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Lendo o dicionário (1)

Que livro você levaria para uma ilha deserta? Muitas vezes, ao longo da vida, respondi a esta clássica pergunta, sempre indeciso entre a Odisseia, Guerra e Paz ou As 1001 Noites. Hoje, sem dúvida, eu escolheria um dicionário.

Que livro você levaria para uma ilha deserta? — Muitas vezes, ao longo da vida, respondi a esta clássica pergunta, sempre indeciso entre a “Odisseia”, “Guerra e Paz” ou “As 1001 Noites”. Hoje, sem hesitar, eu escolheria um dicionário.

 

1 — Não existe instituição com maior autoridade na casa de um brasileiro que o Dicionário. Que se discuta a infalibilidade do Papa, que se debatam os textos sagrados (excetuando-se, é claro, as letras de Chico Buarque), que se critiquem artigos da Constituição, vá lá; agora, o maluco que se atrever a contestar o Dicionário será olhado com aquele misto de temor e de piedade com que os crentes olhavam os sacrílegos. Para o homem comum, o que o Dicionário diz é lei; com base nele, solucionam disputas, decidem apostas e ficam sabendo se, afinal de contas, aquela palavra usada pelo ministro existe ou não existe. “Está no dicionário” é a frase que dá a um vocábulo o direito de existir; “não está” condena o pobre vocábulo ao nada, ao não-ser. Para a maioria dos meus compatriotas, o Dicionário é muito mais que um livro cheio de palavras; para eles, na verdade, é o livro que sempre terá a última palavra.

É desse respeito incondicional, aliás, que advém o curioso uso do artigo definido — O Dicionário (as maiúsculas são intencionais…) —, como se existisse apenas um texto único, fundador, difuso, que se corporifica em diferentes formatos e encadernações, assim como o Novo Testamento ou os romances do Machado de Assis. Esse tipo de leitor, naturalmente, olha o dicionarista com reverência: afinal, não é ele o Pai dO Dicionário? Como essa adoração não viceja apenas no Brasil, mas se manifesta em todo o Ocidente, posso aproveitar a ironia de Randolph Quirk, gramático e linguista britânico, quando diz que a maioria dos leitores reverencia o dicionarista como se ele tivesse subido ao Monte Sinai do conhecimento e voltado de lá com as tábuas que contêm as Palavras e o seu Significado, sua Ortografia e sua Pronúncia.

2 — Ora, nossa coluna sempre fez questão de combater essa visão quase mística do fazedor de dicionários. Como já demonstramos aqui várias vezes, ele é gente de carne e osso e está sujeito aos mesmos achaques e mazelas que nós outros — ou melhor, era gente de carne e osso e estava sujeito aos mesmos achaques; a mudança no tempo do verbo se impõe porque agora, no séc. XXI, nenhum dicionário é obra de um homem só. Caldas Aulete, Houaiss, Aurélio, Larousse e Webster não são mais nomes de pessoas reais, mas verdadeiras grifes, por trás das quais operam grandes equipes de lexicógrafos e pesquisadores. Ao se despersonalizar, ao concentrar o esforço de dezenas (às vezes centenas) de especialistas, o dicionário de equipe tornou-se muito melhor e muito mais científico que os antigos e heroicos dicionários de um homem só, como o Dr. Johnson, para o Inglês, Littré para o Francês, Bluteau e Morais para o Português — mas sou obrigado a confessar que leio a obra destes veteranos com um prazer que jamais pude encontrar nos modernos.

Meu atilado leitor terá percebido que eu disse ler, não consultar — o que significa, em outras palavras, que não estou me referindo ao dicionário como mera obra de referência (que é a sua própria razão de existir), mas como obra de leitura. Acho fascinante abrir um dicionário pelo simples prazer de me aventurar, ao acaso, pelas trilhas e alamedas esquecidas de nosso idioma, e se me fizessem a clássica pergunta sobre o livro que levaria para uma ilha deserta, certamente optaria por um bom dicionário, como fez W. H. Auden, um dos mais importantes autores de língua inglesa no séc. XX. As razões que ele dá para sua escolha (no prefácio de The Dyer’s Hand) me parecem irretorquíveis: é um livro que nunca acaba, pois mantém com o leitor uma relação de absoluta docilidade, permitindo que se comece em qualquer página, em qualquer direção, inclusive de trás para frente, em infinitas possibilidades de leitura.

Auden diz “um bom dicionário”, genericamente, mas seus comentaristas são quase unânimes em afirmar que ele tinha em mente a obra do incomparável Dr. Johnson, uma das figuras mais brilhantes da efervescente vida literária da Inglaterra do séc. XVIII. Para consulta, seu Dictionary of the English Language fica muito aquém de qualquer dicionariozinho moderno; para leitura e divertimento, no entanto, ele é um verdadeiro banquete. Como ainda não imperava este discurso objetivo e pretensamente neutro com que os dicionários atuais constroem seus verbetes, Dr. Johnson manifestava livremente suas crenças, suas preferências, seus interesses e suas excentricidades. Seus preconceitos afloram por toda a parte; como não sabe jogar xadrez, define-o como “um jogo sutil e abstruso”; como tem uma velha pendenga contra os escoceses, aproveita para fustigá-los no verbete aveia, que define como “um grão que na Inglaterra se dá aos cavalos, mas na Escócia serve para alimentar o povo” — afirmação que seria impensável nestes dias de politicamente correto. (continua))

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