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verba volant

A expressão latina com que Michel Temer inicia a carta que escreveu à presidente Dilma pode ser lida de duas maneiras diferentes, dependendo da intenção de quem a empregou.

VERBA VOLANT-EDU

As palavras, caro leitor, não são como as moedas, que têm para mim o mesmo valor que têm para os outros. Eu me lembro disso cada vez que deparo com frases corriqueiras ou surradíssimos lugares-comuns empregados com um sentido completamente diferente daquele que eu jurava ser o único possível. Numa dessas manhãs, ganhei meu dia ao encontrar uma dessas surpresas na tira do Hagar, o horrível, um dos meus personagens favoritos dos quadrinhos do jornal. Como viking que é, Hagar ganha a vida sitiando castelos e enfrentando inimigos tão aguerridos como ele. Na tira em questão, o sábio Dr. Zook sentencia, solenemente: “Violência gera violência!”. Hagar pensa um pouco no que acabou de ouvir e depois, com ar satisfeito, exclama: “É justo!”. Bingo! Hagar acabava de me mostrar que a tradicional mensagem pacifista podia ter uma interpretação diametralmente oposta daquela que parecia ser a única.  

Pois nesta semana, a expressão latina que Michel Temer escreveu na carta dirigida à presidente – verba volant, scripta manent – foi medida, cheirada e explicada em praticamente todos os jornais do país. Se é relativamente fácil descobrir o seu significado − uma tradução honesta desta frase seria “A palavra falada voa, a palavra escrita permanece”, ou, como quis um autor clássico, “as falas voam, os escritos ficam” −, é importante frisar que ela pode ter duas leituras também opostas.

Eu sempre tinha lido (e empregado) essa frase como um conselho para registrar as coisas por escrito, a fim de não perdê-las em algum desvão da memória. Para mim e para milhões de outras almas deste mundo −  incluindo, certamente, Michel Temer −, essa era uma advertência contra a volatilidade da palavra falada; não me passava pela cabeça a hipótese de que outros tantos milhões vissem nela um alerta contra o uso desta técnica tão perigosamente indiscreta.

Pois se Hagar me ensinou alguma coisa, agora foi a vez de Plutarco me surpreender: ao narrar a vida de Alexandre, conta que o grande conquistador censurou Aristóteles, seu mestre e tutor, quando soube que ele tinha decidido publicar seus tratados mais importantes: “Que vantagem terei sobre o resto dos homens, se as valiosas lições que tu me deste vão ficar ao alcance de todos?”. Cáspite! Então Alexandre não se importava com a transitoriedade do que Aristóteles falava, mas sim com a permanência do que ficaria escrito! Bingo, de novo! O que eu sempre tinha considerado uma virtude da escrita era, para ele, o seu maior perigo e desvantagem!

Prisioneiro da minha própria interpretação, que parecia óbvia, nunca tinha examinado essa frase com mais atenção. Fui consultar os dicionários especializados e − para minha vergonha! − vi que para muitos o verba volant é um conselho de discrição: sejam  circunspectos nas situações em que pode ser imprudente deixar uma prova material sobre algo que foi dito; e vocês, escritores, cuidado com o que publicam, pois os livros ficarão para sempre como testemunhas do seu talento −  ou da falta dele.

[Ilustração de Edu – ZH 19/12/2015]

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