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quiproquós

Quem nunca tomou uma palavra por outra? Quem nunca usou a vida toda uma grafia que, num belo dia, percebeu estar equivocada? Esses quiproquós (“uma coisa pela outra”) são muito mais frequentes do que a gente imagina.

Quem nunca tomou uma palavra por outra? Quem nunca usou a vida toda uma grafia que, num belo dia, percebeu estar equivocada? Esses quiproquós (“uma coisa pela outra”) são muito mais frequentes do que a gente imagina.

Quem nunca saudou alegremente um estranho pensando tratar-se de antigo conhecido? Quem nunca tomou uma pessoa por outra? Eu mesmo tive um vizinho de bairro, muito cordial, que me cumprimentava com um sonoro “Meu professor!” ― até que descobri, por terceiros, que ele estava convencido de que eu tinha sido seu professor de Matemática numa cidade em que jamais pus o pé. Esta confusão entre pessoas ― tão importante para o enredo das comédias de Shakespeare ou de Molière ― é o que se pode chamar de quiproquó, termo derivado da expressão latina quid pro quo, significando literalmente “uma coisa por outra” (escrito qüiproquó, antes do Acordo, para indicar que o primeiro U também deve ser pronunciado).

Na linguagem, esses quiproquós são comuníssimos. Às vezes passamos anos a fio atribuindo a um vocábulo um significado que ele não tem, ou confundindo-o com outro que não tem relação alguma com ele, ou, o que é pior, atribuindo-lhe uma grafia fantasiosa. Exemplo do primeiro caso é atrabiliário; do segundo, aréola; do terceiro, aficionado. Geralmente não levamos muito a sério quando nos apontam o equívoco. Nossa primeira reação ― de muito boa-fé, aliás ― é resistir ao dado novo e defender a forma errada com frases do tipo “assim está no dicionário”, “assim consta na gramática”, “sempre vi assim em Machado” ― até que, por desencargo de consciência, resolvemos abrir o dicionário, a gramática ou o velho Machado e constatamos, perplexos, que tínhamos vivido até aquele momento num ledo engano. Já passei muitas vezes por isso, como o leitor também deve ter passado.

1 ― Segundo um grande jornal do centro do país, um senador acusou o STF de “agir de modo atrabiliário, atropelando o ritmo do processo e ignorando os prazos legais”. O que ele queria dizer? Seria açodado? Talvez atabalhoado? Quiçá autoritário? Fosse qual fosse a intenção do senador, aqui não cabe atrabiliário. Este vocábulo vem de atrabílis (do Latim atra bilis, literalmente “bile negra”; na Grécia, recebia o nome equivalente de melancolia, de mélas, “negro”, e kholê “bile”). Este era um dos quatro humores que definiam, segundo a medicina antiga, o temperamento do indivíduo (pois até hoje não falamos de bom humor?); os atrabiliários, pessoas em que predomina a atrabílis, seriam, portanto, melancólicos, hipocondríacos, deprimidos, taciturnos, até mesmo irascíveis. A meu ver, nenhum desses significados se encaixa na frase do senador.

2 ― Um leitor me encontra na Feira do Livro e me mostra um folheto sobre a prevenção do câncer de mama. “Tem erro aí, professor; uma organização deste porte deveria contratar um revisor para o material que distribui” ― e mostra a passagem que fala da importância de registrar qualquer alteração significativa “na mama, na aréola e no mamilo”. “O certo é auréola, não é?”, diz ele, em tom quase triunfante, apontando a palavra com o dedo. Com muito tato, explico que não. Quem tem uma auréola luminosa são os santos e os astros ― todos eles, à sua maneira, ocupantes do céu. O folheto está correto; aréola, aquela região circular em torno do mamilo, é simplesmente o diminutivo de área (algo como “areazinha”). Meu interlocutor me olha, entre surpreso e constrangido, resmunga alguma coisa e se despede ligeirinho. Minutos depois eu o avisto numa banca, consultando disfarçadamente um dicionário. Esse nunca mais vai se enganar.

3 ― Outro leitor vem, muito faceiro, comemorar um erro que eu teria cometido: “Professor, embora eu o admire muito, fiquei estarrecido quando ouvi, na TV, o senhor pronunciar aficionado, em vez de aficcionado. Bem, ao menos me serve de consolo saber que o senhor também erra!”. Eu sei, eu sei; como dizia mestre Luft, “Doce é apanhar o Papa em heresia!” ― mas aqui o equívoco não foi meu. O vocábulo é aficionado, mesmo, e nos veio tal e qual do Espanhol, onde deriva de afición, “afeição” (é interessante que na Espanha afición também sirva para designar a torcida de um clube. Diz a manchete de um jornal de Madri: “Real Madrid líder en afición y Barcelona en venta de camisetas“). O aficionado é, portanto, aquele que tem afeição por alguma atividade ― o que também é um dos significados da palavra amador (“aquele que ama”). O que não existe é justamente o tal *aficcionado, que sugeriria uma relação completamente estrambótica com ficção… Olha, eu também erro, leitor ― só que não foi desta vez.

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