O livro do MEC (conclusão)

 

Do ponto de vista científico, desconhecer o Português padrão não representa deficit algum; do ponto de vista social, no entanto, esse desconhecimento é uma verdadeira SENTENÇA CONDENATÓRIA.

 

1 — O conhecimento da NGB é indispensável — Terminei a coluna anterior declarando, taxativamente, que a condição mínima para um aluno estudar de forma sistemática o Português é o domínio de uma metalinguagem comum, consolidada, usada por todos os professores e por todos os livros que tratam do idioma. É por isso, aliás, que todos os países do mundo exigem que o aluno saia da escola dominando algum tipo de nomenclatura obrigatória. O Brasil tem a NGB, Portugal tem a NGP — modelos certamente discutíveis do ponto de vista da Lingüística, mas que, com algumas pequenas correções, são satisfatórios para a prática do ensino, baseados no mesmo fundo comum greco-romano adotado pela gramática escolar de todas as línguas do Ocidente (Portugal viveu há pouco uma frustrada tentativa de mudança, quando uma comissão de lingüistas fez aprovar uma terminologia gramatical “inovadora”, que, para alívio de todos, foi jogada no lixo ao cabo de quatro anos desastrosos).

2 — O professor de Português não é feio como pintam — Os defensores desse novo ensino light e descafeinado do Português têm um saco de pancadas preferido: o professor retrógrado e prescritivista, que tratava o idioma como coisa estática e imutável, inelástica, redutível a uma “pilha de regras” caprichosas, às quais todos os usuários deveriam se submeter. Este ogro autoritário não admitia contestação, e ai de quem se insurgisse contra algum dos princípios que defendia, pois logo tratava de acalmá-lo usando os escritores clássicos (nem sempre os melhores) como um verdadeiro porrete: e toma Filinto Elísio, e dê-lhe Castilho, e toma Coelho Neto.

Ora, como diria um personagem do Eça, não me venham com lérias! Este personagem há muito desapareceu de nossa escola, junto com o guarda-pó e a palmatória; é apenas um bicho-papão inventado para assustar as crianças do curso de Letras e promover a posição “libertária” defendida por esses novos adeptos de Rousseau. É — vou escrever bem devagar — apenas uma caricatura grosseira, uma verdadeira injustiça para os tantos bons e verdadeiros professores que honram nossa profissão. O professor de Português procura incutir em seus alunos o interesse pela palavra, pelo texto, pelo livro e pelo dicionário, explicita a estrutura de nossa língua, destaca as diferenças entre a escrita e a fala, discute criticamente as regras “consagradas”, aponta as várias alternativas existentes para cada situação — e também recorre aos clássicos, mas com o intuito de mostrar a riqueza do idioma e pôr no seu devido lugar aqueles tiranozinhos que passam a vida a condenar construções como “risco de vida”, “faz com que” ou “a grande maioria”.

3 — A escola tem a obrigação de ensinar uma língua padrão — O repúdio àquele ensino dogmático do passado não pode servir de pretexto para banir da Escola toda e qualquer atitude prescritivista, nem altera a verdade absoluta de que todo estudante precisa dominar a língua standard para usá-la nos contextos e nas situações em que ela for mais adequada e recomendável. Aqui existe um mal-entendido tragicômico: quando os lingüistas dizem (às vezes, chegam a gritar!) que uma variedade do idioma é tão boa quanto as outras, o público simplesmente os ignora. Sei que, aos olhos de um cientista, esta indiferença do leigo para com a espantosa complexidade de qualquer variedade lingüística deve parecer irracional, mas ele precisa entender que do ponto de vista social não há irracionalidade alguma em privilegiar uma variedade sobre as outras. Aos olhos de um cientista, isso é uma manifestação do que ele chama de preconceito lingüístico; aos olhos de qualquer brasileiro, o preconceito lingüístico — assim como dezenas de outros preconceitos, aliás — existe, existiu e existirá, mesmo se “um mundo melhor for possível”. É exatamente por isso que ele procura dominar um sistema que o livre de julgamento negativo por parte dos outros; a existência de uma norma padrão que possa orientá-lo faz com que ele se sinta mais seguro e confiante de que suas escolhas serão aceitas dentro do consenso lingüístico da comunidade em que vive.

É por isso também que as tentativas de tranquilizá-lo, de convencê-lo de que o Português que ele usa é tão bom quanto o das “elites” são encaradas como pura conversa para boi dormir. Do ponto de vista científico, desconhecer o Português padrão não representa deficit algum; do ponto de vista social, no entanto, esse desconhecimento é uma verdadeira sentença condenatória. O cidadão procura limites bem claros, que ele possa enxergar para não transgredir — preocupação, aliás, compartilhada por todos nós, do aluno do EJA aos pós-graduandos em Lingüística. Ele quer, ora bolas, dominar um modelo que o deixe seguro ao redigir seu convite de casamento, ao registrar o nome do filho, ao rabiscar um cartaz para seu carrinho de cachorro-quente, ao fazer um concurso público ou ao escrever a conclusão de sua tese de doutorado. No meio acadêmico, já ouvi quem criticasse — e com que direito, meu deus? — o pragmatismo, o imediatismo (juro que foram palavras textuais) “dessa gente que só quer aprender o idioma para melhorar na vida e conseguir um emprego melhor”…

4 — O que há de errado com o livro do MEC? — O livro do MEC não passa de um manual insosso, banal, assistemático, ruim como muitos, sem nada que o faça se destacar entre dezenas de outras obras da mesma laia. O volume que examinei reúne, no mesmo capítulo, generalidades sobre os pronomes pessoais, o ponto, a concordância e a acentuação — uma sopa rala e confusa, servida morna para o pobre aluno do EJA. Na verdade, nem mereceria ser discutido, não fosse ter atraído sobre si a luz dos holofotes. Não que nele se ensine a falar errado; o criticado *nós pega peixe figura ali apenas como exemplo de uma das variantes populares. O livro adverte, inclusive, que escrever é diferente de falar e que essa não seria a forma recomendada pela norma culta. O que provocou a reação negativa, no entanto, foi ver como o ensino da língua aparece ali subjugado ao discurso ideológico desta Lingüística pós-moderna: a norma culta é vista como a língua da classe dominante, todas as variantes são consideradas eficientes como meio de comunicação, quem critica a variante popular é tachado de preconceituoso — ou seja, a questão da língua padrão é abordada numa perspectiva completamente inadequada para aquilo que a Escola se propõe a fazer. Os autores esqueceram a porta da cozinha aberta e subitamente o público se deu conta de como está sendo feita a comida que a Escola serve à nossa juventude — daí a gritaria.

Pela primeira vez veio a público aquela briga surda que se trava há mais de vinte anos entre os verdadeiros professores de Português de um lado e os lingüistas/pedagogos do outro. Nosso mestre Luft escreveu Língua e Liberdade para se contrapor aos seus adversários da vida inteira, os gramáticos puristas, normativos ferrenhos, geralmente adeptos da perniciosa “análise lógica”; se agora estivesse entre nós, certamente estaria ocupado em fazer a Lingüística recuar para o seu campo legítimo de atuação, que é a pesquisa, e não o ensino da língua materna, onde ela desempenha apenas o papel de disciplina auxiliar.

Depois do Acordo:
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