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Na hora de determinar como vamos chamar os naturais de um país ninguém vai consultar a língua que eles falam. Não podemos reclamar se nossos vizinhos nos chama de BRASILEÑOS.

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Na hora de determinar como vamos chamar os naturais de um país ninguém vai consultar a língua que eles falam. Não podemos reclamar se nossos vizinhos nos chamam de BRASILEÑOS.

Esta será ― prometo solenemente! ― a última vez em que vou falar de temas evocados pela recente (e já tão distante) Copa do Mundo. Na coluna anterior, que tratava do país africano Camarões, ao empregar naturalmente o gentílico costa-riquenho, aticei uma colônia de abelhas gentis, mas insistentes, que vieram bater exatamente na mesma tecla: essa não seria a maneira correta de se referir aos nascidos na Costa Rica, mas sim costa-ricense. Alguns leitores, inclusive, acrescentaram depoimentos concretos. Um, que informou ter morado lá por quatro anos, foi taxativo: “Olha, nunca vi usarem costa-riquenho!”. Uma leitora alertou que essa denominação, além de errada, seria “um tanto depreciativa”, como lhe informara um ex-cônsul honorário daquele país em Porto Alegre, que achava costa-riquenho uma denominação “horrible“.

Para esclarecer este problema, convido os amigos a se deslocarem, em primeiro lugar, à pitoresca Costa Rica, que tem, como todos sabem, o Espanhol como língua oficial. Os naturais deste país eram chamados, seguindo um modelo muito produtivo de formação de gentílicos naquele idioma, de costa-riquenhos (escrito costarriqueños) ― da mesma forma que os panamenhos, hondurenhosmadrilhenhos, caribenhos, cusquenhos, limenhos, porto-riquenhos e dezenas de outros. É assim que aparece nas edições do séc. 19 do Diccionario de la Real Academia Española (o vetusto DRAE). Na metade do séc. 20 o DRAE passa a registar também costa-ricense, mas como simples variante, remetendo sempre a costa-riquenho. Só a partir da última década daquele século é que costa-ricense vai assumir a vanguarda, passando a ser apontado como a forma preferível. Conhecendo o conservadorismo da Real Academia, não temos a menor dúvida de que na própria Costa Rica a hegemonia de costa-ricense veio muito antes dessas datas ― mas isso não nos permite dizer que costa-riquenho tenha sido, alguma vez, uma forma “errada” no Espanhol. Desusada, sim. Não preferível, sim. “Horrible”? Já me parece um tanto melodramático…

Voltando ao Brasil ― e é aí que bate o ponto ―, nada disso tem a menor relevância. Quem nasce na Costa Rica é, no Português, um costa-riquenho. Existe a variante costa-riquense, menos usada, mas dentro da lógica (o fonema /k/, de Rica, é mantido), e também costa-ricense, raríssima, que certamente ingressou em nosso léxico por pressão do Espanhol moderno (é significativo, aliás, que Porto Rico tenha produzido porto-riquenho, a preferida, e sua variante porto-riquense, mas não *porto-ricense). É assim que funciona: na hora de determinar como vamos chamar os naturais de um país ninguém vai consultar a língua que eles falam. É assim, aliás, que faz todo o mundo: dizer que nosso costa-riquenho é errado é o mesmo que dizer que toda a América Espanhola deveria nos chamar de brasileiros, em vez de usar aquele “horrible” brasileños.

[Ilustração de Edu Oliveira – jornal Zero Hora]

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