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há dez anos atrás

Como as roupas expostas à luz do Sol por muito tempo, as palavras e expressões também podem desbotar, levando-nos a reforçar o seu significado com outros recursos que a língua oferece. Ao lado de redundâncias grosseiras como “subir para cima”, temos redundâncias perfeitamente justificáveis como “ambos os dois”, “bonita caligrafia” e “há dois anos atrás”.

Uma leitora que assina como Mãe Aflita (quase um pleonasmo, diria um cínico…), desconfiada da escola em que o filho estuda, escreve para perguntar se não andam servindo merenda estragada a seu rebento: “Mandaram ler O Burrinho Pedrês, professor. Sei que Guimarães Rosa é famoso, mas já na primeira folheada encontrei um erro que considero primário: ele escreve há dois anos atrás! Aprendi que isso é uma redundância inaceitável. A professora diz que não é mais. E o senhor?”.

Pois eu também digo que não, minha cara Mãe Aflita. Se lhe serve de consolo, a mim também ensinaram a mesma coisa, e o meu mestre pessoal, Celso Pedro Luft, recomendava expressamente que o atrás, em casos como esse, fosse eliminado. Acontece que comecei a discordar. São tantos os brasileiros bem falantes que usam essa construção que deve haver algo que a justifique. Eu não escrevo assim, mas preciso entender a razão de sua vitalidade, até porque tenho sentido, várias vezes, a tentação de empregar esse adverbiozinho de reforço. Como o que não me falta é estudo, só posso imaginar que aqui exista um daqueles redemoinhos que volta e meia se formam na correnteza da língua. É o momento de lembrar, como ensinava um antigo professor de Lingüística, a teoria do degrau: se meu vizinho, ao entrar no seu prédio, tropeça no degrau, podemos imaginar que ele esteja com algum problema de visão, ou de coordenação motora, ou coisa assim. No entanto, se um grande número de moradores tropeça no mesmo lugar, então é hora de examinar o degrau…

É muito comum recorrermos voluntariamente a algum tipo de reforço quando, a nosso ver, houve o enfraquecimento do significado original do vocábulo. Para mim, é o que está acontecendo com este emprego do verbo haver para indicar o tempo decorrido, que parece caminhar na mesma direção que seguiram ambos os dois e bela caligrafia. Como já mencionei aqui, em outra ocasião, a significação dual de ambos ficou tão enfraquecida na consciência de muitos falantes que fez surgir, espontaneamente, a construção ambos os dois, que tem eco no Inglês both two, no Italiano ambe due e no Espanhol ambos los dos. Ninguém é obrigado a usar esse reforço, mas quem o fizer não deve, a meu ver, ser corrigido. (Disseram-me que Valter Hugo Mãe, uma das estrelas da literatura portuguesa atual, emprega ambos os três; deve ser por ironia, imagino, mas ainda não pude verificar in loco esta curiosa variante). O mesmo ocorreu com caligrafia, que significa, originalmente, “escrita bela” ― sentido que fica muito claro, por exemplo, numa frase como “infelizmente a escola atual deixou de valorizar a caligrafia”. No entanto, o progressivo “esquecimento” de que o radical grego cali significa “belo” levou-nos a aceitar como perfeitamente válidas expressões como belíssima caligrafia ou péssima caligrafia (a rigor, uma redundância a primeira, um absurdo a segunda).

Fui conferir o conto do burrinho e lá está, realmente: “Assim mais assim, com os erros todos e muita demora, até há uns dois anos atrás eu ainda era homem para pôr algum bilhete no papel…”. Quero frisar que isso saiu da pena de um dos escritores mais “gramatiqueiros” da literatura brasileira; nenhum outro, como ele, percorreu de trás para diante os velhos gramáticos caturras, garimpando arcaísmos e colecionando nugas para criar o estilo que o tornou inconfundível. Ora, pelo que se vê, o advérbio atrás aposto ao verbo haver não feriu seu ouvido treinadíssimo para a linguagem, e Rosa, numa decisão técnica e pessoal, julgou necessária sua presença para obter o efeito que procurava. Talvez fique mais tranqüila, prezada Mãe Aflita, se souber que se juntam a ele vários outros autores modernos que a senhora deve conhecer: Érico Veríssimo (“D. Maria Luísa lhe diz que a filha saiu há 2 horas atrás para ir visitá-la”); Lima Barreto (“Quem, há cinco anos atrás, acreditaria na utilização de aeroplanos para atacar forças inimigas?”); Rachel de Queiroz (“Há vinte anos atrás a gente no Rio só falava guria“); Nelson Rodrigues (“Há quinze anos atrás, os dois se casaram, no civil e religio­so”).

Suspeito que o hábito de usar atrás como apoio do verbo tenha suas raízes na língua falada: enquanto na escrita a presença do “H” informa o leitor de que ali está o verbo haver, na fala, que é instantânea e sem replay, o atrás é muitas vezes indispensável para que o ouvinte possa discernir, desde o início da frase, do que estamos falando. Na escrita, por sua vez, permanecem outras áreas de turbulência, principalmente quando usamos o imperfeito do indicativo, pois existe também um “há dois anos” que, por indicar tempo continuado, não comporta o reforço do atrás: compare “Há dois anos ele tinha o dinheiro; só faltava encontrar o terreno certo” com “Há dois anos [atrás] ele tinha o dinheiro, mas perdeu tudo”. Não sei se a resposta está aqui, mas sei que, esteja onde estiver, deve existir uma causa para um comportamento majoritário no universo dos falantes.

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Tolerância

Os leitores que escrevem para esta coluna geralmente se dividem em dois tipos: os que têm dúvidas e precisam de ajuda (felizmente, o mais numeroso) e os que querem desabafar sua fúria contra aquilo que consideram errado no Português dos outros… Um leitor do Ceará, exemplo do primeiro tipo, vem perguntar se a camisa é listada ou listrada. Ou seja, ele quer saber qual das duas formas estaria de acordo com o consenso das pessoas cultas, que, pelo que se vê, ele respeita e ao qual procura se adequar. Alguns lingüistas oficiais vêm combatendo esse tipo de preocupação, tachando-a de elitista; tentam até eliminá-la do ensino da língua portuguesa, mas espero ardentemente que o impulso civilizatório acabe prevalecendo e essa nefasta influência seja neutralizada (ultimamente eles têm andado muito pimpões do alto de seus cargos — mas deixa estar, jacaré, que a lagoa vai secar…).

Respondo então que o mais comum é listrada, mas os bons dicionários (Houaiss, Aurélio, Luft e Aulete — e, humildemente, eu também) admitem listada com o mesmo sentido. Há alguns medalhões que só aceitam a primeira, alegando que o que camisa tem são listras; eles esquecem que a forma mais antiga sempre foi lista, para riscos ou raias desenhadas no pano ou no papel. Nosso leitor não quer parecer “errado” diante de seus pares (como também certamente não lhe agradaria ir a uma festa com o traje inadequado); a informação que lhe passei permite, agora, que ele opte, se quiser, por listada, que também é moeda boa e corrente.

Outros, no entanto, escrevem para esta coluna com o olho raiado de sangue, furiosos com alguma expressão que não toleram ver usada. Estes não querem perguntar, nem trocar ideias — seu objetivo é condenar, com aquela veemência de quem acredita pertencer ao partido da verdade. Não podem deixar o próximo em paz; apontam com dedo acusador tudo aquilo que, na sua visão intolerante, é um pecado inadmissível. A maior parte deles investe ou contra o emprego de palavras estrangeiras ou, por algum motivo que me escapa, contra possíveis pleonasmos. “Professor, é absurda esta moda de empregar palavras estrangeiras nas vitrines de luxo. Sale, off, delivery — que coisa mais ridícula!”. Como nada perguntam, só me resta tentar incutir-lhes um pouco de tolerância, atualmente uma das virtudes escassas neste país. Afinal, se é ridículo tal emprego, e os donos das lojas querem ser ridículos, nós nada temos a ver com isso, já que não somos os catões deste mundo. Eu gostaria de saber, aliás, quantos desses que condenam sale não admiram a Disneylândia ou levam os filhos para mastigar alegremente uma dessas temíveis iguarias  de fast-food… Epa! Não é que me escapou mais uma?

Os pleonasmos, coitados, esses são caçados como ratazanas. Há leitores tão primários quanto intolerantes: “Professor, não agüento mais ouvir, no rádio, falarem que o trânsito está congestionado devido ao excesso de veículos. Ora, se está congestionado, é claro que por causa dos veículos. Deviam multar quem diz tamanha asneira”. Lá vou eu, apóstolo da tolerância, mas já um pouquinho irritado com o tom da mensagem, explicar o que me parece óbvio: não há pleonasmo aqui, não. O trânsito pode estar congestionado devido ao excesso de semáforos, ou devido à realização de uma manifestação, ou devido ao mau estado da pista, ou devido a cem mil outros fatores que não o excesso de veículos — e assim espero, sem muita convicção, acalmar a fera.

Algumas mensagens, porém, ultrapassam o limite da prudência: “Percebi que o senhor costuma usar junto com em seus artigos, o que estranho. Afinal, junto com não é pleonasmo?”. Respiro fundo e explico que há muitos casos em que junto com não é um pleonasmo, não. Há centenas (não é força de expressão!) de exemplos nos bons escritores, do séc. 13 até o nosso. No início, era mais usada com o sentido de aproximação física: “Fomos até uma lagoa grande de água doce, que está junto com a praia” (carta de Caminha);  “Desenhava os olhos muito junto com as sobrancelhas” (Francisco Rodrigues Lobo). Depois, passou a ser empregada mesmo no sentido de companhia. Só para ficar com o incomparável Veira, que é do séc. 17: “Ali se verá o princípio do mundo junto com o fim, e o fim junto com o princípio”. Vale o mesmo para juntamente com: “Todas as coisas desde seu princípio nasceram juntamente com o tempo”; “Sêneca disse que é grande consolação acabar juntamente com o mundo”. Concluo: “Pode-se ver que nesses exemplos, meu amigo, o autor procurou, ao incluir junto ou juntamente, acrescentar uma idéia que não seria transmitida se tivesse optado por usar simplesmente o com“. Tolerância. Eu realmente tenho andado muito zen…

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pessoa humana

Aos que consideram PESSOA HUMANA um constrangedor pleonasmo, o Doutor informa que  esta é uma expressão usada por um grande número de escritores e de entidades do mundo inteiro.

 

Um especialista em Conan Doyle explicou, certa feita, que a importância que a correspondência por escrito desempenha nas histórias de Sherlock Holmes só poderá ser bem avaliada se lembrarmos que na Londres vitoriana o correio fazia doze entregas por dia, com o intervalo de uma hora! Computando o tempo destinado à coleta e à distribuição, uma carta levava no máximo três horas para chegar ao destinatário, o que permitia a Holmes rabiscar pela manhã um bilhete apressado para Watson e receber a resposta quando se preparava para acender o tradicional cachimbo de depois do almoço. Com toda essa facilidade, era natural que as pessoas se carteassem intensamente, fazendo com a pena o que depois seria feito pelo telefone. Veio então a santa internet, e todos voltaram a escrever; o correio eletrônico, com sua rapidez de foguete, permite, num ritmo de bate lá, volta cá, um volume espantoso de produção escrita interpessoal (se o leitor computar o número de linhas que costuma escrever por dia, entenderá por que aumentou tanto o interesse por artigos e blogues dedicados a diferentes aspectos de nosso idioma).

Pois um jovem leitor (assim ao menos eu o imagino) escreveu para saber se na frase “todos os especialistas são unânimes” não haveria um erro brabo, um pleonasmo grosseiro como “subir para cima”. Em ritmo de pingue-pongue, respondi-lhe sumariamente que não era o caso; o falante tem uma tendência natural a reforçar os vocábulos cujo significado original “desbotou” com o tempo, isto é, deixou de ser percebido por sua comunidade lingüística — precisamente o que deveria estar acontecendo com o adjetivo unânime. Assim se explicaria, portanto, aquele reforço com o pronome todos.

Nem vinte minutos eram passados e lá veio ele de novo, fazendo-se de sonso, com um ás tirado da manga: pois não é que tinha esquecido de mencionar, na primeira mensagem, que a frase vinha de uma coluna escrita por mim e publicada aqui, no Sua Língua? “Pelo menos o senhor é coerente”, acrescentou, “mas ainda acho que juntar todos com unânimes é pleonasmo indesculpável”. Pronto, pensei. É daqueles que vêm pedir minha opinião só para ter a oportunidade de discordar — o que, convenhamos, já poderia ter anunciado logo de saída. Pois que seja: um rápido passeio pela internet (ela, de novo e sempre!) forneceu-me centenas de exemplos saídos da pena de juristas, teólogos, sociólogos, escritores e tutti quanti, mas, por brevidade, contentei-me em apresentar-lhe um exemplo de Júlio Dinis, em As Pupilas do Senhor Reitor (“Agora já todos foram unânimes“) e outro do próprio Machado de Assis, em A Pianista (“É essa pianista, cuja modéstia todos são unânimes em celebrar…”).

Ao que parece, os dois exemplos o convenceram: uma hora depois, o novo e-mail do Burro Falante (este é o seu pseudônimo; convenhamos que tem espírito!) que chegou continha apenas um polido agradecimento pela atenção que lhe dei e uma reclamação final, quase um resmungo: “Por que os escritores clássicos têm tanto prestígio e credibilidade para você, a ponto de considerá-los como referência do que é certo ou do que é errado? Só falta dizer que temos de escrever como eles!”. Respondi que não era isso — bem pelo contrário. As gramáticas tradicionais, é verdade, usavam os exemplos dos clássicos como modelos que deveriam ser seguidos; na visão moderna, contudo — outro grande ensinamento do meu mestre Celso Luft —, os exemplos dos bons escritores têm valor porque mostram as variadas possibilidades da língua que podemos usar, se quisermos. Ao lembrar que Machado escreveu “todos são unânimes”, não estou recomendando que o leitor faça como ele, mas apenas defendendo esta construção como uma forma também válida de se expressar. É simples assim: se o grande Machado, com sua extraordinária sensibilidade lingüística , sentiu-se confortável com ela, temos de incluí-la entre as escolhas possíveis do vasto repertório que é a língua portuguesa.

O mesmo vale, como já mencionei num texto sobre pleonasmos, para outras construções que os apressadinhos de hoje vivem a condenar injustamente: elo de união (Machado e Joaquim Nabuco); criar novos (Eça de Queirós, Alencar); exultar de felicidade (Machado); pequenos detalhes (Mário de Sá-Carneiro); regra geral (Vieira, Camilo); estrelas do céu (Eça, Rui e Machado); sorriso nos lábios (Eça, Rui e Camilo); recordar o passado (G. Dias e Camilo). Esses que só veem aqui erros a evitar demonstram a intolerância de quem leu muito menos do que devia, e essas lacunas na formação, esse desconhecimento do passado — como alertava o velho Câmara Cascudo, falando sobre os jovens folcloristas desinformados — faz tudo parecer novidade.

Mas voltemos ao exame da expressão que escolhi como título deste artigo: pessoa humana. Numa matéria especial sobre a linguagem de nossos candidatos, a revista Veja pediu a professores e gramáticos uma relação dos modismos e cacoetes mais frequentes no discurso político, analisando-os um a um de forma ponderada, sem aqueles esgares de cachorro louco que costumavam caracterizar os debates desse tipo. Com muito bom-senso, a reportagem procura desmascarar esses mitos modernos que brotam como ervas daninhas ali onde escasseia a chuva revigorante da tradição; entre outras coisas, defende a legitimidade do risco de vida, consagrado pelos escritores, e mostra que é Português do melhor quilate combinar a preposição com o artigo que acompanha o núcleo do sujeito (“na hora da onça beber água“, em vez do artificial “na hora de a onça beber água”). O único deslize dos autores da matéria foi, a meu ver, condenarem taxativamente a expressão pessoa humana, apresentando um argumento que lhes pareceu suficiente para fulminá-la: “Existirão por acaso pessoas suínas — ou asininas?”.

Não, é claro que não, seus engraçadinhos — mas existem as pessoas jurídicas, as pessoas físicas, as pessoas divinas, etc. Na obra de nossos escritores há dezenas de exemplos em que o adjetivo humano foi usado para se opor a outros tipos de pessoas. No séc. 16, Manuel Pires de Almeida compara, na obra de Camões, as pessoas deificadas com as pessoas humanas; Camilo Castelo Branco respeita a adoração de um jovem enamorado, para o qual a noiva é uma pessoa divina, prometendo que não vai “pô-la em confronto com os lapsos das pessoas humanas“; Rubião herda a fortuna de Quincas Borba com a condição de cuidar muito bem do cachorro — cuidar dele, no fundo, “como se cão não fosse, mas pessoa humana“; e Saramago, em A Caverna, afirma “que nem tudo se encontra resolvido na relação entre as pessoas humanas e as pessoas caninas“.

Estou muito mais inclinado a admitir que foi algum motivo sutil, e não um afrouxamento estilístico, que terá levado nossos escritores a empregarem também pessoa humana no sentido genérico. Em Machado: “os romancistas … se presumem grandes analistas da pessoa humana“; “cheio de mistérios científicos, que ele não podia, sem desdouro nem perigo, desvendar a nenhuma pessoa humana“. Em Lima Barreto: “estávamos diante da mais terrível associação de males que uma pessoa humana pode reunir”; “há um cristal de pureza inalterável como núcleo eterno da pessoa humana“. Em Rui Barbosa: “Aí não há senão a altitude da pessoa humana, do mérito individual na solitária sublimidade do seu poder”. Em Drummond: “na pessoa humana vamos redescobrir aquele lugar”. Em Nelson Rodrigues: “Stalin e Hitler se juntaram contra a pessoa humana“. O leitor vai concordar que quase todos esses exemplos ficariam capengas se retirássemos o adjetivo e deixássemos apenas pessoa.

Esta mesma sutileza deve ser a responsável pela presença de idêntica combinação em outros idiomas. No Preâmbulo da Declaração dos Direitos do Homem, onde se lê, em vernáculo, “na dignidade e no valor da pessoa humana“, lê-se human person no Inglês, personne humaine no Francês, persona humana no Espanhol e persona umana no Italiano (que infelizmente desfigurou sua herança latina ao eliminar o H inicial…). Por que será que ela aparece também no texto das constituições, no título de milhares de livros filosóficos, jurídicos ou religiosos, nas mensagens do Vaticano, nos documentos da Unesco e da Onu? Não tenho certeza, mas suspeito que o fator determinante para o acréscimo do adjetivo limitador seja a elasticidade cada vez maior do conceito de pessoa. Os estudos sobre a inteligência e a psicologia dos golfinhos, por exemplo, levaram alguns cientistas a classificá-los como pessoas não-humanas, enquanto grupos modernos de filosofia e de ética começam a classificar os recém-nascidos, os doentes mentais e os anciãos desvalidos de humanos que não são pessoas — o que deixa claro que uma coisa não pressupõe necessariamente a outra.

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Pleonasmo? Tem certeza?

A caça ao pleonasmo parece ter-se tornado um dos esportes mais populares nas redações de jornal e nos consultórios gramaticais. O Doutor adverte: cuidado para não atirar no bicho errado!

 

Um amigo muito próximo vem pedir minha adesão à campanha que promove contra um erro que ele considera intolerável: o emprego do adjetivo municipal ao lado do substantivo prefeitura. “Como é que as pessoas não vêem que isso é supérfluo? Então, queriam alguma prefeitura que não fosse municipal?” — esbraveja ele, ao telefone. Não quero que meu amigo se exalte, pois sei que é hipertenso, mas também não posso deixar que passe vergonha diante dos outros, ao defender uma idéia tão ingênua. Com muito tato, lembro-lhe que um indivíduo isolado jamais vai saber mais do que a comunidade lingüística em que ele vive; a vetusta seqüência prefeitura municipal, portanto, não pode ser equívoco de tantos milhões de pessoas, em tantos séculos de língua portuguesa. Não estaria ele esquecendo, por exemplo, as prefeituras distritais? Ou as prefeituras do câmpus, que existem em quase todas as grandes universidades? “Mas eu vi no Manual, na lista dos pleonasmos!”, arrisca ele, já na defensiva, porque adivinha o que vou dizer. Ele está se referindo a um desses manuais de redação jornalística que infestaram o Brasil na última década, que mereciam figurar entre as dez pragas do Egito, ao lado da peste e dos gafanhotos.

Vou ao famigerado manual que meu amigo mencionou: entre os pleonasmos que devem ser evitados (segundo o raciocínio simplista de quem escreveu o capítulo), encontro agora já, criar novos, elo de ligação (“elo já significa ligação”, explica a sumidade), estrelas do céu, exultar de alegria, habitat natural, pequenos detalhes, permanece ainda, prefeitura municipal, regra geral, recordar o passado (“e alguém poderia recordar o futuro?”), sorriso nos lábios (“e o sorriso seria na testa?”), sua autobiografia, entre tantos outros exemplos igualmente discutíveis. A julgar por essa lista, devemos lamentar que Vieira, Eça, Machado, Camilo e outros gênios da língua não tenham tido acesso a esse manual, porque assim teriam evitado os tais “pleonasmos”:

“Não afirmo que entre as duas fases da existência de Luís Soares não houvesse algum elo de união” (Machado); “se alguma coisa a pode absolver foi a sua perseverança em criar novos estabelecimentos com novos e terríveis esforços” (Eça); “Quando estes, ligando o nome à pessoa, se mostravam contentes da apresentação, não há dúvida que Luís Dutra exultava de felicidade” (Machado); “Mas descendo a pequenos detalhes” (Mário de Sá-Carneiro); “Isto não é regra geral, mas é regra geral que Deus não quer roncadores, e que tem particular cuidado de abater e humilhar aos que muito roncam” (Vieira); “Ensaios inumeráveis como as estrelas do céu” (Eça); “Ela o surpreendeu com os olhos marejados de lágrimas e um sorriso nos lábios” (Camilo); “E tentas, louco, recordar o passado?” (G. Dias); “a matéria da cobiça permanece ainda depois da morte” (Vieira). E assim por diante.

E agora, em quem acreditar? É simples, meu amigo: num dos pratos da balança, ponha os maiores autores de nosso idioma; no outro, sozinho, o intrépido jornalista… Não quero, com isso, dizer que recomendo que se escreva hoje exatamente como nossos autores clássicos faziam, já que os usos da linguagem também estão sujeitos aos ares e às modas do tempo; na verdade, estou apenas lembrando a esses desmemoriados jornalistas de hoje que a língua é muito mais rica do que eles imaginam. Se o autor daquele “manual” tivesse tido a prudência de afirmar que julga desnecessárias tais redundâncias, ou antiquadas, ou inadequadas para os leitores do jornal em que ele trabalha, ainda vá lá nosso estilo nada mais é, afinal, do que a soma das escolhas individuais que fazemos. Agora, condenar definitivamente essas expressões, usando aquela argumentaçãozinha de caracacá, vamos e venhamos!

Na verdade, é difícil dizer quando estamos diante de um pleonasmo condenável (do Grego pleonasmos, “superabundância, excesso”). É comum o falante recorrer voluntariamente a ele quando percebe o enfraquecimento do significado originário do vocábulo, que passa a precisar desse reforço; é o caso, para mim, de ambos os dois, meandros sinuosos e bela caligrafia. No pleonasmo involuntário, dito vicioso, no entanto, há uma repetição tão óbvia de conceitos que não parece obedecer a uma intenção consciente: um plus a mais, democracia popular, recuar para trás, duna de areia, falso pretexto, aparência exterior, hemorragia de sangue, ataque cardíaco bem no coração (costumam ser fulminantes!). Friso, no entanto, que essa é a minha opinião, e deixo a meu leitor decidir onde começa um grupo e termina o outro; nunca vai ser pão, pão; queijo, queijo. O melhor é relaxar um pouco e aproveitar o conceito como um recurso expressivo: “Solteiro feliz é pleonasmo vicioso”; “Ela consultou desculpem o pleonasmo! uma falsa cartomante“; “Bons tempos em que propaganda enganosa não era pleonasmo!”. Por último, a pérola: “Morreu virgem e mártir? Mas isso é um pleonasmo!”.

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  • idéia>ideia
  • lingüística>linguística
  • seqüência>sequência
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OUTRA ALTERNATIVA é pleonasmo?

É correto usar a expressão outra alternativa? Vejo muitas pessoas ilustres, na televisão empregarem constantemente esta expressão. Até na literatura ela é encontrada. Minha dúvida consiste no seguinte: como alter significa outro, não estaríamos nos repetindo?

Molisa C. – Pati do Alferes

Minha cara Molisa: sossega, que a expressão está correta. Não podes considerar o significado literal dos componentes gregos ou latinos contidos em nossos vocábulos, já completamente obliterado da consciência dos falantes, sob pena de começares a condenar combinações pacatas e consagradas. A julgarmos assim, suicidar-se seria visto como um pleonasmo, pois sui é “se”, em Latim; também seria pleonasmo falar de uma “rubrica com tinta vermelha”, pois rubrica vem de rubro. Embora eu prefira falar em “erros de grafia“, não vou condenar os que falam em “erros de ortografia“, acusando-os de contradição porque ortos, em Grego, quer dizer “correto”; e assim por diante. “Eu tinha várias alternativas; fui eliminando uma por uma, até que não me restou outra alternativa além de…” — não vejo problema algum nessa construção. As palavras são o que valem hoje, não o que valiam há dois mil anos (e ainda mais em outra língua!). Um tratante era um comerciante, um homem que fazia tratos, transações; hoje é um pilantra. A histeria era uma doença feminina (do Grego hister, “útero”), mas a Psicanálise hoje reconhece homens histéricos. E por aí vai a valsa. Abraço. Prof. Moreno

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pleonasmo em siglas

As palavras são o que valem hoje, não o que valiam há dois mil anos” (e ainda mais em outra língua!)”, escreve o Doutor, em sua resposta sobre outra alternativa. Sou obrigado a concordar com (e saborear) a afirmativa, mas confesso que me intriga a argumentação entre parênteses. Cartesianamente: quando tomamos uma palavra ou expressão de outra língua, ela não deveria manter, além do significado, a função? Em que circunstâncias (ou depois de quanto tempo) seria aceitável o processo tão comum (e que deve inclusive ter um nome) pelo qual uma parte do significado da expressão estrangeira fica reforçado por uma palavra nativa? É claro que eu penso em primeiro lugar em piadas como “Está na hora do happy-hour” ou “Vamos fazer uma pausa para o coffee-break“. Mas vale (ou não?) também para “O deputado declarou em off” (nesse caso, “off the record“), “Ouve-se uma narração em off” (aqui, “off-screen“). Ou ainda: “As chuvas foram conseqüência do El Niño”, “Aquele é o pior disco do The Who”. É frescura minha ou seria desejável que, ao se substituir a expressão estrangeira por um equivalente nativo, não houvesse pleonasmo vicioso?  Um abraço e desculpe a extensão.” Giba Assis Brasil

E aí, Giba? Sempre comparecendo ao nosso terreirinho? Olha, já que perguntas, acho que é um pouco de frescura tua. Ou melhor: de alguém que domina línguas estrangeiras, além da sua. Os ouvidos educados se ressentem um pouco com isso, mas o mesmo não se dá com a maioria da população, que não é obrigada a conhecer as várias línguas ocidentais. Se alguém enxergar pleonasmo nesses casos (que realmente existe, é verdade), não pode classificá-lo de vicioso; esse é daquele tipo brabo: hemorragia de sangue, subir para cima, ataque cardíaco bem no coração (geralmente os mais fulminantes!).

Eu, por exemplo, tremo ao ver “os The Beatles”, mas já não achei tão medonho o exemplo do The Who”. Queres um campo em que deixamos passar uma penca desses contrabandos? Nas siglas e abreviaturas provenientes de outras línguas. Que tal um “vírus HIV” (o V já disse tudo); “pessoa VIP” (VIP é formada pelas primeiras letras de V(ery) I(mportant) P(erson); um “computador PC“, uma “corrente AC“? Assim como nas relações entre as pessoas, Giba, na linguagem humana a gente tem de fazer vista grossa para algumas coisinhas, sob pena de passar a vida brigando. Abraço. Moreno

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a grande maioria

Prezado professor, gostaria que esclarecesse se a expressão grande maioria está correta, já que a tenho ouvido isso de muitas pessoas, principalmente políticos e jornalistas. Segundo o Houaiss, uma das acepções do substantivo feminino maioria é “a maior parte de; a maior quantidade”; logo, no meu modesto entender, a grande maioria parece uma redundância quantitativa.

Ricardo G. — São Paulo

Meu caro Ricardo, sinto muito, mas não tens razão. Aqui todos nós temos uma lição a aprender: quando um grande número de pessoas (de razoável cultura) começa a empregar uma expressão, deve haver algum motivo. Eu, que trabalho com isso há mais de trinta anos, tenho uma atitude diferente da tua: em vez de achar que os outros estão fazendo alguma coisa errada, tento encontrar as razões que levaram tantas pessoas, com a mesma cultura que a minha, a usar esta ou aquela forma.

No caso da maioria, a diferença é gritante. Num grupo qualquer, a metade mais um já constitui maioria; grande maioria é muito mais. “A maioria votou em X” sempre será diferente de “A grande maioria votou em X”. Não é por acaso que vivemos (eu, inclusive) qualificando essas maiorias: a esmagadora maioria, a espantosa maioria, uma expressiva maioria, etc.

De qualquer forma, continua atento para esses fatos da linguagem, porque essa é a melhor maneira de estudar o próprio idioma; experimenta, contudo, inverter, a partir de agora, a direção de tua dúvida. Como linguagem é uma forma de comportamento, começa a indagar por que as pessoas agem assim ou assado; isso vai te fazer compreender muitos usos novos que andam por aí. É claro que se trata de um exercício de compreensão, e não de adesão obrigatória às novas maneiras de dizer. Se não gostas de grande maioria, não precisas usar; eu uso, mas os outros não têm nada a ver com isso — são várias possibilidades dentro da riqueza que é uma língua humana. Abraço. Prof. Moreno