Atravessando o Canal da Manga

Nunca vou esquecer a secreta satisfação que senti quando me dei conta que o Canal da Mancha nada tinha a ver com a terra do engenhoso fidalgo Dom Quixote, mas era literalmente o Canal da Manga. Por sua forma de manga de um casaco, ou melhor, de um gibão, cujo punho seria o estreito de Dover, os franceses o chamaram La Manche (“a manga”). Os portugueses e os espanhóis não perceberam o significado do nome francês e adaptaram-no para Mancha, gerando a inevitável confusão com a região espanhola do mesmo nome. Os alemães e os italianos, contudo, parecem compartilhar com os franceses a mesma idéia sobre o canal, chamando-o, respectivamente, de ÄrmelKanal (“canal da Manga”) e de La Manica (“a manga”). Os ingleses, é claro, não dão moleza: evitam qualquer dicussão chamando-o de English Channel.

Já estou tão acostumado a surpresas desse tipo que não posso mais passar sem elas. Justamente é aí que reside, para mim, um dos maiores fascínios das palavras: usamos, sem muita cerimônia, milhares delas por dia, até que um trocadilho, uma brincadeira infantil, um simples erro de impressão nos faz deter o olhar sobre uma delas, e bingo! Como se estivéssemos vendo esta palavra pela primeira vez, percebemos nela uma ligação nem sequer suspeitada, que sempre esteve ali, debaixo de nossos narizes, uma verdadeira obviedade que nos escapou por anos a fio. As crianças (e os verdadeiros poetas) vivem com muito mais intensidade esse estranhamento diante da linguagem; nós, como o peixe, não notamos a água em que estamos flutuando. Os estrangeiros que estão aprendendo Português, aliás, também são bons nisso; experimente dizer a um deles que você precisa de um pincel atômico, que mandou instalar um olho mágico na sua porta, que sua filha vai ao jogo com um macacão vermelho, que agora você tem uma secretária eletrônica, e verá como ele reage! Paulo Rónai, húngaro de nascimento, que adotou o Brasil e nossa língua, fala do arrepio que sentiu ao ler, ainda morando na Europa, nossa trivial expressão “vi com estes olhos que a terra há de comer”. E Contardo Calligaris, sem dúvida o autor italiano que melhor escreve em Português, ficou impressionado com a força quase cósmica da ameaça contida em nosso “vou acabar com tua raça!”.

Por outro lado, para podermos viver com as palavras, é indispensável que elas sejam, numa certa medida, invisíveis para nós; não devemos enxergá-las, mas simplesmente ver através delas. É mais ou menos como dirigir: devemos começar a prestar mais atenção na estrada, em vez de ficar examinando o pára-brisa. Esta consciência aguda da estrutura vocabular, que é indispensável para estudar a linguagem, deve ser atenuada para que possamos usá-la, e, para isso, nossa mente produz um certo grau de “esquecimento”, o que vai permitir que as palavras alarguem a sua abrangência semântica e passem a significar muito mais do que significavam, sem que isso nos atrapalhe. O fato de embarcar ter vindo de barco é “esquecido”, deixa de ser registrado, deixa de estar presente na nossa mente, e ficamos inteiramente à vontade para dizer que embarcamos em avião, em metrô, em ônibus espacial e até numa fria, sem precisar criar verbos especiais para cada caso (como aquele desengraçado avionar dos modernistas de São Paulo, com seu humor insosso de sempre). Nossa lógica não se sente ofendida quando falamos em azulejos de várias cores além do azul, de um acidente com alpinistas nos Andes (bem longe dos Alpes), de anilinas que não têm a cor do anil, ou de uma emboscada no deserto, a milhas do bosque mais próximo.

Não há de faltar leitor sério que classifique o exemplo do Canal da Mancha apenas como uma saborosa curiosidade (de minha parte, confesso que me senti descobrindo a África!). Não se preocupe: a busca pela origem remota das palavras pode levar também a resultados mais úteis e mais profundos, contribuindo para uma arqueologia de nosso espírito, na medida em que pode trazer à luz um daqueles significados perdidos que tinham ficado sepultados no tempo. Para um estudioso da alma humana, com certeza deve ser relevante o fato de que patior, passus, o verbo latino que veio dar o nosso paixão, incluísse também o significado de “sofrimento” — uma ligação que persiste, ainda hoje, na Paixão de Cristo, embora eu tenha minhas dúvidas de que todo o mundo dela se aperceba. Passivo (“o que sofre uma ação”) e paciente (“pessoa que padece”) também vieram daí; isso não quer dizer nada? Por acaso não sentimos que se abre uma janela para dentro da nossa alma quando constatamos que de uma mesma fonte latina – zelus – veio o cio, o ciúme e o zelo? Enquanto o Português tratou de diferenciar, na aparência, os três vocábulos, o Espanhol, seu vizinho na Europa e nas Américas, não deixou por menos: usa exatamente a mesma palavra (celo, celos) para os três conceitos. E aí? Vale alguma coisa essa ligação entre paixão e sofrimento, entre cio e ciúme? Decerto que sim.

Como naquelas escavações arqueológicas do cinema, no entanto, aqui também moram grandes perigos, especialmente para o Indiana Jones amador, que vai se perder no labirinto dos significados. Aqui embaixo deveria haver um dístico sempre a nos lembrar de que nem tudo que reluz é ouro, nem tudo que balança cai: é muito fácil atribuir a uma palavra significados que ela nunca teve, ou — o erro mais comum, porque a tentação é maior — estabelecer ligações entre palavras que têm apenas uma forma parecida. Muitas dessas falsas associações, “descobertas” por indivíduos com pouco ou nenhum embasamento lingüístico, mas com muita imaginação, terminaram sendo divulgadas de autor para autor, na limitada literatura sobre o assunto em Língua Portuguesa, ganhando, com isso, até um certo ar de verdade. Um cansativo exemplo é coitado. Alguém enxergou nele uma semelhança com coito e pronto: lá veio a inevitável ligação, que já encontrei em vários autores: coitado seria algo assim como uma forma de salão do nosso impublicável **dido (o que nos permitiria, pensei, usar durante o jantar expressões do tipo “coitado e mal pago”). Ora, coitado, diz minha edição do bom Morais, vem de coita – “mal, desgraça, e aflição que disso resulta”. No Aurélio, um século e meio depois, coita ainda é “pena, dor, aflição; desgraça”. O criminoso que criou essa confusão e os cúmplices que a difundiram nem sequer olharam o dicionário — o que, aliás, não sei se é de lamentar, pois assim não tiveram a sua atenção atraída para outro coito, que Morais registra como antiga forma para cozido (ex.: “pão coito”), presente no nosso biscoito (duas vezes cozido; era assim chamado o pão que, depois de assado, voltava ao forno para torrar e, assim, durar mais tempo). Se tivessem visto isso, o prosaico biscoito não iria escapar de uma nova e excitante interpretação.

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