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Patinete

Quando se trata de determinar o gênero das visitantes francesas, tudo pode acontecer

Luís Carlos W., de Guarulhos (SP), comparece com uma novidade: “Vi um lançamento no jornal que me deixou em dúvida, professor. Como já ocorre com bicicletas, em breve vamos dispor também de patinetes para alugar. O problema é que a reportagem fala todo o tempo em patinetes compartilhadas e patinetes elétricas, e eu, que já tenho netos, passei toda a minha vida usando patinete como masculino. Minha filha tem um dicionário que diz que é feminino mesmo, mas eu não me conformo. Falei errado todo esse tempo? E meus amigos também? Isso é coisa do novo Acordo Ortográfico?”.

Começo respondendo à tua última pergunta: a resposta é não. O Acordo, mesmo que tenha seus defeitos (e não são poucos, como cansei de expor nesta coluna), não trata disso. Ele regula apenas a maneira de escrever as palavras, ou seja, o uso das letras e dos sinais de que se utiliza nosso sistema ortográfico.

Agora, vamos à tua dúvida central: patinete é masculino ou feminino? Que o termo vem do Francês patinette, ninguém discute. Nas margens do Sena, é um substantivo feminino. E aqui? Em que porta do banheiro ele vai entrar – “Eles” ou “Elas”? “Damas” ou “Cavalheiros”? Ou, como vi num desses cafés de estrada, na porta do “Adão” ou na da “Eva”? (este maniqueísmo, considerado conservador para alguns, corresponde a um mundo em que os banheiros eram distribuídos por sexo, não por gênero).

Ora, como sabes, atribuímos um gênero a todos os nossos substantivos. Os que correspondem a seres sexuados (leão, professor, mestre) geralmente apresentam uma forma masculina e uma feminina; nesses casos, o gênero combina biologicamente com o sexo. O gênero dos demais substantivos, contudo, é arbitrário: eles se distribuem entre masculinos e femininos segundo critérios imponderáveis. Como apontou Jorge Luiz Borges,  nada explica − nem o significado, nem o tamanho − por que espada e alfinete têm o gênero que têm.

No caso de palavras importadas, a hesitação é praticamente inevitável, já que nada pode nos dizer, de antemão, se o vocábulo vai ser masculino ou feminino quando chegar aqui. Ao ingressar em nosso idioma, qualquer vocábulo imigrante deverá ser classificado mentalmente pelo falante num dos dois gêneros que o Português reconhece, sem garantia alguma de que vá coincidir com o gênero que tinha no idioma de origem. Há casos clássicos de palavras que mudaram de gênero na travessia do Atlântico: por exemplo la cocarde virou o cocar, la purée virou o purê (ou, na linguagem das crianças, o pirê) e la enveloppe virou o envelope.

Quanto às visitantes francesas terminadas em -ette (que lá são feminininas), os brasileiros (incluindo os vetustos gramáticos e os intrépidos lexicógrafos) se dividem − e aqui tudo pode acontecer. Essas autoridades nos concedem, por exemplo, o direito de escolher o gênero que quisermos para omelete. De minha parte, prefiro considerar o vocábulo como feminino; não foi por acaso que a variante que se formou (e que todos os dicionários registram) é omeleta. Não consigo entender, no entanto, por que não estendem a mesma liberalidade a patinete, a que atribuem, sem perdão, o gênero feminino − quando, na pesquisa implacável do Google, o masculino é a preferência de cinco de cada seis usuários.

Vai terminar acontecendo o mesmo que aconteceu com croquete, que (nada mais moderno!) está trocando de gênero. Inicialmente era apontado como feminino, mas o uso privilegiou esmagadoramente o masculino − aliás, com o apoio da famosa geração do Pasquim, que usava “agasalhar um croquete” como sinônimo de “entubar uma brachola” ou “enfornar um robalo”, se bem me entendem.

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Dois a um

“Conhecer uma língua estrangeira aumenta em muito a nossa capacidade de entender nossa língua materna”

Ao longo desses quase vinte anos de coluna, já devo ter respondido algumas vezes à pergunta que me envia Nise P., de Juiz de Fora: afinal, em termos de vocabulário, quem leva a melhor − o Inglês ou o Português? Diz ela: “Na minha última viagem à Inglaterra, fiquei surpresa quando o atendente da quitanda não entendeu meu comentário de que as bananas estavam green, isto é, verdes; foi só no hotel, olhando o Google, que me dei conta do mico: a palavra certa seria unripe, porque green só serve para a cor. Por que eles têm duas palavras onde só temos uma?”.

Pois aí está, de forma bem concreta, prezada Nise, a comprovação de que conhecer uma língua estrangeira aumenta em muito a nossa capacidade de entender a “língua que bebemos com o leite”, na bela expressão de Cervantes para descrever a língua materna. A inevitável comparação entre os dois sistemas nos faz enxergar, a cada passo, características que antes passavam despercebidas, especialmente no léxico, e nos damos conta, como tu, de que nossa língua pode fazer distinções que a outra não tem, e vice-versa. Reconheço que fiquei muito orgulhoso quando fiquei sabendo que o Espanhol  designa com uma só palavrinha (celo, celos) o que nós distribuímos meticulosamente entre três, zelo, cio e ciúme  — mas logo ali adiante vi o jogo empatar, ao saber que eles distinguem entre sino e pero onde temos apenas o nosso mas.

Na verdade, o idioma inglês tem um léxico mais rico do que o nosso. As razões são conhecidas: sendo uma língua do tronco germânico, como o Holandês e o Alemão, o Inglês recebeu também forte influência do Latim da Igreja e do Francês (através dos Normandos, que ocuparam a Inglaterra do séc. 11 ao séc. 12 − o que, aliás, teria daria um simbolismo especial a uma decisão da Copa entre a Inglaterra e a França, não tivesse a Croácia surpreendido os súditos da rainha Elizabeth). Por causa disso, o léxico apresenta uma variada mistura dessas três diferentes origens − o que faz com que os falantes do Inglês tenham mais escolhas do que nós, dispondo de dois vocábulos onde temos apenas um.

As redes sociais comentam o aborto da cantora? Lá seria feita a distinção entre abortion (como em “legalização do aborto”) e miscarriage (“O choque provocou o aborto”). O nosso voto lá é trocado por dois: vote (“pôs o voto na urna”) e vow (“voto de pobreza”). Eles têm dois tipos de banco: bank (onde mora o dinheiro) e bench (o banco da praça). Nossa política lá vai ser traduzida por politics (na pena corrosiva de Ambrose Bierce, “a condução dos negócios públicos para proveito dos particulares”) ou policy (a política da empresa). Falamos sobre o sucesso de um casamento? Essa frase é ambígua para nós, mas nunca o seria no Inglês, pois ele distingue wedding (a cerimônia) de marriage (a convivência).

Às vezes o escore aumenta para três a um. Onde temos raio, por exemplo, eles têm (1) ray (“raio de luz”, “pistola de raios”), (2) radius (o “raio de um círculo”) e (3) lightning (a “descarga elétrica”). Aqui, podemos dobrar o papel, o braço, a aposta e dobrar à esquerda; lá, fold o papel, bend o braço, double a aposta e turn à esquerda. Usamos tocar onde eles usam touch (fazer contato), play (tocar um instrumento) e ring (o telefone). A nossa receita corresponde, na língua deles, a recipe (culinária), prescription (médica) e revenue (“a receita do município”).

Esses, Nise, são apenas alguns dos tantos exemplos que eu poderia mostrar. Confesso que alguns deles me deixam com inveja (no mundo da linguagem, distinções precisas de significado são ouro puro), mas me contento com o nosso tesouro, que eu não trocaria por toda essa lista de casos: a oposição entre ser e estar. Nós distinguimos naturalmente “ela é bonita” de “ela está bonita”, coisa que o Inglês não pode fazer porque dispõe, para ambos os casos, do simples verbo to be, sendo obrigado a recorrer a expressões auxiliares para assinalar a distinção entre o permanente e o transitório, fundamental na vida e na Filosofia.

[Publicado em ZH – 12/07/2018  | Ilustração de Edu Oliveira]

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Língua brasileira?

O Brasil se expressa de uma forma tão peculiar que nos permita falar de uma LÍNGUA BRASILEIRA?

O leitor Vanderlei S.T, de Caxias, Rio de Janeiro, vem ressuscitar uma questão há muito sepultada: “Professor, vendo na TV as entrevistas dos jogadores portugueses na Copa, lembrei que o grande compositor Orestes Barbosa, que nos deu o imortal Chão de Estrelas, dizia que não importava quem tinha descoberto o Brasil, porque a língua que falamos é a língua brasileira e não a língua portuguesa. Por que esse assunto não é mais discutido?”.

Caro Vanderlei, não existe uma língua brasileira. Nós falamos a língua portuguesa, da mesma forma que Portugal, Angola, Moçambique e os demais países que integram a chamada comunidade lusófona. O âmago é o mesmo: o sistema flexional é o mesmo, os processos de formação de palavras são os mesmos, o sistema de subordinação é o mesmo, e mesma também é conjugação dos verbos — num quadro similar, mutatis mutandis, ao que acontece com o Inglês, no qual se reconhecem variações britânicas, americanas, australianas e sabe-se lá quantas outras.

As diferenças que existem entre essas variedades, se por um lado ajudam a identificar sua proveniência, são insuficientes para caracterizar um idioma diferente. Um brasileiro diria “Passei a manhã lendo o jornal”, “Te amo”, “Preciso falar com você“; já um português preferiria “Passei a manhã a ler o jornal”, “Amo-te“, “Preciso falar consigo” — mas isso é muito pouco. Na pronúncia, é verdade, o Brasil e Portugal (com sua redução do quadro das vogais) se afastaram muito, o que exige de brasileiros como eu e tu, diante de um programa de TV gerado em Portugal, um esforço inicial para acomodar o ouvido ao novo sistema.

A diferença mais chamativa — e talvez a que mais influa na sensação de que haveria uma língua brasileira autônoma — está no léxico, isto é, nos nomes que damos às coisas. Ora, se isso ocorre mesmo dentro do Brasil, onde uns param no sinal, outros no farol, outros na sinaleira e outros ainda no semáforo, nada mais natural que isso ocorra entre países com realidades tão diversas — ainda mais que Portugal não teve, como nós, a contribuição enriquecedora das línguas indígenas e africanas. A compilação mais completa que conheço foi feita por Mauro Villar, nome assaz conhecido por ser o diretor do instituto que edita (e cultiva) o dicionário Houaiss. Em 1989, depois de passar alguns anos no Velho Mundo, o autor publicou o interessantíssimo Dicionário Contrastivo Luso-Brasileiro, no qual relaciona os vocábulos usados em Portugal e dá o seu equivalente no léxico brasileiro; embora não tenha sido escrito com a intenção de ser cômico, é uma excelente e divertida leitura (a obra está esgotada, mas pode ser encontrada na Estante Virtual,  o  sebo de todos os sebos.

Ali, por exemplo, podemos enxergar nitidamente a riqueza dos nossos processos de formação de palavras: nossa parada do transporte coletivo lá é paragem; aposentadoria é aposentação; bolsista é bolseiro; canadense é canadiano; a indústria automobilista é a indústria automóvel. O refrigerador é o frigorífico, enquanto o salva-vidas é o banheiro (na minha distante Rio Grande, nós o chamávamos de banhista); o que chamamos de banheiro lá é a casa de banho, prima do nosso quarto de banho. (Friso que esses exemplos e todos os que virão abaixo datam de 1989; se nesse meio tempo houve uma ou outra alteração neste quadro, o número certamente será desprezível).

Há casos em que a lógica que presidiu a formação é a mesma, mas a base escolhida é diferente. Nosso aquecedor é lá o esquentador; os mergulhadores portugueses usam barbatanas onde os nossos usam pés-de-pato; nós pisamos nos freios para frear, eles nos travões para travar. O encanador é o canalizador, e o batedor de carteiras, nosso punguista, lá se chama de carteirista.

Também divergimos da língua onde fomos buscar o vocábulo: nosso concreto lá é  betão (do Fr. béton — de onde veio, aliás, a betoneira); a tela é o ecrã (do Fr. écran); o grampo (para grampear papéis) é agrafe (do Fr. agrafe); a mamadeira dos nossos bebês lá é o biberão (do Fr. biberon). Nossa herança indígena e africana nos deu excelentes termos genéricos como capim e pereba, que eles não têm. Nossa caxumba é a papeira deles, o camundongo é simplesmente o ratinho e ONDE temos a bunda eles têm a nádega ou o rabo − e assim por diante, numa lista de menos de mil vocábulos numa língua que tem mais de meio milhão. Como eu disse, é muito pouco.

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Galicismos

Podemos viver sem as palavras de origem francesa? Imagine se nosso léxico fosse atingido por um raio desgalicizador! Ao acordar pela manhã, você não poderia mais falar em abajur, avalanche, omelete ou tricô.

Em 1882, na abertura de seus Papéis Avulsos, dirigindo-se ao leitor, como de costume, Machado de Assis encerra assim sua apresentação: “Deste modo, venha donde vier o reproche, espero que daí mesmo virá a absolvição”. Ah, não deu outra: na edição seguinte, ele se sente na obrigação de acrescentar uma nota ao final, onde informa, com sua habitual elegância: “Cerca de dois anos para cá, recebi duas cartas anônimas, escritas por pessoa inteligente e simpática, em que me foi notado o uso do vocábulo reproche. Não sabendo como responda ao meu estimável correspondente, aproveito esta ocasião. Reproche não é galicismo” — e segue a explicação, citando autores clássicos e respeitáveis. Duas cartas em dois anos! E de um correspondente educado! Que inveja! Penso no frenético Facebook e imagino hoje o pobre Machado enfrentando aquela lista interminável de opiniões tiradas do oco do umbigo (para não citar outro oco mais ao sul) e de bordões como “Fora Temer” e “Lula na prisão”…

Mas a que se deve essa manifestação de Machado? Por que acusar o  recebimento de uma banal carta anônima? A quem se dirigia, realmente, esta justificativa? Ora, sem dúvida alguma, ao clã dos puristas: no final do 2º Império, a extraordinária (e benéfica, a meu ver) influência da França em nossa cultura e em nossa língua começou a receber a oposição de um seita de radicais conservadores, absolutamente xiitas, que bradavam, com muita vontade e pouca ciência, contra a adoção desses galicismos, termo despectivo com que  tentavam fulminar os vocábulos franceses. Este grupo militante, é claro, pregava aos peixes, exaurindo-se numa causa equivocada, travada bem no momento em que mais forte foi sentida a influência do Francês em nossa vida (é significativo que um simpósio sobre a influência da cultura francesa no Brasil Imperial, ocorrido na USP em 2009, tenha escolhido como mote “O Século 19: um imenso galicismo”. Já o século 20, com as duas guerras e o cinema, traria, como sabemos, a ascensão vertiginosa do Inglês).

Para avaliar a extensão do equívoco dos puristas, imagine o amigo leitor que numa noite trágica nosso léxico fosse banhado por um raio desgalicizador, que eliminasse todos esses intrusos: ao acordar de manhã, você não poderia mais falar em abajur, avalanche, batom, bege, bijuteria, boate, boné, bufê, buquê, cachê, camelô, cassetete, chalé, chantagem, chique, chofer, creche, croquete, cupom, dossiê, filé, garagem, garçom, greve, guichê, lingerie, maiô, maionese, maquete, marrom, menu, omelete, placar, raquete, reprise, revanche, sutiã, toalete, tricô — e isso seria apenas a entrada, porque ainda faltariam os pratos quentes, a sobremesa e o licor. Alguns desses empréstimos eram desnecessários e apenas duplicavam palavras que já tínhamos; o tempo os eliminou, e só os consagrados sobreviveram.

Um caso curioso é rastaquera, que serve de título a esta coluna. Na aparência, poderia ser tomada por uma daquelas  expressões de origem obscura, como brega ou mocorongo, por exemplo; no entanto, ela nos veio do  Francês rastaquouère, termo usado para designar os novo-ricos latino-americanos que ostentavam sua riqueza e seu mau gosto na Paris no final do séc. 19. Incultos, ruidosos, inconvenientes, eles se carregavam “profusamente de joias — para faiscarem de longe”, diz Eça de Queirós (ele escreve rastaquère mesmo, despachando aqueles ditongos incômodos). Os dicionários mais rigorosos da França, no entanto, dizem que o termo é uma adaptação francesa do Espanhol rastracueros, literalmente “arrasta couros”, uma referência ao fato de que esses milionários da América Latina deviam sua fortuna principalmente ao comércio de couro. Não é para nos gabar, mas brasileiro foi usado por muito tempo na Europa como sinônimo para rastaquera, principalmente por causa dos emigrados que voltavam para o Velho Mundo com suas riquezas bem ou mal havidas, dispostos a tudo para “brilhar” na sociedade — até mesmo a enrolar um guardanapo na cabeça para executar, num restaurante grã-fino, aquela constrangedora dancinha que marcou, simbolicamente, o fim de Sérgio Cabral e sua quadrilha.

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Car@s amig@s

Apesar de toda a sua genialidade, o velho e bom Machado de Assis não previu, entre as várias espécies de loucura que Simão Bacamarte catalogou, a sanha que leva alguns indivíduos a propor reformas na sua língua materna — exatamente aquela que, como diria Cervantes, ele bebeu junto com o leite da mãe. Alguns, talvez entrevendo o tamanho sacrilégio que vão cometer, limitam-se a propor sistemas ortográficos próprios, delirantes, feitos em casa, que ganham os seus quinze minutos de fama na imprensa e terminam melancolicamente na barraca de aberrações do circo gramatical (não é por acaso que a totalidade dessas propostas absurdas — todas elas autoproclamadas “salvadoras” ou “simplificadoras” — venha da pena de autodidatas, que não tiveram em suas vidas um mestre que os ensinasse a evitar tanto desperdício de inteligência e criatividade).

Pois o último grito nesta nau dos insensatos é uma proposta que vai ainda mais fundo que a simples troca de letras: como o leitor pode ver no título desta coluna, trata-se da recomendação de “corrigir” também o sistema morfológico do Português, a fim de “limitar ou eliminar a hegemonia masculina” e “tornar o Português mais próximo do igualitário”, como apregoa, de boca cheia, um de seus arautos. Ora, como se aprende nos primeiros meses de qualquer curso de Letras que mereça esse nome, a tal “hegemonia masculina” não existe; usamos o gênero masculino para designar grupos mistos (o brasileiro é feliz — eles e elas) porque, como demonstrei na coluna anterior, ele é inclusivo, ao contrário do feminino, que exclui (a brasileira é feliz — apenas elas).

Infelizmente, explicar isso a esses malucos é tão inútil quanto pregar aos peixes, pois eles são surdos aos ditames da Ciência. Friso que um adepto dessa seita, horrorizado, jamais escreveria assim, mas optaria entre a arroba ou o “x” para substituir a terminação “o” ou “a” — “el@s são surd@s” ou “elxs são surdxs” — e o pior é que sairia com passo firme, orgulhoso, acreditando ter posto mais uma pedrinha na ereção (epa!) da pirâmide da igualdade dos gêneros. Para quem não se deu conta, esta proposta estapafúrdia (felizmente limitada a alguns ambientes universitários inexpressivos) é uma tentativa de melhorar aquela moda esquisita de sempre mencionar, lado a lado, os dois gêneros, que andou em voga há poucos anos, lembram? O que é uma cortesia perfeitamente aceitável em “senhoras e senhores” fica insuportável em “Quando os professores e as professoras entrarem no recinto, o coro dos alunos e das alunas vai saudá-los (las) com uma polca caprichada”. Melhor seria escrever “quando xs professorxs entrarem no recinto, o coro dxs alunxs vai saudá-lxs com uma polca caprichada”? Convenhamos que a nova alternativa é uma emenda muitíssimo pior que o soneto, e que nada se compara a “quando os professores entrarem no recinto, o coro dos alunos vai saudá-los com uma polca caprichada”.

Gostaria de encerrar com duas mensagens, já que o Ano Novo está logo ali: aos leitores, peço que não se preocupem com essa loucurada toda, que vai fazer ainda algum barulho mas logo se extinguirá como um foguete de estrelinhas; aos adeptos desta reforma radical, peço que não abandonem a luta pela igualdade de direitos para o homem e a mulher, que é nobre, mas que tomem juízo e procurem maneiras mais sensatas e eficientes de fazê-lo. Ah, e que aproveitem o feriado para ler (ou reler) A Reforma da Natureza, do Monteiro Lobato, onde vão certamente aprender algumas coisinhas.

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Questão de gênero

Uma colega de Belo Horizonte, Patrícia L., manda uma mensagem que é quase um desabafo: “Prezado Professor, saúde. Há vinte anos leciono Língua Portuguesa na rede pública e confesso que meu trabalho, se nunca foi fácil, vai ficando mais difícil a cada dia que passa. Imagine o senhor que a nossa Câmara Municipal aprovou, esta semana, em primeiro turno, um projeto de lei que determina que os cargos e funções constantes em documentos públicos sejam designados tanto no masculino quanto no feminino! Segundo a autora do projeto, a gramática machista [sic!] torna invisível o trabalho da mulher, quando se fala, por exemplo, em concurso público para o cargo de procurador, e não de procurador e procuradora. Nosso bom e velho Mattoso Câmara deve estar esperneando na tumba!”.

Confesso, cara Patrícia, que, ao ler a tua mensagem, tive vontade de imitar o Macunaíma e voltar para a minha rede. “Ai, que preguiça!”, pensei. “Vai começar tudo de novo!”. Lembrei daquelas intermináveis discussões sobre o uso de presidenta, em que os dois lados envolvidos — os prós e os contras — jogavam uns nos outros toda sorte de argumentos, muitos deles emocionais, pouquíssimos deles linguísticos. Porém, como fiquei curioso, fui googlear o tal projeto e constatei que, apesar da fundamentação científica ingênua e equivocada da vereadora, seu objetivo era bem mais modesto do que poderia parecer.

Peço-te licença, por um momento, para esclarecer aos demais leitores desta coluna a referência a Mattoso Câmara, o decano dos estudos linguísticos no Brasil. A ele devemos a descrição definitiva do sistema de gênero e número de nossos substantivos: a marca do feminino é o A, enquanto o masculino se assinala pela ausência desse A. Sabemos que filha, mestra e cantora são femininos porque ali está a marca; inversamente, sabemos que filho, mestre e cantor são masculinos porque ali não está a marca. Por isso, quando quisermos ser genéricos, usamos o masculino (ou seja, o gênero não-marcado): “O brasileiro vive menos do que o japonês (entenda-se: todos, eles e elas). Aproveitando esse princípio, é assim que o dicionário registra os substantivos de dois gêneros: lobo, menino, anão. O tal “machismo gramatical” é uma fantasia de certos grupos militantes que, invertendo causa e efeito, pensam que podem mudar a realidade mudando a linguagem — como já expliquei várias vezes nesta coluna. Paradoxalmente, o gênero que exclui é o feminino: se dissermos que os professores vão ser pagos em dia (o que não acontece por aqui, infelizmente), isso vale para homens e mulheres; se as professoras vão ser pagas, os homens estarão excluídos.

Voltando agora ao projeto, prezada leitora, posso te assegurar que não há razão para alarme. Apesar da vereadora belo-horizontina usar argumentos pífios, sua causa é mais simples e específica. Ela inspirou seu projeto nos protestos de uma professora da rede municipal que se revoltou por ostentar no crachá funcional o título de professor, como todas as suas colegas. Bom, aí já é de amargar! Por ignorância, preconceito ou desejo de racionalização na impressão dos crachás, os burocratas aqui literalmente pisaram na bola. Se pudéssemos perguntar ao próprio Mattoso Câmara o que ele acha disso, o  bom velhinho diria que esta é uma questão de atitude, e nada tem a ver com a estrutura gramatical de nossa língua. Usar a flexão feminina do substantivo para concordar com a detentora do cargo — procuradora, senadora, diretora, professora, juíza, promotora — é o mínimo que se espera em qualquer instância da administração pública, há muito tempo. Nosso Supremo hoje tem onze juízes; na composição atual, conta com nove juízes e duas juízas apenas.

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Antes do sol nascer

 

ANTES DO SOL NASCER - EDU

 

Como é possível que se defendam construções tão malsoantes como “Antes DE o sol nascer”, “Depois DE ele chegar”? Esta é uma regra artificial, inventada por defensores da análise lógica no início do séc. XX.

 

 Dona Lia, uma gaúcha gentil que mora em Florianópolis, escreve para tecer comentários elogiosos a esta coluna e aproveita a viagem para dizer que estranhou uma construção que empreguei um dia desses — “O fato DA maioria falar assim não justifica…”. Diz ela: “Aprendi que nesse caso e semelhantes, não se pode fazer a combinação da preposição de com o artigo a; eu escreveria o fato DE a maioria falar assim… Estou certa ou estou errada?”.

Olha, dona Lia, a regra a que a senhora se refere é uma regra pedagógica (não gramatical) de meados do séc. XIX, difundida por nomes importantes como Eduardo Carlos Pereira e repetida por muitos autores depois dele. Nosso idioma passava por um período em que pontificavam autoridades sem formação linguística científica, que imaginavam que a linguagem deveria ser um “sistema lógico”. Essa foi a mesma atitude equivocada que tentou, por exemplo, condenar a dupla negação como agramatical, desconhecendo que essa é uma maneira normal — em alguns casos, inclusive, obrigatória — de reforçar a negação (por exemplo, não podemos usar nada se não houver uma palavra negativa anterior: não ganhei nada).

Confundindo a análise lógica com a análise sintática e fonética, esses autores condenavam frases como “na hora DO papai chegar” alegando que papai, que é o sujeito do verbo, não poderia vir regido pela preposição de e que, por isso, deveríamos manter o artigo separado (“na hora DE o papai chegar”). Ora, autores da importância de Evanildo Bechara e Celso Pedro Luft apontam o equívoco dos gramáticos de antanho: isso nada tem a ver com subordinação sintática; a sequência de + o se transforma em do por um processo meramente fonético que recebe o nome de elisão. E tem mais: como já notou Sousa da Silveira, na fala essa elisão é obrigatória — o que é bom deixar bem claro. Que ninguém se ponha a pronunciar a preposição separada do pronome, porque tamanho disparate nunca se viu no vernáculo.

Na escrita, essa elisão foi praticada pelos melhores autores de nosso idioma: “São horas da baronesa dar o seu passeio pela chácara” (Machado). “Antes dele avistar o palácio de Porto Alvo” (Camilo). “Sabia-o antes do caso suceder” (Herculano). “Antes do sol nascer, já era nascido” (Padre Vieira). “Apesar das couves serem uma só das muitas espécies de legumes” (Rui Barbosa). Fica evidente que por séculos esta era uma construção correta, antes que alguém tentasse impor uma restrição quanto a ela, certamente levado por um raciocínio equivocado.

Infelizmente, a imprensa foi mordida pelo mosquito e passou a separar sistematicamente a preposição do artigo, dando a aparência de obrigatória a uma regra que Cegalla, na mosca, classifica de uma “inovação ao arrepio da tradição da língua”. O uso, porém, ficou tão generalizado que não se pode mais considerar errada esta construção, apesar do que ela tem de artificial e malsoante. Acerta, portanto, quem mantém a preposição separada, e acerta quem faz a elisão com o artigo ou o pronome. Como podem ver pelo título desta coluna, este é o meu caso — muito faceiro, aqui, de braço dado com o padre Vieira e com Machado de Assis.   

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Como se escreve Conceitos lingüísticos Destaque Grafia de estrangeirismos

o rei do roque

Se, como vimos, “crack” pode ser nacionalizado como CRAQUE, o que impedirá que “rock” se transforme em ROQUE? Nada — nem mesmo o fantasma de Elvis, nosso rei eterno e incontestável. Tudo vai depender da preferência dos fãs deste tipo de música.

O fato de eu ter afirmado, na coluna anterior, que convivemos atualmente com duas propostas ortográficas para o nome da droga mais mortífera — ou escrevemos crack, na sua forma de origem, ou escrevemos craque, já com roupagem nacional — desagradou a um leitor de Caxias que assina com o sugestivo pseudônimo de “Crazy Metal”. Ao que parece, a capa vermelha que deixou esse tourinho assanhado foi a ideia de que todas as palavras estrangeiras — excetuando-se os casos extremos, como vimos — todas elas, repito, vão terminar passando pelo processo de aportuguesamento. Como eu já disse antes, esta tendência inexorável à padronização é extremamente benéfica para o idioma, pois ajuda, e muito, a evitar a desestabilização de nossa ortografia. No entanto, por várias coisas que nosso Crazy escreveu em seu e-mail, logo deu para perceber que esta nacionalização das palavras estrangeiras choca muito seu senso estético: “Quem decide como vai ficar? Babacas como você?”; “O nome correto da pedra é crack; craque é coisa de chinelão, e eu sei do que estou falando!”; “Só falta querer dizer que rock pode ser escrito roque” — e por aí afora ele ia, o jovem e rabugento metaleiro.

Relevando o “babaca” — ando na minha fase de máxima tolerância, lembram? —, admito que às vezes essas adaptações também me parecem desenxabidas; bulevar não tem o charme de boulevard, copirraite parece um copyright de quem não foi ao colégio, uísque não soa tão sofisticado quando whisky — mas é pura cisma da minha parte: a forma aportuguesada está nos dicionários desde o final da 2ª Grande Guerra! Quer eu goste, quer não, nosso sistema engoliu e digeriu essas palavras, descomendo-as depois já com sua nova feição. Quem decide que vai ser assim? Ora, caro Crazy Metal, claro que não sou eu, nem ninguém especificamente, mas sim as forças internas do próprio sistema, que sempre atuam a favor do falante. Tornando mais concreto o que pode parecer abstrato, vou explicar melhor: pensa numa pedra irregular que seja jogada no leito de um rio: aos poucos, independentemente de nossa vontade, ela naturalmente gastará suas pontas e suas arestas, tornando-se mais lisa e polida. Pois o mesmo acontece com a palavra: jogada na correnteza do uso, vai assumir uma forma cada vez mais arredondada, até que deixe de ser um cascalho incômodo na boca de quem a pronuncia.

No caso do craque, atua uma força tão irresistível quanto a gravidade: excetuados uns poucos casos, nossa língua não admite aquelas sílabas terminadas em consoante que são tão frequentes, por exemplo, no Inglês. Por isso, sempre que um desses vocábulos é importado, damos um jeito na sílaba desengonçada, acrescentando-lhe um E: club, turf, surf, clip, lord viram clube, turfe, surfe, clipe e lorde. Isso vale para importados de qualquer língua: crack, cognac, frac, chic e bolchevik (e pensar que esta rima já esteve na moda…) viram craque, conhaque, fraque, chique e bolchevique. E o rock? Ora, más (ou boas?) notícias: se o rack de som já está se metamorfoseando em raque (300.000 ocorrências no Google — o que não é pouco), não seria de espantar que o rock um dia venha a virar roque. É claro que, neste caso, o processo vai ser muito retardado pelo prestígio da forma globalizada, mas já se pode encontrar aqui e ali quem prefira roque, variante já dicionarizada — aliás, o único radical utilizado para formar derivados como roqueiro.

Aproveito agora o espaço para mandar recado para um grande amigo meu, que ouvi no rádio, esta semana. Ele falava em lactantes e lactentes: para ele, a distinção é claríssima: lactante é quem está amamentando, lactente é quem está sendo amamentado. No animal humano, portanto, lactante é a mãe, lactente é o bebê. O que parece simples para o doutor, contudo, pode não sê-lo para seus ouvintes. Dos vários pares de vocábulos que se confundem, este é talvez o mais perigoso que conheço. Em primeiro lugar, porque não é comum, na estrutura do Português, pares que se distingam por uma oposição entre ANTE x ENTE (no vocabulário de uso geral, na verdade, este é o único que conheço). Depois — e aí a coisa fica preta —, como ambos aparecem no mesmo contexto da amamentação, a pessoa que recebe recomendações médicas pode trocar um pelo outro, com as sérias conseqüências  imagináveis. Quem emprega esses vocábulos deve estar consciente de que a maioria das pessoas não sabe sequer da existência dos dois termos; ipso facto, deve tomar todas as precauções para evitar mal-entendidos. Médico que fala em programa de rádio, então, nem pensar: deixe os dois vocábulos para quando estiver entre seus pares.

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Tolerância

Os leitores que escrevem para esta coluna geralmente se dividem em dois tipos: os que têm dúvidas e precisam de ajuda (felizmente, o mais numeroso) e os que querem desabafar sua fúria contra aquilo que consideram errado no Português dos outros… Um leitor do Ceará, exemplo do primeiro tipo, vem perguntar se a camisa é listada ou listrada. Ou seja, ele quer saber qual das duas formas estaria de acordo com o consenso das pessoas cultas, que, pelo que se vê, ele respeita e ao qual procura se adequar. Alguns lingüistas oficiais vêm combatendo esse tipo de preocupação, tachando-a de elitista; tentam até eliminá-la do ensino da língua portuguesa, mas espero ardentemente que o impulso civilizatório acabe prevalecendo e essa nefasta influência seja neutralizada (ultimamente eles têm andado muito pimpões do alto de seus cargos — mas deixa estar, jacaré, que a lagoa vai secar…).

Respondo então que o mais comum é listrada, mas os bons dicionários (Houaiss, Aurélio, Luft e Aulete — e, humildemente, eu também) admitem listada com o mesmo sentido. Há alguns medalhões que só aceitam a primeira, alegando que o que camisa tem são listras; eles esquecem que a forma mais antiga sempre foi lista, para riscos ou raias desenhadas no pano ou no papel. Nosso leitor não quer parecer “errado” diante de seus pares (como também certamente não lhe agradaria ir a uma festa com o traje inadequado); a informação que lhe passei permite, agora, que ele opte, se quiser, por listada, que também é moeda boa e corrente.

Outros, no entanto, escrevem para esta coluna com o olho raiado de sangue, furiosos com alguma expressão que não toleram ver usada. Estes não querem perguntar, nem trocar ideias — seu objetivo é condenar, com aquela veemência de quem acredita pertencer ao partido da verdade. Não podem deixar o próximo em paz; apontam com dedo acusador tudo aquilo que, na sua visão intolerante, é um pecado inadmissível. A maior parte deles investe ou contra o emprego de palavras estrangeiras ou, por algum motivo que me escapa, contra possíveis pleonasmos. “Professor, é absurda esta moda de empregar palavras estrangeiras nas vitrines de luxo. Sale, off, delivery — que coisa mais ridícula!”. Como nada perguntam, só me resta tentar incutir-lhes um pouco de tolerância, atualmente uma das virtudes escassas neste país. Afinal, se é ridículo tal emprego, e os donos das lojas querem ser ridículos, nós nada temos a ver com isso, já que não somos os catões deste mundo. Eu gostaria de saber, aliás, quantos desses que condenam sale não admiram a Disneylândia ou levam os filhos para mastigar alegremente uma dessas temíveis iguarias  de fast-food… Epa! Não é que me escapou mais uma?

Os pleonasmos, coitados, esses são caçados como ratazanas. Há leitores tão primários quanto intolerantes: “Professor, não agüento mais ouvir, no rádio, falarem que o trânsito está congestionado devido ao excesso de veículos. Ora, se está congestionado, é claro que por causa dos veículos. Deviam multar quem diz tamanha asneira”. Lá vou eu, apóstolo da tolerância, mas já um pouquinho irritado com o tom da mensagem, explicar o que me parece óbvio: não há pleonasmo aqui, não. O trânsito pode estar congestionado devido ao excesso de semáforos, ou devido à realização de uma manifestação, ou devido ao mau estado da pista, ou devido a cem mil outros fatores que não o excesso de veículos — e assim espero, sem muita convicção, acalmar a fera.

Algumas mensagens, porém, ultrapassam o limite da prudência: “Percebi que o senhor costuma usar junto com em seus artigos, o que estranho. Afinal, junto com não é pleonasmo?”. Respiro fundo e explico que há muitos casos em que junto com não é um pleonasmo, não. Há centenas (não é força de expressão!) de exemplos nos bons escritores, do séc. 13 até o nosso. No início, era mais usada com o sentido de aproximação física: “Fomos até uma lagoa grande de água doce, que está junto com a praia” (carta de Caminha);  “Desenhava os olhos muito junto com as sobrancelhas” (Francisco Rodrigues Lobo). Depois, passou a ser empregada mesmo no sentido de companhia. Só para ficar com o incomparável Veira, que é do séc. 17: “Ali se verá o princípio do mundo junto com o fim, e o fim junto com o princípio”. Vale o mesmo para juntamente com: “Todas as coisas desde seu princípio nasceram juntamente com o tempo”; “Sêneca disse que é grande consolação acabar juntamente com o mundo”. Concluo: “Pode-se ver que nesses exemplos, meu amigo, o autor procurou, ao incluir junto ou juntamente, acrescentar uma idéia que não seria transmitida se tivesse optado por usar simplesmente o com“. Tolerância. Eu realmente tenho andado muito zen…

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Se sim

“Você vai ao cinema hoje? SE SIM, deixe a chave com o vizinho”Você estranha esta construção, caro leitor? SE SIM, tem todo o direito de não empregá-la, embora ela esteja correta e, para o meu gosto, soe melhor do que muitos de seus possíveis substitutos.

Um leitor que mantém na internet um serviço de relacionamento entre solteiros de vida alegre vem pedir que eu o ajude a polir uma frase que aparece bem na entrada de seu saite (os portugueses, mais elegantes, chamariam de sítio; outros preferem site, à inglesa): “Você faz parte deste grupo? Se sim, digite o seu número de inscrição; se não, preencha o formulário de registro”. Ele próprio é o autor da frase, mas, como honestamente me informa, ela tem arranhado seu ouvido desde o dia em que a concebeu. “Professor, tem alguma coisa aí que não me cai muito bem. Usar as expressões se sim ou se não como resposta a uma pergunta não é considerado mau Português? Por exemplo: ‘Você vai sair hoje? Se sim, não esqueça o guarda-chuva’. Não sei justificar, mas a expressão soa esquisito, e as alternativas que me ocorrem — “em caso afirmativo”, “em caso negativo”, etc. — parecem um pouco pernósticas para um saite descontraído como o meu”.

Ora, ora, quem diria! Um internauta preocupado com sutilezas da linguagem! É ave rara? Claro que não; conheço centenas deles. Aqueles profetas do apocalipse que vivem dizendo que a internet será o túmulo da boa linguagem esquecem que a rede — assim como o tinteiro, a pena de ganso ou a máquina de escrever — é apenas um meio de trocar e estocar informações, e que as pessoas articuladas vão sempre escrever melhor que as outras, mesmo que utilizem sinais de fumaça.

Como podes ver, meu amigo, “mau Português” nunca poderá ser, já que Machado, Camilo, Miguel Torga e Saramago, entre outros, usaram e usam o se sim (o se não dispensa maiores cuidados, de tão corriqueiro que é). Dois excelentes exemplos nos vêm de Machado (em Dom Camurro e em Memorial de Aires, respectivamente): “Não sei se alguma vez tiveste dezessete anos. Se sim, deves saber que é a idade em que a metade do homem e a metade do menino formam um só curioso”; “A idéia é saber se Fidélia terá voltado ao cemitério depois de casada. Possivelmente, sim; possivelmente não. Não a censurarei, se não: a alma de uma pessoa pode ser estreita para duas afeições grandes. Se sim, não lhe ficarei querendo mal, ao contrário”.

Não se costuma condenar uma construção aprovada por autores da primeira água. Agora, usá-la, isso quem vai decidir és tu, porque ninguém é obrigado a seguir o gosto deste ou daquele escritor. Sempre existem outras formas também corretas de dizer a mesma coisa — basta queimar um pouquinho as pestanas. No exemplo apresentado — “Você faz parte deste grupo? Se sim, digite o seu número de inscrição” —, aquele “se sim”, que te soa tão mal (mas que a mim não desagrada), pode ser trocado por “se fizer, digite…”, “caso faça, digite…”, “se a resposta for sim, digite…”, “em caso afirmativo, digite…”, e mais outras, certamente, que não me ocorrem no momento. Não te esqueças: o idioma nos oferece centenas de recursos possíveis, e entre eles vamos escolhendo aqueles que mais nos agradam. A soma de nossas escolhas é, no fundo, aquilo que chamamos de “estilo”.

E já que estamos falando de escolhas, aproveito para dar uma satisfação aos leitores que estranharam uma construção que utilizei numa coluna da série Homens e Mulheres, publicada no Segundo Caderno há pouco mais de um mês. Falando das Musas, escrevi que “as roupas diáfanas e esvoaçantes que usavam mal e mal ocultavam o seu corpo escultural“; três leitores, o que não é pouco, escreveram no dia seguinte para sugerir, cada um à sua maneira, que deveria teria havido aqui um erro de revisão do jornal (forma diplomática de perguntar se eu não tinha cometido um erro de concordância): se tudo está no plural — as Musas e todo o resto —, a forma correta não deveria ser “as roupas diáfanas e esvoaçantes que usavam mal e mal ocultavam os seus corpos esculturais“?

Não, meus amigos, não deveria — poderia, mas não deveria. Em casos como este, embora também esteja correto o plural, o mais elegante, para mim, é usar o singular, como fazem dezenas de escritores que respeito e admiro. Em outras palavras, apesar de me referir a um conjunto de pessoas, posso deixar no singular esses vocábulos que se trazem implícita a ideia de “cada um com o seu”: “Os professores torceram o nariz diante da proposta” (os narizes?); “Ali eles perderam a vida” (as vidas?); “Dê o nome dos rios navegáveis da Amazônia” (os nomes?); “Aqui vai a lista com o endereço dos participantes” (os endereços?); “Os alunos escreviam com a cabeça baixa” (as cabeças baixas?). Repito: o plural, aqui, embora correto, parece-me desajeitado e desnecessário, o que me levou a falar no “corpo escultural das Musas”. Eu estava apenas exercendo o direito de escolher, entre duas formas corretas, aquela que mais me agrada — o mesmo direito, aliás, exercido pelos três leitores que preferiram o plural.

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NOTA: aproveito para informar aos amigos que inicio, neste janeiro, um curso de verão de Português, na Casa de Ideias, no Shopping Total. Mais detalhes no telefone 30187740 ou em www.casadeideias.com.