meados

“Em meado de setembro” ou “em meados de setembro”? Ambas estão corretas, mas o PLURAL é a forma preferida desde o séc. XIX. Outra daquelas falsas polêmicas que seriam evitadas com um pouco mais de leitura…

 

Alguns leitores estranham que uma coluna como O Prazer das Palavras, dedicada singelamente a comentar e a apreciar as riquezas do idioma, nem sempre seja tão mansa e serena como o tema faria supor. Afinal, dizem eles, trata-se de gramática e de ortografia, e não de futebol ou política — e não há nada que justifique o ânimo agreste, quase impertinente, com que freqüentemente estas poucas linhas são traçadas. Pois se enganam, amigos, que nem tudo são rosas por aqui; as questões de linguagem têm o condão de despertar as emoções mais primitivas do indivíduo, e certamente vocês ficariam surpresos com a raiva instilada em certas cartas que recebo.

Um bom exemplo foi o que aconteceu com meados. Um leitor perguntou se era verdade que a expressão em meados seria condenável, como afirmava taxativamente um de seus professores. “Ele me descontou um ponto na prova, argumentando que meado significa “meio” e só deve ser usado no singular, pois seria ilógico falarmos em meados de 2011; está certo o raciocínio?”. Expliquei-lhe, então, que o professor estava desatualizado; embora historicamente o vocábulo fosse usado no singular, há quase dois séculos passamos a preferir meados, forma já empregada por escritores do porte de Machado de Assis e Eça de Queirós, e que o próprio dicionário Houaiss, no verbete meado, informava que o termo é “freqüentemente usado no plural, como substantivo”.

Ao que parece, meu leitor, faceiro com a resposta, fez da minha mensagem uma capa vermelha e foi agitá-la diante dos olhos do touro — no caso, o referido professor; este, depois de escarvar o chão com as patas, tomado de fúria contra mim, que era mero espectador da tourada, investiu com tudo que tinha, numa mensagem agressiva que culminava num parágrafo cheio de peçonha: “Quando você se faz escrevente de Machado de Assis, Eça de Queirós e demais escritores para justificar alguns termos considerados incorretos pelos especialistas em língua portuguesa, vem-me a crassa dúvida: esses distintos escritores ditavam as regras de nosso vernáculo ou eram meros mortais regidos pelas regras impostas pelos filólogos, lexicólogos e afins?”. Viram só o topete? Mas isso lá é jeito de entrar numa discussão acadêmica? Infelizmente eu não tenho a virtude cristã da tolerância e acabo reagindo no mesmo tom; diga-se a meu favor, porém, que nunca cito o nome desses malcriados, pois acho que precisam ser protegidos deles mesmos. O que segue é a resposta que ele recebeu.

“Mas que raciocínio arrevesado, cidadão! Então o senhor não sabe que os especialistas em nossa língua são exatamente Machado, Eça, Vieira, Drummond, e não os gramáticos, filólogos e professores? Estes últimos, aliás, entre os quais humildemente me incluo, não têm direito algum de impor regras, especialmente para os escritores; seu papel neste universo é tentar entender como funciona o idioma e formular regras que descrevam esse funcionamento. Isso não significa, é claro, que o escritor tenha um toque de Midas que transforme em norma  qualquer idiossincrasia de seu estilo, pois, como diz o antiquíssimo brocardo filológico, “às vezes até o próprio Homero cochila” —, mas o uso frequente de uma determinada forma por vários desses especialistas mostra ao usuário consciente uma das possibilidades do idioma.

No início, meado era usado como adjetivo (na verdade, o particípio do verbo mear, “repartir, chegar ao meio”): “ele morreu meado dezembro”, “vinho meado de água”, “círculo meado de branco e preto”. Com relação a tempo, opunha-se aos também particípios findo e começado: “Meado setembro, começaram as chuvas” (“Findo setembro”, “Começado setembro”). A partir do séc. XIX, porém, vai se firmando o seu emprego como substantivo plural. Euclides da Cunha fala em “meados do século”, Eça fala em “meados já tépidos de março”; Aquilino Ribeiro usa “meados da Quaresma” e Machado, sempre o melhor, fala de uma senhora que “prorrogou seus belos cachos de 1845 até meados do segundo neto”. Não vejo nada de inusitado nesta pluralização, também ocorrida com fim e com começo (nos fins do verão, nos começos do século, etc.), que pode ser encontrada abundantemente em Vieira, Euclides, Eça e Machado, entre muitos outros.

Ora, quando autores deste quilate usam determinada palavra ou expressão assim, e algum professor diz só poderia ser assado, não tenha dúvida: o gajo não fez as  leituras que deveria ter feito em seu curso de Letras. Se existem dezenas de exemplos do plural meados na obra dos grandes escritores, isso significa que classificá-lo de “erro” é uma asneira que só pode ser cometida por quem não os leu. Entre os caminhos que a língua portuguesa oferece, o senhor tem o direito de achar meado mais bonito ou mais lógico, mas não pode cometer o absurdo, no seu sonho onipotente, de dizer que Machado e Eça (que conhecem cem vezes mais o idioma do que todos nós) estavam errados.”

[O PRAZER DAS PALAVRAS – ZH — 24/09/2011]

Depois do Acordo: freqüentemente>frequentemente

Nota para os amigos do Prata

Embora de cunho nitidamente escatológico, acho necessário um pequeno esclarecimento dirigido a vocês e a outros hispanohablantes que porventura cheguem a ler esta página: meado, em Português, é o inofensivo particípio do verbo mear, “dividir em dois, partir ao meio”, enquanto meado, em Espanhol, é o particípio do verbo mear, “urinar” (sua raiz, segundo o dicionário da Real Academia, é o verbo  meiāre, do Latim Vulgar, que também originou o nosso rústico mijar). Ora, tendo esses verbos a mesma forma, mas significados tão diferentes, fica fácil imaginar a estranheza que o título deste artigo será lido por quem tenha o Castelhano como língua materna…

Aproveitando a charla — já que falamos de mijar e da Real Academia —, registro um fato pitoresco e praticamente desconhecido para o leitor brasileiro: entre as duas Grandes Guerras, na Espanha, os jovens membros de um movimento poético de vanguarda promoveram uma grande mijada (“una meada grupal“) nas paredes da Real Academia Espanhola. Este grupo, conhecido como a Geração de 1927, organizou várias manifestações para comemorar o tricentenário da morte do poeta Luís de Gôngora, cujo gênio e talento não eram ainda reconhecidos pela cultura oficial da época. Indignados com a indiferença dos acadêmicos para com uma data tão importante, reuniram-se, na tarde de 23 de maio de 1927, diante do edifício da Academia e, na descrição de uma testemunha, decoraram suas paredes com uma “caprichosa coroa de efêmeros jorros dourados”. Achei a ideia inspiradora; nossa ABL bem que merece a homenagem de uma meada colectiva, depois da c*g*da que fez com seu Vocabulário Ortográfico.

Quer conhecer a mitologia grega?
Então ouça o podcast Noites Gregas, do professor Moreno.