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homofobia

QUANDO UM TERMO técnico entra na linguagem do quotidiano, a tendência é reduzi-lo a um padrão mais confortável para todos os falantes. Vai daí, coisas estranhas começam a acontecer.

HOMOFOBIA

QUANDO UM TERMO técnico entra na linguagem do quotidiano, a tendência é reduzi-lo a um padrão mais confortável para todos os falantes.Vai daí, coisas estranhas começam a acontecer.

 

Na hora em que esta coluna chegar à sua casa, neste sábado, prezado leitor, estarei trilhando a estrada entre Corinto e Epidauro, sob a luz e o céu azul da eterna terra dos gregos. Mais uma vez, por dez preciosos dias, vou empunhar meu simbólico cajado de pastor para guiar um novo grupo de amigos pelo mundo fascinante da mitologia e da literatura grega ― ali onde estão as raízes vivas de nossa imaginação, de nossa filosofia e, bem a propósito, de grande parte das palavras que empregamos.

Como se adivinhasse isso, o leitor D. Xavier escreve para perguntar exatamente sobre um desses greguismos indispensáveis, homofobia, que não lhe parece bem construído: “Eu sei que deve haver outros casos parecidos que já fizeram jurisprudência ― mas não é um desastre, essa palavra homofobia? Lido ao pé da letra significaria “aversão ao similar, ao igual”, mas é bem o contrário! É uma composição que não parece etimológica, sei lá eu…. Homo virou sinônimo de homossexual, e pronto?”.

Caro Xavier, estás apontando para um curiosíssimo (e novo) processo lexical que, embora ainda não esteja muito bem compreendido, pode se tornar uma das grandes fontes de novas palavras do idioma: no momento em que algum termo técnico ou erudito, geralmente formado por elementos gregos ou latinos, passa a fazer parte do vocabulário quotidiano, há uma forte tendência a reduzi-lo a um padrão prosódico mais confortável. Achamos natural e oportuno que fotografia, por exemplo, tenha virado foto, mas não nos damos conta de que, ao fazê-lo, o elemento original do Grego produziu um “filhote” com a mesma forma mas com um significado completamente diferente. Na primeira geração, temos fotossíntese, fotocélula, fotofobia, fotografia, em que foto está com seu sentido primitivo de “luz”; na segunda, porém, a etimologia vai para o brejo, pois em fotomontagem, fotojornalismo ou fotonovela, foto passou a significar “fotografia”.

Tente definir para um estrangeiro, por exemplo, o valor do elemento tele em nossos compostos! Você terá de explicar a ele que o tele mais velho, que desde o Grego significa “à distância” (telepatia, telefonia, telescópio, telêmetro), deu cria duas vezes, e seus filhotes passam bem: um com o sentido de “telefone” (tele-entrega, telechaveiro, telessexo) e o outro com o sentido de “televisão” (telejornal, telenovela, teleteatro). Parece confuso? Sinto muito; esse é um processo espontâneo de nosso idioma e, como tal, não pode ser regulamentado – e muito menos interrompido.

Pois foi isso que aconteceu com homo, que recebemos do Grego com o sentido de “igual, semelhante” (o antônimo de hétero), como se vê em palavras eruditas como homófono (“o mesmo som”), homógrafo (“a mesma grafia”), homônimo (“o mesmo nome”). Já homossexual (“o mesmo sexo”), ao sair do restrito mundo acadêmico e ingressar na fala de todo o mundo, foi encurtado para homo, figurando já com o novo sentido em compostos como homoafetivo, homoerótico e homofobia.

Ilustração de Edu Oliveira – jornal Zero Hora] Junte-se ao nosso grupo no Facebook:  www.facebook.com/groups/sualingua

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