigo porque sou um incrédulo irremediável. Suporto, por alguns instantes, alguns olhares de sincera comiseração, mas é tudo: o recado está dado, e não preciso mais fugir. Eu estou me divertindo, resguardado pelo prudente silêncio que adoto nessas horas; o vinho é bom, a conversa é cordial e, como sobremesa, ainda colho algumas pérolas maravilhosas. Uma senhora comenta, em tom de confidência, que o casamento de Hitler era muito esquisito, pois ele gostava de arianas, mas tinha casado com Eva Braun, que era de Aquário. O anfitrião olha para mim, esperando que eu me manifeste, mas finjo que não ouvi. Não vou estragar o jantar desta boa alma explicando-lhe que não se trata aqui de alguém nascido sobre o signo de Áries, mas dos arianos, mitológico povo indo-europeu que representava, no delírio nazista, o ideal de pureza racial. A idéia de que ela sempre entendeu o discurso sobre a superioridade ariana como uma discriminação contra os nascidos nos demais signos, para mim, já vale a noite.

2. Como num ritual primitivo, as presentes vão anunciando, uma a uma, o signo a que pertencem. A roda gira e vejo que estou cercado de librianas, sagitarianas, capricornianas, piscianas, geminianas, taurinas – um desfile de adjetivos formados pelo mesmo molde, exceto em escorpianas, que, se seguisse o modelo derivacional de leão > [leon] > leonina, deveria dar algo como escorpioniana, palavra impronunciável que o filtro da língua simplesmente abortou. “Pois eu”, diz enfim uma jovem senhora, “sou caranguejo. Caranguejiana não existe, não é, professor?”. Pronto, agora é comigo. “Não, não existe; há caranguejeira e caranguejola, mas nada têm a ver com os signos. E canceriana? Não serve?”, pergunto eu, com certa maldade. “Ah, mas essa eu nunca vou usar. Parece cancerosa! Sei que não há relação entre o câncer do signo e o câncer da doença, mas assim mesmo acho sinistro”. Concordo, para ser gentil, mas hoje, algumas semanas depois, sinto-me confortável para revelar que a palavra é a mesma, desde a sua origem.

3. O zodíaco, derivado do mesmo elemento grego zoion (“animal; ser vivo”), que nos deu zoológico e zoologia, era uma faixa imaginária na esfera celeste, o zoidiakos kuklos (“círculo de animais”), que abrangia as constelações que deram nome aos signos – entre elas o caranguejocancer, em Latim -, animal  que os romanos vinculavam à terrível enfermidade. Essa denominação já ocorria entre os gregos, que também designavam o bicho e a doença com a mesma palavra – karkínos -, de onde proveio carcinoma. Há várias hipóteses para explicar por que essa palavra adquiriu dois sentidos tão diferentes, mas nenhuma delas jamais será definitiva, o que é normal em todas essas designações baseadas em semelhanças e associações (quando o prezado leitor abrir o porta-malas e encontrar aquele mecanismo usado para erguer o carro, na troca de pneus, pense nisso: o que ele tem de semelhante com um macaco? Para os argentinos e uruguaios, não deve ter nada, pois o chamam de gato – por razões que também eles desconhecem).

Grande parte da nomenclatura médica do Português proveio da Antiguidade Clássica, especialmente do trabalho de dois médicos excepcionais, o grego Hipócrates (460-377 a.C) e o romano Galeno (131-200 a.C). As palavras que eles empregavam continuam a ser usadas ainda hoje, dois mil anos depois, embora o seu significado tenha sofrido alterações inevitáveis, já que vinham de uma época em que a ciência se limitava aos dados que pudessem ser captados pelos cinco sentidos do observador. Segundo Galeno, (que vivia em Roma mas escrevia em Grego), o nome câncer teria sido usado porque em alguns tumores as veias intumescidas que circundam a parte afetada assumem a aparência das patas de um caranguejo; outros atribuem o nome a uma sinistra metáfora: o local do tumor é corroído dolorosamente como se um caranguejo o devorasse; outros comparam a dureza da carapaça do crustáceo com um tipo de tecido canceroso — e assim por diante, mas todas essas hipóteses reforçam a ligação que a nossa dama tentava negar entre o signo e a doença. Afinal, é uma atitude compreensível; se ela é supersticiosa ao ponto de acreditar que algum astro deste infinito universo influi, de alguma maneira, na sua rica vidinha aqui em Porto Alegre,  posso imaginar que ela considere esta coincidência de nomes um sinal de mau agouro…

(continua)

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