Categorias
Como se escreve Destaque Emprego das letras Questões do momento - Respostas rápidas

Bajeense

Embora ainda haja polêmicas sobre a forma correta de grafar o nome de certas cidades, o nome de seus habitantes sempre seguirá a norma ortográfica em vigor.

 

Turenne, o grande marechal de Luís XIV, apesar de ser veterano de muitas guerras (ou talvez até por causa disso…), nunca deixou de sentir medo na hora do combate. De longe, seus homens ouviam-no gritar para si mesmo, com as rédeas numa mão e a espada desembainhada na outra, prestes a se precipitar no ponto mais aceso da batalha: “Tu tremes, carcaça? Pois vais tremer ainda mais quando souberes para onde estou te levando!”.

A coluna de hoje trata do vocábulo bajeense, cuja grafia ainda é discutida por aqui; a menção a Turenne não é gratuita, porque ele próprio, tenho certeza, hesitaria antes de se meter numa polêmica como essa, que já leva os seus oitenta anos e sempre termina com os defensores de *bageense fingindo que não existe a regra que os contraria.

Ninguém, muito menos eu, vai conseguir terminar com essa discussão usando apenas argumentos técnicos e racionais; aqui, como todo o mundo sabe, intervêm emoções e sentimentos inflamados que reduzem a Dona Gramática a uma tênue luz de lamparina. Entro na disputa, porém, para responder a R. Vilarinho,  leitor que confessa estar cansado de ouvir os dois lados trocarem mais insultos do que argumentos. Diz ele: “Opinião todo o mundo tem, principalmente agora, em tempos de Facebook. Eu uso bajeense porque vi que o senhor também usa, mas  não sei explicar quando me perguntam”.

Pois vamos lá. Em primeiro lugar, lembro que as regras do Acordo de 1943, que é a base de nossa ortografia (as reformas posteriores apenas retocaram o edifício), fruto do esforço getulista em modernizar a sociedade brasileira, também se aplicam aos topônimos. Com a sua aplicação, centenas de nomes geográficos foram adequados ao novo sistema. Triumpho virou Triunfo, Paraty virou Parati, Manáos virou Manaus, e assim por diante − nenhum escândalo aqui, especialmente para um país como o Brasil, que teve seu nome oficialmente escrito com Z por todo o período imperial.

O princípio é simples: os nomes geográficos, por sua própria natureza pública, precisam se adequar à norma ortográfica que estiver em vigência. A partir de 1943, por exemplo, passamos a escrever Pôrto Alegre, com o circunflexo diferencial; quando este acento caiu na década de 70, voltamos a escrever Porto, sem acento. Por sua vez, Joia, no Rio Grande do Sul, tinha acento até entrar em vigor o atual Acordo, quando então foi suprimido o acento dos ditongos abertos nos vocábulos paroxítonos. Fica claro, portanto, que o registro de fundação de um município, diferentemente do registro das pessoas físicas, não dá aos munícipes o direito de manter para sempre a grafia original. Se, no futuro, nova reforma vier a ocorrer, esses nomes sofrerão todas as modificações necessárias para se adequar à nova lei.

É natural que as gerações contemporâneas às mudanças sofram um verdadeiro choque estético diante do que lhes parece uma mutilação. O próprio texto de 1943, prevendo isso, inseriu um paragrafozinho maroto no final do texto da lei admitindo que “topônimos de tradição secular”, como Bahia, poderiam ficar fora deste regimento. Ora, esta exceção alimenta, até hoje, a discussão sobre a grafia de certos municípios − especialmente os de origem indígena, como Erexim, Bajé ou Moji, que defendem o direito de manter sua grafia “secular” preservada (Erechim, Bagé, Mogi) − livres, portanto, da padronização que sofreram os milhares de palavras que herdamos das línguas indígenas e africanas (sempre X no lugar de CH, sempre J no lugar de G e sempre Ç no lugar de SS), como em açaí, acarajé, caxinguelê, xaxim, jibóia e miçanga.

Sou obrigado a reconhecer, diante do precedente de Bahia, que estes municípios têm todo o direito de espernear. Não é disso, porém, que estamos tratando aqui, e sim dos vocábulos derivados dos topônimos, especialmente da classe dos adjetivos gentílicos. Estes seguem, na sua formação e na sua grafia, os mecanismos gerais do idioma; são palavras comuns, civis, que vão ser tratadas como todas as suas iguais. Bahia é um vocábulo de exceção, mas — como define expressamente o Acordo — os seus derivados não têm o mesmo privilégio e não podem ostentar aquele H aristocrático: baiano, baianidade, coco-da-baía, laranja-baía.

Este é exatamente o caso de Bajé; os partidários do G alegam que um tal de “Conselho Federal de Cultura”, durante o governo do general Médici, aprovou o enquadramento do município nesta fluida categoria de “topônimo secular”, que pode assim manter o Bagé original; seus oponentes, contudo, não reconhecem a competência dessa entidade para legislar sobre ortografia e ressaltam que a tal “tradição secular” é metafórica, não se limitando especificamente a um século. A questão persistirá por tempo indeterminado − mas, escreva-se Bajé ou Bagé, Moji ou Mogi, Erexim ou Erechim, os adjetivos que daí derivam, pela regra clara e cristalina, serão bajeense, mojiano e erexinense − sem choro nem vela.

Categorias
Como se escreve Destaque Lições de gramática Semântica

A gente

Quanto mais violento for seu ataque aos erros alheios, maior a chance de você mesmo se esborrachar logo ali adiante.

“Se existe alguma chance de dar errado, vai dar” é uma versão coloquial da famosa Lei de Murphy, formulada em 1949 pelo engenheiro Edward Murphy (não, não existiu uma Lady Murphy, como alguns acreditam). Se Murphy mantivesse, como eu, uma coluna sobre questões da língua, poderia acrescentar outra regra a seu currículo, desta feita sobre os que escrevem para O Prazer das Palavras: “Quanto mais violento for o  ataque aos erros dos outros, maior a chance do próprio autor da denúncia se esborrachar logo ali adiante”.

Foi exatamente assim que os deuses castigaram Xavier de Tal, um intolerante leitor de Cascavel, no Paraná, que escreveu mais para comandar do que para perguntar: “Professor, leio e guardo religiosamente todas as suas colunas desde 2003. Sou seu fã, mas gostaria de saber até quando o senhor vai tolerar este “agente procura” e “agente decidiu” que o Jornal Nacional introduziu. Essa burrice cresceu como erva daninha e agora contaminou toda a TV.  Só espero que o senhor não vá ficar em cima do muro”.

Caro Xavier, sossega o teu pito, que isso não é novo, nem burrice. Construções como “a gente precisa conversar”, “a gente vai sair perdendo”, etc., são exemplos corretos do uso desse “pronome” indeterminador que nosso idioma desenvolveu a partir do séc. 19. O dicionário Houaiss registra, como um dos significados de gente, “a pessoa que fala em nome de si própria e de outro(s); nós, como em “a gente resolveu se mudar para o campo”.

É verdade que, na origem, a gente não se referia a nós, mas sim aos outros, às demais pessoas. Camões, um pouco depois do descobrimento do Brasil, ao descrever a fina indumentária com que Vasco da Gama se apresentou aos nativos, diz que era feita de tecido carmim, “cor que a gente tanto preza” (leia-se “eles”). Este emprego ainda aparece no próprio Eça de Queirós, em O Crime do Padre Amaro: a menina Amélia, ao saber que a tia e sua comitiva perambulavam pelo olival ainda enlameado pelas chuvas, exclama: “Vai-se a gente sujar toda” (leia-se “elas”).

No entanto, no séc. 19 a expressão passa a ser usada exclusivamente como substituta do nós. Vamos encontrar, sem dificuldade alguma, dezenas de exemplos nos nossos maiores escritores, dos quais Eça de Queirós e Machado de Assis são os mais brilhantes. Em Eça, por exemplo, vamos  ler “A gente aprende no seminário, minha senhora”, “A gente gosta do que é bom”, “A gente não pode confiar em ninguém”, entre dezenas de outros. Em Machado de Assis, “A gente não esquece nunca a terra em que nasceu”, “A gente ria das respostas dele”, “Sim, mas a gente não dança com ideias, dança com as pernas”.

A força com que a gente entrou no Português quotidiano parece revelar que temos necessidade de uma forma assim — um espécie de pronome impessoal, como o on do Francês, para substituir o nós, que é muito mais particularizado. É importante notar que, do ponto de vista flexional, a gente tem a vantagem de usar a 3ª pessoa do singular, a mais simples e menos marcada de todas: “a gente foi ao cinema, “a gente precisa de apoio“, etc.

Dois perigos, contudo, rondam aqui o falante incauto. O primeiro é esquecer que a gente equivale a nós do ponto de vista semântico, mas não do ponto de vista gramatical. Dito de outra forma: enquanto nós exige o verbo na primeira do plural, a gente exige o verbo na terceira: nós vamos, mas a gente vai — e jamais a gente *vamos. Na língua escrita culta, isso é erro bravio, de mato cerrado. Há mais de trinta anos a banda Ultraje a Rigor ridicularizou esse erro — aliás, numa bela batida funque — no seu antigo sucesso  A gente somos inútil!

O segundo, que te interessa mais de perto, é a tendência equivocada de deixar o artigo colado ao substantivo, como se fosse uma palavra só, isto é, escrever *agente junto, assim como o agente secreto, o agente policial — o mesmo *agente que aparece duas vezes na tua mensagem, erro teu, erro escrito que não podes atribuir à maneira como falam na TV.

 

 

 

 

 

Categorias
Acordo ortográfico Como se escreve Destaque Outros sinais

lava-a-jato

Na coluna anterior, mencionei en passant a operação Lava-a-Jato — escrita assim mesmo, com tudo aquilo a que tem direito — o hifenzinho e a preposição A. Sempre atenta, a nossa Maria Rita Horn, anjo da guarda da redação, achou prudente me avisar que a imprensa, embora divirja aqui e ali quanto ao emprego do hífen, vem adotando unanimemente a forma sem a preposição. Como é um texto que leva a minha assinatura, deixamos assim como estava, mas prometi explicar os motivos da minha opção por uma grafia que comete a imprudência de contrariar os hábitos de nossa mídia.

Aliás, começo com uma ressalva: não tenho pretensões a ditar moda para a imprensa. Muitas vezes as escolhas linguísticas que os jornalistas fazem serão diferentes das minhas, e vice-versa — até porque, para eles, a linguagem é um instrumento, enquanto, para mim, ela é o próprio assunto. Como em lava-a-jato o “A” átono da preposição desaparece obrigatoriamente na pronúncia (um pequeno exercício de imaginação: se o verbo estivesse, por exemplo, na primeira pessoa, a preposição seria perfeitamente audível: lavo a jato), o vocábulo foi “reformado” na escrita para uma forma mais simples: lava-jato (falarei sobre o hífen daqui a pouco). Pronto! Essa lipoaspiração deixou tudo mais prático, mais leve, mais rápido; até concordo com isso, mas não posso deixar de apontar, caros leitores, que foi uma alteração bizarra, que desconsidera alguns princípios importantes da morfologia de nosso idioma.

O nome, segundo a própria Polícia Federal, surgiu da união do objetivo principal da operação (investigar a lavagem de dinheiro e desvio de verbas públicas) com o primeiro alvo investigado, uma casa de câmbio suspeita que pertencia ao proprietário do Posto da Torre. Lavagem de dinheiro, lavagem de carros — lava-a-jato (friso que esse oportuníssimo batismo nada teve a ver com Breaking Bad, a série de TV cujo protagonista abre uma lavagem de carros para justificar o dinheiro movimentado com a droga; a operação começou em 2004, a série é de 2008).

Se desconstruirmos (ô, verbozinho mequetrefe!) uma série de vocábulos como lava louça, lava carros, lava roupa, lava pratos, lava pés, vamos encontrar uma das estruturas mais frequentes na formação de nossos compostos: um verbo acompanhado de seu objeto direto (como em guarda roupa, tira teima, porta bandeira, etc.). Neste caso, o verbo lavar é seguido pelo nome daquilo que vai ser lavado. Já em lava a frio, lava a quente, lava a seco, lava a mão, o verbo é seguido por um adjunto adverbialcomo é que se lava. É evidente que lava a jato − lavagem usando o jato com alta pressão de água − pertence ao segundo tipo.

Os leitores atentos terão percebido que não empreguei hífen algum no parágrafo anterior; eu pretendo, desta forma, ressaltar o papel importantíssimo que este sinal tem na distinção (nem sempre possível) entre o que é uma locução (um arranjo casual de vocábulos independentes) de um substantivo composto. Grosso modo, podemos afirmar que sempre teremos hífen quando ocorrer a substantivação. “O bebê aumentava de peso dia a dia“; “o filme mostra o dia-a-dia de uma aldeia gaulesa”. “Aquele posto lava carros; ele adquiriu um potente lava-carros“. “Explicou o projeto passo a passo“; “o jornal traz um passo-a-passo para renovar o passaporte”.

Chegamos assim ao meu ponto: “como ele limpa a garagem? Ele lava a jato” (frase aliás ambígua, porque tanto pode se referir ao modo de lavar quanto à rapidez com que ele lava) é diferente de “vou usar meu lava-a-jato para tirar o limo do telhado” ou “vou passar no lava-a-jato para pegar meu carro”. Aí está: lava-a-jato. Os que quiserem me acompanhar, mas hesitam em usar o hífen por causa da confusa interpretação de um artigo do Acordo Ortográfico, que levou muita gente boa a eliminá-lo dos compostos com preposição, sigam ao menos o exemplo do Aulete, um excelente dicionário on-line, que registra lava a jato. Os que quiserem…

Categorias
Como se escreve Como se escreve - Respostas rápidas Destaque

Pré-datado?

 

Como já disse outras vezes, só dois tipos de pessoa não se importam com a ortografia. Há as alminhas rebeldes que pregam a liberdade absoluta no uso das letras e dos acentos por acreditar que uma regra — qualquer espécie de regra — é apenas outra forma de discriminação social que as elites inventaram para perpetuar sua supremacia; para um desses revolucionários de formigueiro, é claro, escrever como lhe der na veneta torna-se um verdadeiro ato de autoafirmação política. 

Na outra ponta do espectro, encastelados no topo da montanha, vivem aristocratas como o Cardeal Richelieu, que tachava de plebeia qualquer preocupação com a grafia das palavras. Se ele vivesse entre nós, olharia para o hífen ou para o cê-cedilha com a mesma desconfiança com que a grã-fina olha para o indefectível pratinho de maionese no batizado do filho da empregada. Nós outros, contudo, que não pertencemos a nenhum desses dois grupos, achamos importante seguir, o mais fielmente possível, o modelo vigente, pois só assim fica assegurada a fluidez da leitura. Cada vez que me desvio da norma, quem sai perdendo sou eu, pois levo meu leitor a desviar sua atenção do texto para fixá-la na grafia da palavra. 

Por esse motivo, entendo perfeitamente o desabafo do leitor Silvio C., de Campinas, que, como todos nós, vive aos tombos com o misterioso hífen: “Caríssimo professor, o emprego do hífen com o prefixo pre está me tirando o sono. Escrevo pré-escolar e pré-nupcial, mas predeterminado e preestabelecer? É isso? Mas não há critério? O Acordo esqueceu de fazer uma regra para isso?”.

Não, prezado leitor, existe uma regra, sim — na verdade, uma velha regra que está em vigência desde 1943, que o atual Acordo apenas confirmou. Trocando em miúdos, ela reza que o prefixo tônico pré- (bem como seus irmãos pós- e pró-) será sempre seguido de hífen: pré-fabricado, pré-pago, pré-pizza. Esta regra obedece ao princípio básico de que prefixos com sinal diacrítico (acento ou til) são morfológica e fonologicamente independente, devendo, por isso, vir separados do vocábulo que os segue. 

Mas… (ouço, ao longe, o Diabo esfregando as mãos…), pelas mesmíssimas razões, a mesma regra determina que as versões átonas desses mesmos prefixos (pre-, pos- e pro-) não serão seguidos desse sinal: predispor, predestinado, preconcebido. É uma regra bem clara, mas, como você mesmo constatou, não serve para coisa alguma. Afinal, quem determinou que em preconcebido o E é fechado e átono, e não aberto e tônico (préconcebido)? Isso, meu caro, é o 5º mistério de Fátima. Há discussões similares sobre o cheque predatado ou pré-datado, sobre prejulgar ou pré-julgar, sobre preaquecer ou pré-aquecer o forno antes de assar o bolo. Esta hesitação natural sobre a tonicidade do prefixo é histórica e jamais vai ser resolvida; nunca teremos certeza sobre a sua pronúncia e, ipso facto, de sua grafia. O máximo que podemos fazer, nesses casos, é ver o que o Aurélio, o Houaiss ou o Aulete andam fazendo, para então decidir se vamos ou não concordar com a opinião deles.

   

 

Categorias
Como se escreve Destaque Grafia de estrangeirismos Origem das palavras

espresso?

Os vocábulos importados são como estrangeiros que vêm morar no Brasil: uns já estão naturalizados, outros aguardam o deferimento do pedido e outros, finalmente, vão viver aqui sem mudar sua cidadania de origem.

Num ponto qualquer do litoral de Santa Catarina, pelas asas da internet, chega-me o pedido de ajuda de uma pessoa que me é muito cara: Elisa Prenna, dona do Chicafundó (não por acaso, o meu restaurante preferido), gostaria que eu respondesse, em nome dela, a um de seus frequentadores que reclamou do restaurante — não da comida, que é impecável, mas do Português empregado no menu que ela envia semanalmente por email. Inconformado com o café espresso que o Chica (assim chamado pelos mais íntimos) oferece ao fim de cada refeição, o amigo Cafezinho (à falta de um nome, vou chamá-lo assim), num estilo de dar inveja a qualquer espartano, escreveu: “Erro no fôlder. Expresso é com x. Favor verificar antes de enviar material divulgativo”. Elisa, que nunca cometeu a grosseria de ignorar uma manifestação de cliente seu, fez uso então de um velho contrato tácito que existe entre nós dois: ela me ensina a forma correta de queimar o açúcar do crème brûlée e eu, em troca, oriento seus passos nos pontos mais obscuros do vernáculo.

O problema, meu caro Cafezinho, é que muitos termos culinários estrangeiros ainda não foram (se é que um dia o serão) aportuguesados, como já aconteceu, por exemplo, com os termos usados no futebol. Fique tranquilo, que isso é natural: em todas as línguas do mundo, o vocabulário relativo à cozinha é como aquele espaçoporto do filme Guerra nas Estrelas, em que convivem representantes de todas as galáxias. No nosso caso, a situação dos termos que ingressam em nosso léxico é muito semelhante à dos indivíduos estrangeiros que vêm para o Brasil: uns já estão naturalizados, outros aguardam o deferimento do pedido e outros, finalmente, vão morar aqui sem alterar sua cidadania de origem.

Para não fugir do Chica, fui à sua página na internet (www.chicafundo.com.br) para colher exemplos. Dos que já foram aportuguesados, encontrei pudim, lasanha e nhoque (de pudding, lasagna e gnocchi, respectivamente). Do segundo caso, achei tortilla (tortilha), champignon (champinhom), goulash (gulache), curry (caril) e capuccino (capuchino) — as formas no parêntese já estão dicionarizadas, mas vai demorar muito até serem aceitas pela maioria dos falantes que conhecem esses alimentos. Finalmente, com pouquíssimas chances de vir a ser nacionalizadas, temos paella, chutney, bavaroise, couvert, pizza (as duas formas alternativas até agora propostas, piza e pitza, não convenceram), e sushi (adaptado ao nosso sistema ortográfico, só poderá dar suxi, que, convenhamos, é de fazer bacalhau chorar em porta de venda).

Seguindo o segundo modelo, não há dúvida de que espresso poderá um dia ser nacionalizado para expresso, como já vem ocorrendo em restaurantes mais populares. Ouvi, num bar da Rodoviária, alguém reclamar do tempo de espera: “Se é expresso, por que demora tanto?”. Ele certamente ignorava que o espresso, aqui no Italiano, não significa “rápido”, mas sim que o café foi feito sob pressão, numa máquina especial. Os estabelecimentos mais sofisticados, naturalmente, resistem a expresso assim como resistirão por muito tempo a champinhom ou a capuchino.

_____________________________

 

 

Junte-se ao grupo Sua Língua no Facebook! Clique AQUI 

 

Categorias
Acentuação Destaque

xiita ou xiíta

As regras de acentuação do Português são aplicadas em níveis diferentes. É por isso que XIITA não é acentuado como SAÍDA ou JESUÍTA, e DESTRÓIER mantém o acento que JIBOIA e PARANOIA perderam com o Acordo.

A regra que determina que o I tônico nos hiatos receba o acento agudo, como ocorre em saída ou ruído, não deveria ser aplicada para se acentuar o vocábulo xiita?

Luiz Fernando R. – Petrópolis (RJ)

RESPOSTA — Meu caro Luiz Fernando: realmente, o segundo I de xiita parece atender às três condições necessárias para que nele se aplique a regra do hiato: (1) é tônico, (2) vem depois de uma vogal e (3) está sozinho na sílaba. Acontece que esta regra — sem dúvida, uma das mais importantes de nosso sistema ortográfico, antes e depois do Acordo — não se aplica SE AS DUAS VOGAIS FOREM IDÊNTICAS. Nunca se deu muita atenção a esta ressalva porque as palavras envolvidas são raras e de uso pouco frequente, como vadiice, mandriice, paracuuba ou sucuuba. Na última década, no entanto, o vocábulo xiita — não no seu sentido original, para designar uma das correntes mais importantes do Islamismo, mas no sentido alternativo de “radical, ortodoxo” — passou a ser amplamente empregado no Brasil, o que torna bem oportuna a tua pergunta.

 P.S.: “E seriíssimo, como ficaria? Não temos aqui vogais idênticas?” —  pergunta Plínio N., membro do grupo Sua Língua, do Facebook.

RESPOSTA: seriíssimo, como toda proparoxítona, leva acento obrigatório; por isso mesmo, não vai ser examinada pela regra do I e do U, que ficam num nível inferior. Existe, no nosso sistema de acentuação, uma hierarquia de regras que pouca gente conhece. Funciona assim: no primeiro nível, opera a regra das proparoxítonas; toda palavra que se enquadrar nela será acentuada, e estamos conversados. As que escapam à primeira vão ser examinadas pela regra seguinte, das oxítonas e paroxítonas; novamente, as palavras atingidas por ela receberão acento, e estamos conversados. Finalmente, os vocábulos que não forem acentuados por estas duas regras passam pela terceira e última etapa, que reúne (1) a regra dos ditongos abertos em oxítonas (fiéis, dói) e (2) a famosa regra do I e do U em hiato. Exemplificando: bau e bauru são ignoradas pela primeira (não são proparoxítonas) e pela segunda regra (oxítonas terminadas em U não levam acento), mas na terceira etapa baú ganha acento, da mesma forma que saúde ou gaúcho.

Foi aqui que a ABL lamentavalmente derrapou: como o atual Acordo reformou a regra dos ditongos abertos (ficam acentuados só os oxítonos; os demais perdem o acento: heróico e paranóia tornam-se heroico e paranoia, por ex.), a primeira edição do VOLP eliminou erradamente o acento de destróier, sem se dar conta (mais tarde voltaram atrás) de que este vocábulo já tinha sido acentuado no segundo nível (é uma paroxítona terminada em R, como dólar  e éter).

Junte-se ao grupo Sua Língua no Facebook! Clique AQUI 

 

 

Categorias
Como se escreve Destaque Flexão nominal

xeica

Xeica - EDU

De uma leitora de Curitiba, Palmira G., veio a pergunta que hoje respondo com especial carinho (ela lecionou Português durante quarenta anos, e, mesmo aposentada, nunca deixou de ensinar o amor ao idioma aos filhos e aos netos): “Sempre que eles têm dúvida, recorrem a mim, mas dessa vez eu fiquei devendo: minha neta mostrou uma notícia que fala de uma xeica que veio nos visitar. Isso existe, professor? O senhor não acha horrível?”. Acho horrível, sim, dona Palmira, mas se a senhora acompanhar minha explicação, verá que existe uma hipótese muito, mas muito pior.

Vamos começar com sheik, termo de origem árabe que serve para designar uma autoridade cuja gradação pode ir do simples chefe de clã ou tribo até chegar a um príncipe ou mesmo a um rei. Em vários países islâmicos ― e, em especial, nos Emirados Árabes ―, as mulheres da mesma hieraquia recebem o título de sheikha. A notícia que a senhora leu seguramente devia tratar da sheikha Mozah bint Nasser Al Missned, esposa do emir do Catar, que esteve no Brasil no ano que acabamos de encerrar.

Como o Árabe usa um alfabeto que não é o romano, o vocábulo, ao ingressar no Ocidente, foi transliterado das mais diferentes maneiras: jeque (Esp.), sceicco (It.), Scheich (Al.), cheik (Fr.), sheikh (ou sheik, as preferidas do Inglês, embora o portentoso Oxford English Dictionary registre mais outras dezenove variantes). No Português, como não poderia deixar de ser, a forma tradicional sempre foi xeque  (adotamos sempre a letra X para essas transliterações: xampu, xerife, xarope, Xerazade).

Desde o séc. 16, as páginas de Camões, de João de Barros e de Fernão Mendes Pinto estão repletas de xeques, e assim vivemos muito bem até que Hollywood (e depois a rede Globo) puseram em voga por estas bandas o sheik do Inglês. Nos anos 20, as brasileiras suspiravam quando Rodolfo Valentino, o eterno latin lover, corria pelo deserto, com o albornoz ao vento, nos filmes O Sheik e O Filho do Sheik; quatro décadas depois, nos anos 60, foi a vez da TV brasileira reaproveitar o cenário “romântico” do deserto para lançar a novela O Sheik de Agadir, que fez um grande sucesso na época. Por influência direta dessa forma inglesa, terminou surgindo a variante xeique, menos usada mas também registrada nos bons dicionários.

Agora a senhora vai me entender: a esposa do emir de Catar vem ao Brasil; o repórter, no que fez muito bem, não quer usar a forma inglesa, com o seu exótico SH e, pior ainda, com o KH, cacófato próprio para piada. O que faz ele? Vai ao dicionário e encontra duas opções, xeque ou xeique. Como se trata, porém, de uma dama, ele sabe que precisa usar o vocábulo no feminino. E aí? Existe outra saída? A senhora terá de concordar que, afinal, até que xeica não é tão horrível assim…

Junte-se ao nosso grupo no FACEBOOK: www.facebook.com/groups/sualingua

Categorias
Como se escreve Destaque Emprego das letras Outros sinais

A cedilha de David Coimbra

EDU - CEDILHA

Quando você escreve, leitor, você é um AFLITO ou um DESPREOCUPADO? Estes usam o idioma com a feliz inocência de quem caminha sem olhar onde pisa; aqueles estão atentos a cada letra, a cada palavra que escrevem.

Diga lá, leitor, sem rodeios: quando tem de escrever alguma coisa, você se alinha entre os despreocupados ou entre os aflitos? A classificação pode parecer irônica, mas nem por isso é menos exata. Enquanto os primeiros usam o idioma com a feliz inocência de quem caminha sem olhar por onde pisa, os outros ― entre os quais me incluo ―  estão atentos a cada passo que precisam dar. Preocupação inútil, frescura acadêmica? Os aflitos acham que não; é muito mais uma questão de capricho pessoal, tão importante para nós quanto lavar o rosto, pentear o cabelo e escovar os dentes.

Digo isso porque o David Coimbra, um amigo tão aflito quanto eu, na sua coluna desta terça, aqui na ZH, depois de expor suas íntimas incertezas sobre a grafia da palavra xucro e sobre a origem da enigmática cedilha, faz uma eloquente confissão: “Escrevo todos os dias, quase que o dia inteiro; quando não escrevo, leio. E, ainda assim, as dúvidas me angustiam. Como queria ser igual ao Professor Moreno…”.  Por que dizes isso, David? Julgas que assim terminariam tuas dúvidas? Ledo engano, meu caro. Elas me aparecem no café, no almoço e no jantar, e, sem exagero, até no sono já vieram me assombrar; a sorte é que aprendi com mestre Luft a estabelecer com elas uma convivência não só pacífica, como também divertida e enriquecedora. Algumas vão me acompanhar a vida toda, insolúveis, e mesmo as que parecem resolvidas podem voltar a  produzir chama alta se algum vento novo soprar sobre a sua brasa.

O adjetivo xucro (ou chucro) é uma dessas dúvidas que ficarão sem resposta. Como dizes no teu artigo, este vocábulo vem do Quíchua ― língua principal do Império Inca, assim como também vieram lhama, mate, condor, coca (da cocaína), cancha e tambo. Os que a escrevem com X aplicam-lhe o princípio que rege a grafia de todos os vocábulos oriundos de línguas que não tinham escrita (xaxim, orixá, xiru, etc.). Ocorre, no entanto, que essa palavra, ao chegar aqui, já tinha passado pelo Espanhol platino, onde foi transliterada com CH (chúcaro), exatamente como ocorreu com charque. E aí? Escolhe. Segue o rumo do teu próprio coração ― e tranqüilo, porque os bons dicionários (e a Academia Brasileira de Letras) registram ambas as  variantes.

Quanto à cedilha, ela é um sinal extra que o Português, o Francês e o Catalão colocam embaixo do C para formar o cê-cedilha ou cedilhado (se te serve de consolo, no Romeno e no Turco ela é usada sob outras letras, além do C!). Aquele “rabinho”, como chamam as crianças, é na verdade um Z minúsculo; o nome vem de cedilla, que no Espanhol antigo significava “pequeno Z“. Na nossa ortografia, o cê-cedilha é usado para representar o som de /s/ entre duas vogais, papel que disputa, com larguíssima vantagem, com o S duplo; sem ele, seria difícil manter a uniformidade de grafia de algumas famílias de palavras, como doce e adoçar, ou laço, enlace e enlaçar, pois nos permite atribuir à letra C dois sons diferentes.

Depois do Acordo: tranqüilo > tranquilo

Ilustração de Edu Oliveira – jornal Zero Hora]

Junte-se ao nosso grupo no Facebook:  www.facebook.com/groups/sualingua

Categorias
Destaque Emprego das letras Etimologia e curiosidades Grafia de estrangeirismos Origem das palavras

Argélia ou Algéria?

Um leitor pergunta por que nós escrevemos “Argélia”, quando o mundo todo parece preferir “Algéria”. A explicação é histórica: quando o mundo optou pelas formas francesas, “Alger” e “Algérie”, nosso léxico já usava “Argel” e “Argélia” há muito tempo.

No mês da Copa, nada mais natural que este desfile feérico de times e torcedores estrangeiros acabasse despertando dúvidas nos leitores desta coluna. A primeira questão foi uma provocação bem-humorada que nosso amigo Leo Iolovitch publicou em sua página no Facebook (para quem ainda não se deu conta, o Face não serve apenas para postar fotos de pratos de comida ou de gatinhos se espreguiçando): “Em todo o mundo se escreve Algéria, nós escrevemos Argélia. Acho que é coisa do Hortelino Trocaletra. Consulto os universitários e os professores universitários”.

O que houve? Nada de mais. Essas variantes na forma dos topônimos podem parecer estranhas ao nosso olhar, acostumado ao mundo globalizado do noticiário da TV, mas são extremamente comuns quando se trata de lugares descobertos ou visitados há centenas de anos. Nossos antepassados interpretaram à sua moda os nomes estranhos que ouviram ― friso: apenas ouviram, porque a escrita, geralmente em alfabetos exóticos, não entrava aqui em cogitação ― e assim fixaram-se certos nomes que destoam dos que são utilizados por outros países. Said Ali, em seu brilhante ensaio Nomes Próprios Geográficos, não fala da Argélia, mas menciona centenas (literalmente) de exemplos de nomes vindos do Alemão, do Francês, do Espanhol e de várias línguas asiáticas que apresentam discrepâncias semelhantes.

No caso do Português (e, em amplitude menor, no Espanhol), devemos também levar em conta que nossos navegadores, por chegarem primeiro a diferentes partes do globo, introduziram no idioma formas que ainda não existiam em nenhuma outra língua. Quando o mundo optou pelas formas francesas, Alger e Algérie (muito mais fiéis, façamos justiça, ao nome árabe), nosso léxico já usava Argel e Argélia há muito tempo. Não haveria razão alguma para mudarmos ― até mesmo porque seria um trabalho insano tentar uniformizar a maneira como as diferentes línguas adaptam esses nomes. Só no norte da África, a Argélia, a Tunísia e o Marrocos já encabeçam uma lista infindável: no Espanhol,Argelia, Túnez e Marruecos; no Inglês, Algeria, Tunisia e Morocco; no Francês, Algérie, Tunisie e Maroc

João de Barros, em suas Décadas da Ásia (1552), já menciona Argel e Tunes. No século seguinte, Francisco Manuel de Melo, Rodrigues Lobo e o incomparável Padre Vieira só usam Argel. Rafael Bluteau, no seu famoso dicionário (que é do início do séc. 18), deixa bem claro que esta diferença era consabida e consagrada por estas bandas ao registrar: “Alger – cidade de África. Vide Argel“.

No romance As Meninas, Lígia Fagundes Telles se inspira nessa troca de letras para produzir um feliz anagrama: ao ficar sabendo que o namorado, preso político, está incluído no grupo que vai ser libertado e enviado para a Argélia, uma das protagonistas devaneia: “Com a ponta do dedo, ao invés de Argélia, escreveu Algéria, pensando em Alger. No vidro esbranquiçado pelo hálito, se transferisse o “e” para junto do “l”, Algéria ficaria sendo alegria“.

Junte-se ao nosso grupo no Facebook:

www.facebook.com/groups/sualingua

 

 

Categorias
Como se escreve Destaque Origem das palavras

quiproquós

Quem nunca tomou uma palavra por outra? Quem nunca usou a vida toda uma grafia que, num belo dia, percebeu estar equivocada? Esses quiproquós (“uma coisa pela outra”) são muito mais frequentes do que a gente imagina.

Quem nunca saudou alegremente um estranho pensando tratar-se de antigo conhecido? Quem nunca tomou uma pessoa por outra? Eu mesmo tive um vizinho de bairro, muito cordial, que me cumprimentava com um sonoro “Meu professor!” ― até que descobri, por terceiros, que ele estava convencido de que eu tinha sido seu professor de Matemática numa cidade em que jamais pus o pé. Esta confusão entre pessoas ― tão importante para o enredo das comédias de Shakespeare ou de Molière ― é o que se pode chamar de quiproquó, termo derivado da expressão latina quid pro quo, significando literalmente “uma coisa por outra” (escrito qüiproquó, antes do Acordo, para indicar que o primeiro U também deve ser pronunciado).

Na linguagem, esses quiproquós são comuníssimos. Às vezes passamos anos a fio atribuindo a um vocábulo um significado que ele não tem, ou confundindo-o com outro que não tem relação alguma com ele, ou, o que é pior, atribuindo-lhe uma grafia fantasiosa. Exemplo do primeiro caso é atrabiliário; do segundo, aréola; do terceiro, aficionado. Geralmente não levamos muito a sério quando nos apontam o equívoco. Nossa primeira reação ― de muito boa-fé, aliás ― é resistir ao dado novo e defender a forma errada com frases do tipo “assim está no dicionário”, “assim consta na gramática”, “sempre vi assim em Machado” ― até que, por desencargo de consciência, resolvemos abrir o dicionário, a gramática ou o velho Machado e constatamos, perplexos, que tínhamos vivido até aquele momento num ledo engano. Já passei muitas vezes por isso, como o leitor também deve ter passado.

1 ― Segundo um grande jornal do centro do país, um senador acusou o STF de “agir de modo atrabiliário, atropelando o ritmo do processo e ignorando os prazos legais”. O que ele queria dizer? Seria açodado? Talvez atabalhoado? Quiçá autoritário? Fosse qual fosse a intenção do senador, aqui não cabe atrabiliário. Este vocábulo vem de atrabílis (do Latim atra bilis, literalmente “bile negra”; na Grécia, recebia o nome equivalente de melancolia, de mélas, “negro”, e kholê “bile”). Este era um dos quatro humores que definiam, segundo a medicina antiga, o temperamento do indivíduo (pois até hoje não falamos de bom humor?); os atrabiliários, pessoas em que predomina a atrabílis, seriam, portanto, melancólicos, hipocondríacos, deprimidos, taciturnos, até mesmo irascíveis. A meu ver, nenhum desses significados se encaixa na frase do senador.

2 ― Um leitor me encontra na Feira do Livro e me mostra um folheto sobre a prevenção do câncer de mama. “Tem erro aí, professor; uma organização deste porte deveria contratar um revisor para o material que distribui” ― e mostra a passagem que fala da importância de registrar qualquer alteração significativa “na mama, na aréola e no mamilo”. “O certo é auréola, não é?”, diz ele, em tom quase triunfante, apontando a palavra com o dedo. Com muito tato, explico que não. Quem tem uma auréola luminosa são os santos e os astros ― todos eles, à sua maneira, ocupantes do céu. O folheto está correto; aréola, aquela região circular em torno do mamilo, é simplesmente o diminutivo de área (algo como “areazinha”). Meu interlocutor me olha, entre surpreso e constrangido, resmunga alguma coisa e se despede ligeirinho. Minutos depois eu o avisto numa banca, consultando disfarçadamente um dicionário. Esse nunca mais vai se enganar.

3 ― Outro leitor vem, muito faceiro, comemorar um erro que eu teria cometido: “Professor, embora eu o admire muito, fiquei estarrecido quando ouvi, na TV, o senhor pronunciar aficionado, em vez de aficcionado. Bem, ao menos me serve de consolo saber que o senhor também erra!”. Eu sei, eu sei; como dizia mestre Luft, “Doce é apanhar o Papa em heresia!” ― mas aqui o equívoco não foi meu. O vocábulo é aficionado, mesmo, e nos veio tal e qual do Espanhol, onde deriva de afición, “afeição” (é interessante que na Espanha afición também sirva para designar a torcida de um clube. Diz a manchete de um jornal de Madri: “Real Madrid líder en afición y Barcelona en venta de camisetas“). O aficionado é, portanto, aquele que tem afeição por alguma atividade ― o que também é um dos significados da palavra amador (“aquele que ama”). O que não existe é justamente o tal *aficcionado, que sugeriria uma relação completamente estrambótica com ficção… Olha, eu também erro, leitor ― só que não foi desta vez.