festas julinas?

Aviso ao arraial: toda festa com pipoca, amendoim, fogueira e bandeirinha, casamento na roça e danças caipiras marcadas pelo som da sanfoninha são FESTAS JUNINAS – não importa o mês em que elas acontecem.

Lembro que junho, durante muito tempo, foi um mês especial para mim: chegava o inverno, com seus dias mais curtos, e com ele as festas dedicadas aos três santos de maior devoção dos brasileiros, Santo Antônio, São João e São Pedro. Ando completamente desligado desses festejos, mas houve época em que eu ainda me entusiasmava com eles. Sem opor a menor resistência, aceitava um bigodinho feito com rolha queimada, uma camisa de xadrezes exagerados e um chapéu de palha com a borda desfiada, e pronto: lá ia eu para o colégio, vestido como caipira paulista, no figurino de Jeca Tatu, que Monteiro Lobato imortalizou no inesquecível almanaque do Biotônico Fontoura (nos anos 50, ainda não estavam na moda os gauchinhos de hoje).

Pois na minha verdadeira alma mater, o grupo escolar Juvenal Miller, em Rio Grande, onde me ensinaram a ler, a escrever e a fazer contas — o que, juntamente com um bom Google, é tudo de que preciso —, essas festas juninas raramente entravam julho adentro. Agora, no entanto, com a grande complexidade dos calendários escolares, é muito comum transferirem a fogueira para o mês seguinte, o que fez pipocar, aqui e ali, o adjetivo julinas para designá-las — juntamente com as perguntas dos usuários, preocupados com a novidade do vocábulo. É o caso de Silvana P., professora do Ensino Fundamental de Toledo, no Paraná: “O pessoal da escola confeccionou um cartaz em que consta Festa Julina. Procurei este adjetivo mas não encontrei em dicionário algum. O que encontrei foram os adjetivos júlio (decreto júlio, lei júlia) e juliano (calendário juliano) mas eles, além de esquisitos, se referem a Júlio César e não ao mês de julho. Um colega aqui da casa sugeriu escrever Festa de Julho e terminar logo com a discussão. O senhor é contra julina?”.

Ora, Silvana, eu sempre me coloco, em princípio, do lado de qualquer palavra nova que surja espontaneamente, pois há muito compreendi que o aumento do léxico só pode trazer vantagens para todos nós. Essas criações vão enfrentar o plebiscito do uso, que vai decidir se elas sobreviverão ou apenas deixarão um registro fugaz de sua passagem pelo idioma. Não posso ser, portanto, contra julina só acho que ela é mais uma criação artificial, cerebrina, do que um rebento natural na grande árvore da nossa língua. As festas de nossos santos são juninas; embora este adjetivo seja originalmente um derivado de junho, passou a descrever um determinado tipo de festa que pode ocorrer em qualquer época do ano, com características reconhecidas em todo o território brasileiro: quadrilhas, brincadeiras em torno da fogueira, sanfona, quentão, canjica, amendoim, pinhão (nos estados do sul), casamento na roça e outros que tais.

Atribuirmos a junina o sentido estrito de “ocorrida em junho” ensejaria a criação de um adjetivo para cada mês, gerando preciosidades do tipo julina, agostina, setembrina e quejandos. Assim como podemos fazer um carnaval em agosto, em Nova Iorque, podemos fazer, em maio, uma festa junina para comemorar um aniversário infantil, ou, em outubro, receber os presidentes da Bolívia e da Argentina com uma legítima festa junina para deixar bem claro, de uma vez por todas, que eles têm toda a razão em nos tratar como meros caipiras. Se o cartaz da tua escola, prezada Silvana, anunciar uma Festa Junina — seja ela realizada em qualquer mês, de janeiro a dezembro —, os participantes saberão o que vão encontrar.

Para concluir, um pequeno registro sobre o futuro do Acordo Ortográfico: se eles foram generosos o bastante para permitir que optemos livremente entre grafar fôrma ou forma, não vejo por que não estender esta indulgência — e com muito mais razão — ao verbo parar na 3ª pessoa do singular. São inúmeras as situações em que este acento é decisivo para orientar nossa leitura. Recolhi um punhado delas, mas gostaria que o leitor me enviasse por e-mail os exemplos que tiver encontrado por aí. Para perceber a utilidade do acento, basta imaginar as frases sem ele: “Alguém pára o Barcelona?”; “Chegada de contêineres pára porto de Paranaguá”; “Fulano, que faz tudo para voltar para o partido, não pára o trabalho”; “Caravana de drag queens que ia para Pelotas refaz a rota, pára o Rio Grande e reacende a discussão sobre homofobia”; “A microusina fornece luz suficiente — mas pára três dias”. Tenham dó!

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