colocação do pronome

Professor Moreno, encontrei isto de sua autoria:

“Em princípio, usamos (no Português Brasileiro) SEMPRE o pronome oblíquo  antes do verbo (próclise), a não ser nos casos em que o verbo inicie a frase  (o que deixaria, é óbvio, o pronome na cabeça da frase). Por isso, deves  preferir “o livro SE encontra” , “todos ME esperavam”, “eu ME confundo” – e assim  por diante. Toma cuidado, que a maioria das regras de colocação do pronome  que vais encontrar nas gramáticas veio de Portugal, que desenvolveu um  sistema prosódico diverso do nosso”.

Agora fiquei bastante confuso; eu sabia que a posição normal dos pronomes  oblíquos átonos é depois do verbo (ênclise); a próclise só seria usada quando  justificada por vários (o Senhor bem os conhece) motivos, e também sabia que  não existe língua brasileira; na verdade, a “nossa” língua é apenas uma  variação da língua portuguesa, sem no entanto haver diferenças nas regras. E  agora?”

Paulo César – Fortaleza


Meu caro Paulo César: confusas estão as nossas pobres gramáticas, que, com honrosas exceções, reproduzem, como bons papagaios desta luminosa Pindorama, as regras de colocação usadas em Portugal. Tens razão em dizer que todos os países lusófonos utilizam o Português, mas temos de distinguir, para fins de estudo sério, o PE (Português Europeu), o PB (Português Brasileiro) e o PA (Português Africano) – da mesma forma que se faz com o Inglês (britânico, americano, australiano, etc.).

A colocação do pronome oblíquo átono é um dos xibolês da lusofonia: enquanto os portugueses vivem usando a ênclise (para eles, os casos de próclise precisam ser motivados objetivamente), os brasileiros só usam a próclise, até mesmo no início da frase – o que exige aquela regrinha indispensável para quem ensina escrita culta: “não se inicia frase com pronome oblíquo” (isso para nós, simples mortais, porque os escritores já o fazem desde a Semana de Arte Moderna de 22). Jamais ouvirás (e a fala precede a escrita, não te esqueças …) um brasileiro correr atrás de sua amada dizendo “Espera-me! Ouve-me! Amo-te!”. Essa diferença entre nós e os portugueses, neste caso específico, é devida exclusivamente à realização fonológica  do pronome; em Portugal, diferentemente daqui, a vogal final se reduz tanto que o pronome praticamente se limita à consoante. O te de devo-te é realizado como um /t’/ – o que nos permite entender por que a preferência lusa recai em /devot’/, e não, como no Brasil,  /tidevo/.

Exatamente por essa diferença prosódica, nós, brasileiros, preferimos a próclise em qualquer situação; só não a utilizamos no início da frase porque há uma regra que o proíbe (isso na escrita, porque, na fala,  só se ouve “te vi, me encontra, nos viram, me pegaram“)*. Se fores, como parece, um leitor de gramáticas, vais ver que elas apresentam uma fantástica teoria para os casos de próclise, detalhando “regras” e mais “regras” para o seu emprego. Havia alguns birutas que falavam até na “atração” que algumas palavras exerceriam sobre os pronomes! Eu próprio, pequenino, lembro de perguntar à professora se tal palavra atraía ou não o pronome, e ela respondia que sim ou que não, compenetrada, honestamente acreditando naquela baboseira! Ora, se somarmos todos os “casos que exigem próclise”, como se diz por aí (em frase negativa, em frase interrogativa, em orações subordinadas, com o sujeito expresso, etc., etc.), praticamente não sobra nada – exceto aquela já referida estrutura em que a frase inicia pelo verbo: “devo-te“, “espera-me“. Não sei como, apesar de tudo isso, alguém ainda tem coragem de dizer que a posição “normal” do pronome é a ênclise. Enxergas o equívoco? Eles não perceberam que trocamos de hemisfério e que, conseqüentemente, certas verdades precisam ser adaptadas. Os ciclones, em Portugal, giram para a esquerda; os nossos giram no sentido do relógio. Um livro de Física, para ser utilizado aqui e lá, precisaria fazer essa indispensável adaptação. Uma gramática também. Abraço. Prof. Moreno

* aqui, em notinha reservada: é daí que vem o mifo, sifo, nusfo (que pronunciamos /mífu/, /sífu/, /núsfu/ e que todos sabemos muito bem o que querem dizer …

Depois do Acordo: conseqüentemente > consequentemente

Quer conhecer a mitologia grega?
Então ouça o podcast Noites Gregas, do professor Moreno.