sanguessuga

SANGUESSUGA, por sua estrutura, parece uma estranha no ninho — uma “exceção”, diriam os antigos. Para quem, entretanto, vê a língua como um sistema organizado e procura entender seus mecanismos, é impossível aceitar que um vocábulo composto tenha se formado assim a la louca, contrariando princípios tão elementares de nosso léxico.

 

Neste verão, ao atravessar o vizinho estado de Santa Catarina, visitei a pequena propriedade de um velho amigo, ex-colega, que trocou as agruras do magistério pela plácida prosperidade de uma criação de suínos de raça. Enquanto tomávamos o mate da amizade, um empregado veio avisar que uma tal de “lagoinha” estava cheia de “samexuga, bichinho danado para a criação” (o mesmo que você e eu, caro leitor, preferimos chamar de sanguessuga, e que o dicionário de Bluteau, com seu pitoresco estilo setecentista, descreve como “um bichinho aquático, de comprimento do dedo meminho*”). Nem eu nem o amigo estranhamos aquele “samexuga”, acostumados que estamos, por profissão, a ouvir de tudo — “xamexuma”, “xambexunga”, “samexuva”, “sambexuma” e toda aquela série de caprichosas combinações que o povo costuma fazer com essa sopa de letrinhas. Antes que ele fosse embora, no entanto, achei que era o momento ideal para tirar uma teima que venho cozinhando há muito tempo e perguntei, como quem não quer a coisa, o que aquele “bicho danado” comia. “Sangue, ora”, respondeu ele, despedindo-se, sem entender muito bem por que um homem da cidade, de óculos no nariz, tinha feito uma pergunta tão óbvia.

Pois eu, de minha parte, fiquei muito satisfeito com a resposta, que só veio confirmar minhas suspeitas: se aquele cidadão sabia que a sanguessuga se alimenta de sangue — palavra que ele pronunciou de maneira impecável —, o fato de chamá-la de “samexuga” indica, sem sombra de dúvida, que ele não se deu conta que é daí que vem o nome do bicho — aliás, da bicha, nome genérico que designava vermes, cobras e até lagartixas no Português do passado. Pondo isso em linguagem mais técnica, podemos dizer que para ele, assim como para a maioria dos brasileiros do campo, a estrutura deste vocábulo, composto por sangue e suga, do verbo sugar, não é transparente. É isso que explica todas aquelas variantes populares, pois quem reconhece ao menos o primeiro elemento, sangue (sugar, temos de convir, está muito afastado da linguagem coloquial), não pode aceitar essas deformações comuns para “same”, “xame”, “xambe”, “sambe” ou similares.

Ora, é muito raro que isso aconteça com nossos compostos, geralmente fáceis de entender porque reproduzem construções sintáticas típicas de nosso idioma. Por exemplo, a combinação de um substantivo com o adjetivo que o modifica (água quente, sal grosso, carne macia) é modelo para numerosíssimos compostos como amor-perfeito, sangue-frio, estado-maior, carro-forte e mesa-redonda. Tão ou mais comum é a construção que reúne um verbo transitivo com seu objeto direto — ganha-pão, porta-aviões, tira-gosto, beija-flor, salva-vidas, arranha-céu, saca-rolha, bate-estaca, etc. Um beija-flor é um passarinho que beija a flor; um saca-rolha é um dispositivo que saca a rolha, e assim por diante — o que aponta para o fato óbvio de que o nome da sanguessuga está com a ordem invertida, já que o normal seria chamá-la de suga-sangue. Não tenho dúvida de que foi por causa dessa inversão que os dois elementos que formam este composto deixaram de ser reconhecidos por grande parte dos falantes, já que, no fundo, a sequência  sanguessuga é tão exótica e inesperada para eles quanto seriam “rolhassaca” ou “estacabate”, obtidas pela inversão de saca-rolha e bate-estaca.

Então, por que cargas d’água — há de estar pensando meu estimado leitor — esta palavra acabou assim, virada do avesso? Na visão tradicional (aqui, no sentido de “atrasada”), não haveria muita razão para espanto, pois esta seria apenas mais uma das tantas “exceções” de que o Português está repleto — e “exceção” não se explica. Para quem, entretanto, vê a língua como um sistema organizado e procura entender seus mecanismos, é impossível aceitar que um vocábulo composto tenha se formado assim a la louca, contrariando princípios tão elementares de nosso léxico. Esta ave não é nativa, diria um biólogo das palavras; ela só pode ser migratória, tendo vindo ou de outro lugar, ou de outros tempos. Pois é procurar e achar: uma passada num bom dicionário etimológico francês me informa que esta palavra já veio prontinha do Latim, nossa língua mãe. Em Roma, era sanguisuga; o grande Plínio, na sua História Natural, já fala dela e de sua utilização para fins medicinais; dali entrou para o Francês como sangsue, para o Italiano como sanguisuga e para o Português como sanguessuga. Para mim, alívio e contentamento: mais uma vez fica confirmada a regularidade de nossos processos formadores; o composto só é diferente porque foi formado fora daqui, no distante passado, seguindo princípios que nada têm a ver com nosso idioma.

meminho* — dedo mínimo (séc. XVII); mindinho, minguinho

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