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Quem sabe, sabe

Nem tudo que reluz é ouro, nem tudo que balança cai. Não se usa vírgula entre o sujeito e o verbo? Às vezes se usa, sim.

Como pedrada em abelheiro, as recentes colunas sobre o ponto-e-vírgula levantaram uma revoada de perguntas sobre pontuação. Um leitor muito qualificado (já explico o epíteto) quer saber se a regra que proíbe a vírgula entre sujeito e predicado não pode ter exceções, pois na peça “A vida é sonho”, de Calderón de la Barca, vem “La vida es sueño, y sueños, sueños son” — o que, em vernáculo, daria “A vida é sonho, e sonhos, sonhos são”. O exemplo, além de cultíssimo — afinal, por estas plagas, quem anda lendo Calderón no original? —, é excelente, pois nos obriga a trazer para a luz alguns princípios fundamentais.

Antes de mais nada, é preciso deixar  bem claro que  não existe uma regra que proíba a vírgula entre o sujeito e o predicado, mas sim a recomendação veemente, por parte dos professores e gramáticos de todo o país, para não fazê-lo. No entanto, como já frisei várias vezes, esta regra de pontuação é mais um conselho do que uma regra propriamente dita. Ela não tem, como as regras de acentuação, aquela obrigatoriedade que não admite divergências, e haverá casos, como este, em que é necessário (ou aconselhável) contrariá-la deliberadamente, a fim de tornar a leitura mais fluente.

O princípio geral é muito simples: como devemos reservar a vírgula para assinalar tudo aquilo que foge à normalidade sintática, é evidente que não há razão para separar o sujeito do verbo, nem o verbo de seu complemento, já que esta é a ordem canônica da frase no Português. Todavia, quando o sujeito for oracional (representado por uma oração subordinada substantiva), os bons escritores empregam, muitas vezes, uma vírgula para assinalar com maior clareza o fim do bloco do sujeito. Em Machado de Assis encontramos tanto exemplos sem vírgula (“Quem não viu aquilo não viu nada”; “Quem for mãe que lhe atire a primeira pedra”) quanto com vírgula (“Quem perde uma das metades, perde naturalmente metade da existência”; “Quem viesse pelo lado do mar, veria as costas do palácio, os jardins e os lagos…”; “Quem morreu, morreu”). Um excelente exemplo pode ser encontrado em Vieira: “…ninguém se atreva a negar que tudo quanto houve, passou, e tudo quanto é, passa”. Não podemos negar que a vírgula empregada nos exemplos acima apenas veio facilitar o trabalho de processamento da frase; se ela fosse inadequada, ocorreria o efeito oposto. Foi certamente por isso que os nossos estudiosos sempre consideraram facultativa a vírgula nesta posição.

Num breve passeio pelo mundo dos provérbios portugueses, há muitos exemplos em que esta vírgula, embora possível, pode ser dispensada: “Quem avisa amigo é”; “Quem bate no cão bate no dono”; “Quem dá o mal dá o remédio”; “Quem quer o fim quer os meios”, “Quem não deve não teme”. Ela passa a ser muito útil, no entanto, nos casos de construção paralela, em que o verbo da oração substantiva é seguido imediatamente pelo verbo da oração principal: “Quem quer, faz; quem não quer, manda”. “Quem sabe, faz; quem não sabe, ensina”. “Quem procura, acha; quem guarda, sempre tem”. “Quem não faz, leva”. Agora, se o verbo for idêntico nas duas orações, esta vírgula passa a ser indispensável: “Quem deu, dará; quem pediu, pedirá”. “Quem vai, vai; quem fica, fica”. “Quem sabe, sabe”. “Quem pode, pode” – isso sem falar naqueles casos em que a forma verbal pode se confundir com um substantivo homógrafo, criando-se uma ambiguidade que a vírgula desmancha imediatamente: “Quem quiser, peça“; “Quem ama, cobra“; “Quem teme, ameaça“; “Quem deseja, casa” (não se trata de alguém que “quer peça”, ou “ama cobra”, ou “teme ameaça”, ou “deseja casa”).

No belíssimo exemplo do Calderón que deu origem a esta coluna, basta comparar a versão com vírgula — “E sonhos, sonhos são” — com a versão que seria, segundo alguns, a “correta” — “E sonhos sonhos são” — para ver que aquela vírgula é decisiva para a imediata compreensão do verso por parte do leitor. Aqueles que protestam contra essa flexibilidade demonstram que não compreenderam que a razão de ser da pontuação é o leitor. Não se trata, aqui, de voltar àquela antiga visão de pontuação subjetiva, submetida ao simples capricho de quem escreve; bem pelo contrário: a finalidade exclusiva dos sinais de pontuação é orientar o leitor no trabalho de decodificar as frases que escrevemos. Tudo que contribuir para isso será bem-vindo (e vice-versa).

Ah, e já que estamos falando nisso, informo aos amigos que acabo de entregar à L&PM os originais do meu livro sobre pontuação. A ver…

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