Sobre o livro do MEC (1)

Quem reagiu contra a publicação do MEC não estava repudiando os princípios da ciência da Linguística, mas sim enviando um claríssimo recado que os linguistas insistem em não ouvir: não é isso o que esperamos da escola.

 

O artigo que publiquei na semana passada — “Que língua a escola deve ensinar?” —  expõe, de maneira sincera, o que deveria ser, para mim, o ensino do idioma; agora, como conseqüência lógica, preciso dizer a meus leitores o que penso sobre esta polêmica que vem dividindo o país. Desde a primeira hora, sem hesitar, fiz questão de deixar bem claro que considerava equivocado este material, lamentando que o MEC o tivesse aprovado para ser distribuído no atacado para os alunos do EJA. No entanto, como a urgência daqueles dias era derrotar a famigerada lei dos estrangeirismos (oportunamente vetada pelo governador), dediquei a ela nossa última coluna e coloquei o livro do MEC na lista de espera.

Ora, antes que o demo esfregasse um olho, o milharal pegou fogo e o assunto levantou uma fumaceira como há muito não se via; desde que eu me conheço por gente nunca tinha visto um livro didático de língua portuguesa levantar tamanha discussão neste país. Intelectuais, professores, lingüistas, alunos de Letras, imortais da ABL, jornalistas, curiosos, ONGs de toda espécie e loucos de todo gênero se engalfinharam numa verdadeira batalha campal, passando a se alvejar mutuamente com artigos, colunas, a-pedidos, declarações, desmentidos e cartas circulares pela internet, uns a defender, outros a atacar a iniciativa do Ministério.

Não foi um debate elegante, muito menos esclarecedor. Tanto um lado quanto o outro — uns por desconhecimento, outros por estratégia — se apegaram a detalhes secundários do problema. Em questão de horas as possíveis linhas de discussão tinham se reduzido praticamente a uma só: condenar ou justificar concordâncias do tipo *”os livro” ou *”nós pega os peixe”, apresentados pela autora como exemplo de construções legítimas dentro da variante popular de nossa língua. Lá em cima, os lingüistas, acuados mas organizados, concentraram seus esforços em informar ao povo da planície que há quase um século a Ciência aceita como fato indiscutível a existência de variedades dentro de um mesmo idioma — aproveitando, en passant, para criticar a mentalidade tacanha daqueles que ainda dividem o mundo da linguagem em “certo” e “errado”. Em outras palavras, escolheram o ponto mais favorável para defender a muralha, pois é muito improvável, se não impossível, que alguém ainda tenha topete e argumento para afirmar que a linguagem que emprego neste momento seja idêntica à variedade usada por meu bisavô, por um cortador de cana do Nordeste ou por uma adolescente da Barra da Tijuca.

Aqui embaixo, no entanto, o restante da população brasileira (uns 90%, eu diria), com forcados e tochas acesas, fazendo ouvidos moucos às explicações dos especialistas, tratou de investir, com toda a fúria, contra o castelo do MEC, bradando contra o desperdício de dinheiro público e contra a ineficiência do ensino de Português. Uma onda avassaladora de revolta tomou conta das redes sociais na internet, onde não faltaram os trogloditas de sempre, que aproveitaram o tumulto para pregar a volta da gramática autoritária, com suas regras artificiais e imutáveis. O significativo é que este movimento espontâneo, incontrolável, não é, como quiseram alguns fiéis remanescentes da antiga igreja marxista, um movimento comandado pela elite, inconformada com a ascensão econômica e política das classes menos favorecidas. Tivessem eles o hábito de ouvir o povo que pretendem defender, fizessem eles uma enquete entre os próprios estudantes a que o manual se destina, e veriam — posso imaginar sua supresa! — que essa concessão que o livro faz às variantes populares, que esse tratamento simpático e acolhedor dispensado, por exemplo, ao *”nós pega peixe”, vai contra tudo o que os alunos do EJA esperam da escola que freqüentam com tanto sacrifício (e esses eu conheço muito bem; lecionei, por anos a fio, nas turmas da noite do Supletivo).

Examinando objetivamente o que aconteceu nesses últimos dias, somos obrigados a admitir que os dois grupos têm lá suas razões, e que sua divergência irredutível nasce das concepções de linguagem praticamente opostas que cada um deles alimenta. A Lingüística, ciência moderna, estuda a língua como um organismo multifacetado, em constante mutação, impossível de ser aprisionado em preceitos que regulem o seu emprego; o usuário comum, por sua vez, quer estudar a língua como um sistema padronizado de regras aceitas pelo consenso das pessoas cultas. O grande contingente que reagiu contra a publicação do MEC não estava, a meu ver, repudiando o saber dos cientistas, mas sim, como veremos na próxima coluna, enviando um claríssimo recado que os lingüistas insistem em não ouvir: não é isso o que esperamos da escola. (continua)

 

Depois do Acordo:

conseqüência>consequência
lingüista>linguista
freqüentam>frequentam
Lingüística>Linguística

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