Tolerância

Os leitores que escrevem para esta coluna geralmente se dividem em dois tipos: os que têm dúvidas e precisam de ajuda (felizmente, o mais numeroso) e os que querem desabafar sua fúria contra aquilo que consideram errado no Português dos outros… Um leitor do Ceará, exemplo do primeiro tipo, vem perguntar se a camisa é listada ou listrada. Ou seja, ele quer saber qual das duas formas estaria de acordo com o consenso das pessoas cultas, que, pelo que se vê, ele respeita e ao qual procura se adequar. Alguns lingüistas oficiais vêm combatendo esse tipo de preocupação, tachando-a de elitista; tentam até eliminá-la do ensino da língua portuguesa, mas espero ardentemente que o impulso civilizatório acabe prevalecendo e essa nefasta influência seja neutralizada (ultimamente eles têm andado muito pimpões do alto de seus cargos — mas deixa estar, jacaré, que a lagoa vai secar…).

Respondo então que o mais comum é listrada, mas os bons dicionários (Houaiss, Aurélio, Luft e Aulete — e, humildemente, eu também) admitem listada com o mesmo sentido. Há alguns medalhões que só aceitam a primeira, alegando que o que camisa tem são listras; eles esquecem que a forma mais antiga sempre foi lista, para riscos ou raias desenhadas no pano ou no papel. Nosso leitor não quer parecer “errado” diante de seus pares (como também certamente não lhe agradaria ir a uma festa com o traje inadequado); a informação que lhe passei permite, agora, que ele opte, se quiser, por listada, que também é moeda boa e corrente.

Outros, no entanto, escrevem para esta coluna com o olho raiado de sangue, furiosos com alguma expressão que não toleram ver usada. Estes não querem perguntar, nem trocar ideias — seu objetivo é condenar, com aquela veemência de quem acredita pertencer ao partido da verdade. Não podem deixar o próximo em paz; apontam com dedo acusador tudo aquilo que, na sua visão intolerante, é um pecado inadmissível. A maior parte deles investe ou contra o emprego de palavras estrangeiras ou, por algum motivo que me escapa, contra possíveis pleonasmos. “Professor, é absurda esta moda de empregar palavras estrangeiras nas vitrines de luxo. Sale, off, delivery — que coisa mais ridícula!”. Como nada perguntam, só me resta tentar incutir-lhes um pouco de tolerância, atualmente uma das virtudes escassas neste país. Afinal, se é ridículo tal emprego, e os donos das lojas querem ser ridículos, nós nada temos a ver com isso, já que não somos os catões deste mundo. Eu gostaria de saber, aliás, quantos desses que condenam sale não admiram a Disneylândia ou levam os filhos para mastigar alegremente uma dessas temíveis iguarias  de fast-food… Epa! Não é que me escapou mais uma?

Os pleonasmos, coitados, esses são caçados como ratazanas. Há leitores tão primários quanto intolerantes: “Professor, não agüento mais ouvir, no rádio, falarem que o trânsito está congestionado devido ao excesso de veículos. Ora, se está congestionado, é claro que por causa dos veículos. Deviam multar quem diz tamanha asneira”. Lá vou eu, apóstolo da tolerância, mas já um pouquinho irritado com o tom da mensagem, explicar o que me parece óbvio: não há pleonasmo aqui, não. O trânsito pode estar congestionado devido ao excesso de semáforos, ou devido à realização de uma manifestação, ou devido ao mau estado da pista, ou devido a cem mil outros fatores que não o excesso de veículos — e assim espero, sem muita convicção, acalmar a fera.

Algumas mensagens, porém, ultrapassam o limite da prudência: “Percebi que o senhor costuma usar junto com em seus artigos, o que estranho. Afinal, junto com não é pleonasmo?”. Respiro fundo e explico que há muitos casos em que junto com não é um pleonasmo, não. Há centenas (não é força de expressão!) de exemplos nos bons escritores, do séc. 13 até o nosso. No início, era mais usada com o sentido de aproximação física: “Fomos até uma lagoa grande de água doce, que está junto com a praia” (carta de Caminha);  “Desenhava os olhos muito junto com as sobrancelhas” (Francisco Rodrigues Lobo). Depois, passou a ser empregada mesmo no sentido de companhia. Só para ficar com o incomparável Veira, que é do séc. 17: “Ali se verá o princípio do mundo junto com o fim, e o fim junto com o princípio”. Vale o mesmo para juntamente com: “Todas as coisas desde seu princípio nasceram juntamente com o tempo”; “Sêneca disse que é grande consolação acabar juntamente com o mundo”. Concluo: “Pode-se ver que nesses exemplos, meu amigo, o autor procurou, ao incluir junto ou juntamente, acrescentar uma idéia que não seria transmitida se tivesse optado por usar simplesmente o com“. Tolerância. Eu realmente tenho andado muito zen…

Depois do Acordo: lingüistas>linguistas, agüento>aguento

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