coco e cocô

A consulta veio do outro lado do Atlântico, mais precisamente de Lisboa. Escreve de lá o leitor Nuno T.: “Professor, fiquei muito curioso quando li, num site do Reino Unido, que a palavra deles coconut (“noz de coco”) tinha vindo do Português coco. Gostaria de saber se é verdade, pois isso seria para mim motivo de orgulho. Afinal, a gente só vive a importar… E por falar no dito, tenho outra dúvida que o senhor pode não responder, se não achar conveniente: e o cocó das criancinhas (ou cocô, como dizem em vosso país), por que é tão parecido? Haverá alguma relação com o fruto do coqueiro?”.

Prezado Nuno, a resposta é sim para a primeira e não para a segunda. No caso do coco, a origem é mesmo lusitana e, a meu ver, bastante supreendente. Esta palavra designava, inicialmente, uma entidade imaginária usada para assustar as crianças — algo da estirpe do nosso bicho-papão (do verbo papar, ogro que tinha o desagradável hábito de papar os petizes que não se comportassem). Vários estudos folclóricos da Península Ibérica descrevem o antiquíssimo costume de abrir dois olhos e uma boca numa abóbora ou numa cabaça, muitas vezes iluminando-as por dentro (o que não é, como podemos ver, uma invenção dessa praga do Halloween).

Quando os portugueses se lançaram na aventura dos descobrimentos, tomaram contato com o coqueiro nas praias do Oceano Índico (coqueiro esse que mais tarde foi transplantado para cá e se aclimatou tão bem que passou a ser um dos símbolos nacionais, como diz a letra da ufanista Aquarela do Brasil). Vendo no fruto a semelhança de uma cabeça com olhos vazados, tal qual a cara da assombração, acharam natural designá-lo pelo mesmo nome. João de Barros, em suas Décadas na Ásia, de 1563, é um dos autores que deixam bem clara essa origem, ao dizer que o fruto do coqueiro parece ter um “nariz posto entre dois olhos redondos… por razão da qual os nossos lhe chamaram coco, nome imposto pelas mulheres a qualquer coisa com que querem fazer medo às crianças”.

Já o vocábulo cocô não tem assim ilustres antecedentes literários, pois pertence àquele léxico especializadíssimo que se usa na interação do adulto com seus pequerruchos. O nome das pessoas e das atividades cotidianas mais importantes é modificado, reduzido para uma forma mais pronunciável, mais adequada ao ainda inexperiente aparelho da fala da criança, que só domina as sílabas de estrutura mais simples —  no caso da nossa língua, uma sequência de consoante seguida de vogal, que geralmente aparece  reduplicada. É por isso que se criam, no coração das famílias, tantos apelidos como Zezé, Dudu, Lili, Juju, Dadá, etc. —  o mesmo processo que está presente nas primeiras palavras que nossos brasileirinhos pronunciam (e que todos na casa passam a adotar, no seu diálogo com os pequeninos): cocô, pipi, popô, xixi, totó, babá, bebê, papá, mimi, por exemplo, que podem ser diferentes em Portugal. Aliás, o cocó que os portuguesinhos usam no lugar de cocô é, para os nossos pequenos, a designação da galinha e assemelhados, numa evidente formação onomatopaica. França Júnior, autor de comédias do séc. 19, desdobra o vocábulo e faz ouvir em cena o que seria uma frase complexa na língua dos galináceos: “Có, có, cocó, coró có, có có coró”. Não sei o que quer dizer, mas tem estilo.

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