Guardanapo

 

 

Às vezes a pergunta vem de tão pertinho que não acho justo deixá-la na fila: meu filho Matias, que é um dos ases da cozinha do Chicafundó, de Porto Alegre, manda mensagem por Whatsapp: “Pai, estávamos discutindo aqui no restaurante e surgiu uma dúvida que só tu podes resolver: o que é que o guardanapo guarda?”. Descontando o “só tu”, que é evidente exagero filial, gostei muito da pergunta, porque vem lembrar que o interesse pelas palavras, assim como os deuses de Heráclito, pode se manifestar em qualquer lugar.

Como a pergunta revela, vocês identificaram corretamente a ocorrência aqui de um composto do verbo guardar, como tantos outro de nosso idioma. Alguns estudiosos, subindo muito alto no afã de enxergar mais longe, pensam encontrar a origem do termo no nosso velho Latim; de minha parte, prefiro, como fez Bluteau, ver em guardanapo um empréstimo do Francês, língua a que devemos tantos vocábulos no campo da culinária, do requinte e do conforto. Embora os súditos de Macron usem atualmente o termo serviette para designá-lo, seu nome antigo era gardenappe (no It., guardanappa), vocábulo formado por garder (“guardar, proteger”) e nappe (“toalha de mesa”).

Para entender essa etimologia, é necessário relembrar alguns detalhes pitorescos da história dos nossos hábitos à mesa: exceto as sopas, é claro, que demandavam a colher, comia-se tudo com a mão, o que resultava, como diria minha vó, numa inevitável lambança. Aliás, na Crônica da Ordem dos Frades Menores (1557), no capítulo que trata da etiqueta à mesa, recomenda-se que aquele que assoa o nariz na mão ou “se coça com sua mão nua” tome cuidado na hora de estender esta mão abençoada para os alimentos dos outros; e que não encoste o pão ao peito para cortá-lo, e que − prática considerada “cousa suja e vil” − não esfregue os dentes nos panos da mesa. Acrescentem a essas mãos sujas as grandes barbas e os longos bigodes, como era o uso da época, e teríamos uma sinfonia de imundícies, não fossem tomadas algumas precauções indispensáveis de higiene.

Uma delas eram as pequenas bacias de prata com água perfumada, para limpar os dedos, a boca e o que mais a decência permitisse; a outra era o guardanapo, uma espécie de descanso circular de prata, de estanho, de couro ou de vime trançado,  sobre o qual se punha, na mesa, o vinho, a água, o pão (no início) e mais tarde o próprio prato, para proteger a toalha de possíveis manchas. O passo seguinte foi transformá-lo numa “toalha pequena, que cada pessoa estende desde baixo do seu prato até os joelhos, ou sobre eles somente, para lhe não cair sobre os calções, ou para se limpar” (a definição é do dicionário de Bluteau, de 1728). Não é por acaso que os ingleses o chamem de napkin, que também deriva do Francês nappe mais o sufixo diminutivo –kin − literalmente, portanto, uma “toalhinha”.

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