Lendo o dicionário (2)

A leitura de um dicionário com personalidade pode trazer mais divertimento e emoção do que muitos desses romances premiados que hoje chovem por aí, em que nada acontece entre uma capa e outra.


3 — Quando falamos, na coluna anterior, sobre a possibilidade de encontrar prazer e divertimento na leitura de dicionários, usamos como exemplo supremo a obra do famoso Dr. Johnson (1755), cujo estilo pitoresco e impertinente é muito mais vívido que o estilo impessoal exigido pelas técnicas atuais. A meu ver, é uma pena que o humor não seja um critério valorizado por aqueles que se dedicam à lexicografia; entre os dicionários modernos, a exceção mais conhecida é The Chambers Dictionary, que nasceu — seria uma ironia do destino? — exatamente na Escócia, terra que o bom Doutor tanto gostava de criticar. Nele ainda se percebe o dedo do editor, que faz questão de estampar suas opiniões no próprio texto do verbete, como podemos ver em “zapear — alternar rapidamente entre vários canais de televisão, numa vã tentativa de encontrar alguma coisa interessante”, ou “restauração — renovação e reconstrução (algumas vezes, quase a destruição) de um prédio, de uma obra de arte, etc.”.

Se o humor for involuntário, pouco importa; vamos rir da mesma forma. Alexandre Dumas nos conta que certa feita, durante uma das revisões do Dictionnaire de l’Académie Française, o imortal a quem cabia redigir o artigo sobre o camarão pediu a Charles Nodier que opinasse sobre o verbete que tinha escrito: “camarão — pequeno peixe vermelho que anda de marcha a ré”. “Sua definição só tem um problema”, respondeu Nodier, implacável — “é que o camarão não é um peixe, só fica vermelho quando o cozinham e não nada para trás; quanto ao resto, está perfeita”.

4 — Na falta de um Dr. Johnson vernáculo, vamos nos contentar com um passeio pelas páginas dos dicionários de Bluteau (1712) e de Morais (1813, o ano da boa edição) — ambos com consulta livre aqui. O leitor deverá ter notado que todas as obras mencionadas foram escritas antes de 1850, data que poderíamos tomar como o marco inicial da explosão vocabular que acompanhou o desenvolvimento científico e tecnológico da segunda metade do séc. XIX — o que significa que elas praticamente só contêm as palavras de uso geral, não especializado. Como estes dicionários estão livres da imensa quantidade de termos técnicos e científicos que hoje seriam indispensáveis, oferecem a nossos olhos um retrato muito mais nítido  daquilo que poderíamos chamar de “núcleo lexical” do nosso idioma — a essência, o âmago, o cerne mesmo desta grande e frondosa árvore que é a língua portuguesa.

O estilo deles é variado, mas fascinante. Morais alterna entre o grosseiro e o sutil. O verbete para diarréia é tosco: “doença, fluxo do ventre, em que sai dele uma evacuação frequente de matéria clara, áquea, mucosa, glutinosa, com escuma, biliosa ou denegrida dos intestinos”, mas o de encalpelar é quase poético: “levantar, encrespar e fazer dobrar o ápice ou língua da onda sobre si mesma, como sucede andando o mar mui grosso”. Às vezes suas definições saem ao trancos e barrancos: anta – “animal quadrúpede do tamanho de um bezerro de seis meses, com figura de porco, mas a cabeça é maior; tem os olhos pequenos e em lugar do rabo lhe ficam uns cabelos que vêm caindo; nas mãos tem quatro unhas ocas, nos pés três, e um princípio de uma quarta unha”; alce — “espécie de cabra brava, de grandeza cavalar. Grã-besta”. Às vezes, por outro lado, são precisas e valiosas: acolá – “aquela parte, o lugar distante que se aponta, onde não está quem fala, nem a pessoa a quem se fala”. Algumas são surpreendentes: antecuco – “aquele que a mulher enganava antes do casamento”;  caramelo — “a neve congelada; caramelo de açúcar” (Bluteau, no verbete urso, diz: “no Mar Glacial há ursos brancos que andam por cima dos caramelos”).  Outras são de uma crueza comovente: batecu — “golpe que se dá com o assento do corpo, caindo”; Bluteau traz, com restrições, a palavra cu — “inurbano e descomposto sinônimo de assento traseiro e pousadeiro” — e aproveita para incluir cuada — “pancada que se dá com tal parte no chão”; em outro lugar, refere-se ao mesmo monossílabo como “o nome do cano real do microcosmo” — verdadeira obra-prima de ironia e de estilo.

Como sou otimista, imagino que muitos, além de mim, valorizem preciosidades desse tipo — às quais acrescento, volta e meia, a saborosa surpresa de constatar que existem relações há muito esquecidas entre palavras de cujo parentesco eu não suspeitava, apesar da óbvia semelhança — como garra e agarrar (“prender com garra”); andar e andaime (“o espaço por onde se pode andar”); desfile e desfiladeiro (“passo estreito por onde a tropa não pode passar senão marchando à desfilada”, a qual, por sua vez, vem a ser a “disposição dos soldados quando vão em fileiras um após o outro”); pinhão e apinhar (“ajuntar muito muitas coisas, como estão juntos os pinhões das pinhas”) — e assim por diante (as definições são do Morais).

Depois do Acordo: diarréia>diarreia

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