Fantasias

Na fronteira do Brasil com os países do Prata, um baile de carnaval pode reunir, no mesmo salão, aqueles que pulam DISFARÇADOS com aqueles que pulam FANTASIADOS — e todos vão se divertir (ou aborrecer…) da mesma forma.

Já contei aqui, faz muito tempo (para quem não lembra, a primeira coluna de O Prazer das Palavras foi publicada em janeiro de 2002), a surpresa que teve um velho amigo meu na frente de um cinema de Montevidéu que anunciava sessões vespertinas de Free Willy, o conhecidíssimo filme sobre a amizade de um menino com uma orca. Ele teve um verdadeiro choque ao ver o cartaz que trazia, em letras de palmo e meio, o título do filme em Espanhol — Liberten a Willy. “Pude sentir minhas orelhas crescendo: só faltavam as ferraduras para eu ser um burro completo”, brinca ele, resignado. “Se não tivesse ido ao Uruguai, talvez nunca tivesse me dado conta de que o nome da baleia é só Willy, e free é o imperativo do verbo libertar, em Inglês. Também, só eu mesmo, para achar que orca pode ter nome e sobrenome!”.

Pois este, meu amigo, sempre foi um dos maiores benefícios de qualquer viagem — seja a outro país, a outra época (aí está a literatura…) ou a outra língua: lançar uma luz diferente sobre o mundo que nos cerca. O que é familiar fica praticamente invisível para nós, até que uma dessas súbitas mudanças de perspectiva nos faça enxergar, pela primeira vez, detalhes que sempre estiveram bem debaixo de nosso nariz. No caso de nossa língua, uma visita ao Espanhol, como vamos ver, costuma revelar facetas que não são percebidas pela maior parte dos nossos falantes. Não há, entre as várias filhas do Latim, irmãs mais parecidas que o Português e o Espanhol. Ambas nasceram na Península Ibérica e cresceram lado a lado, sem grandes barreiras geográficas a separá-las. Ambas se lançaram aos mares mais ou menos ao mesmo tempo, no Renascimento, e vieram alojar-se aqui nas Américas, onde também passaram a fazer fronteira uma com a outra, compartilhando suas semelhanças e — talvez mais importante — iluminando-se reciprocamente com suas diferenças.

Estava eu posto em sossego, lendo um dos estupendos suplementos do jornal El País, quando senti que meus conhecimentos da língua espanhola não estavam dando para o gasto. “No se como habeis podido aguantar los celos de la gata“, dizia a frase, transposta por mim, em vernáculo, para algo como “Não sei como tens aguentado os ciúmes da gata”. Ciúmes? Como nada havia no contexto que sugerisse que o felino em questão fosse ciumento, fiz o que sempre deveria fazer, mas nem sempre tenho paciência: fui ao amansa (em Espanhol, por falar nisso, também é amanza burros), o grande dicionário da Real Academia Espanhola, para ver o que a doutíssima diz a respeito de celo. Outra surpresa: na língua de Cervantes, o vocábulo celo (do Lat. zelus) equivale a três vocábulos diferentes na língua de Camões. O primeiro significado — “cuidado, diligência, esmero” — é o que aqui chamamos de zelo; o segundo — “época em que os animais procuram o acasalamento” — é o que chamamos de cio; o terceiro, finalmente — “suspeita ou receio de que a pessoa amada esteja gostando de outra” — é o nosso velho ciúme. O autor do artigo de El País queixava-se, simplesmente, dos cios da gata, que “estavam ficando insuportáveis”… Embora, no Português, a aparência dos três vocábulos seja diferente, sua raiz é exatamente a mesma. E aí? Vale alguma coisa essa ligação originária entre entre cio, zelo e ciúme? Para um estudioso da alma humana, decerto que sim.

A proximidade do Halloween (o Dia das Bruxas — festa estrangeira que, como o Natal, o Dia das Mães e o Coelhinho da Páscoa, foi importada do Hemisfério Norte) trouxe-me outra dessas revelações inesperadas. Minha filha caçula queria — está muito na moda! — uma fantasia de vampiro, com capa negra, gola alta e forro vermelho. Minha mulher adquiriu os tecidos e os aviamentos (palavrinha batuta, essa!) e pediu que eu descobrisse, nas vastas ondas da internet, um molde que ela pudesse utilizar para cortar a capinha. Procura daqui, procura dali, encontrei um excelente saite argentino, cheio de moldes e instruções para confeccionar os mais diversos disfraces (o singular é disfraz). Disfarces! Eu nunca tinha me dado conta disso! Enquanto nós usamos fantasias, eles usam disfarces! “Ele foi à festa disfarçado de pirata”, para nós, é totalmente diferente de “Ele foi à festa fantasiado de pirata”. Afinal, em Português disfarçar é esconder o que somos, fantasiar é imaginar aquilo que não somos. Não quero me intrometer em seara alheia (o Mário e a Diana Corso devem ter algo a dizer sobre isso), mas arrisco:  enquanto um argentino ou uruguaio usa o disfarce para ocultar quem ele é, o brasileiro usa a fantasia para se imaginar no papel de quem ele não é! Num baile na fronteira, em Livramento ou em Uruguaiana, pulam disfarçados ao lado de fantasiados — todos querendo experimentar a sensação de viver uma outra vida, mas cada qual à sua maneira.

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