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Bajeense

Embora ainda haja polêmicas sobre a forma correta de grafar o nome de certas cidades, o nome de seus habitantes sempre seguirá a norma ortográfica em vigor.

 

Turenne, o grande marechal de Luís XIV, apesar de ser veterano de muitas guerras (ou talvez até por causa disso…), nunca deixou de sentir medo na hora do combate. De longe, seus homens ouviam-no gritar para si mesmo, com as rédeas numa mão e a espada desembainhada na outra, prestes a se precipitar no ponto mais aceso da batalha: “Tu tremes, carcaça? Pois vais tremer ainda mais quando souberes para onde estou te levando!”.

A coluna de hoje trata do vocábulo bajeense, cuja grafia ainda é discutida por aqui; a menção a Turenne não é gratuita, porque ele próprio, tenho certeza, hesitaria antes de se meter numa polêmica como essa, que já leva os seus oitenta anos e sempre termina com os defensores de *bageense fingindo que não existe a regra que os contraria.

Ninguém, muito menos eu, vai conseguir terminar com essa discussão usando apenas argumentos técnicos e racionais; aqui, como todo o mundo sabe, intervêm emoções e sentimentos inflamados que reduzem a Dona Gramática a uma tênue luz de lamparina. Entro na disputa, porém, para responder a R. Vilarinho,  leitor que confessa estar cansado de ouvir os dois lados trocarem mais insultos do que argumentos. Diz ele: “Opinião todo o mundo tem, principalmente agora, em tempos de Facebook. Eu uso bajeense porque vi que o senhor também usa, mas  não sei explicar quando me perguntam”.

Pois vamos lá. Em primeiro lugar, lembro que as regras do Acordo de 1943, que é a base de nossa ortografia (as reformas posteriores apenas retocaram o edifício), fruto do esforço getulista em modernizar a sociedade brasileira, também se aplicam aos topônimos. Com a sua aplicação, centenas de nomes geográficos foram adequados ao novo sistema. Triumpho virou Triunfo, Paraty virou Parati, Manáos virou Manaus, e assim por diante − nenhum escândalo aqui, especialmente para um país como o Brasil, que teve seu nome oficialmente escrito com Z por todo o período imperial.

O princípio é simples: os nomes geográficos, por sua própria natureza pública, precisam se adequar à norma ortográfica que estiver em vigência. A partir de 1943, por exemplo, passamos a escrever Pôrto Alegre, com o circunflexo diferencial; quando este acento caiu na década de 70, voltamos a escrever Porto, sem acento. Por sua vez, Joia, no Rio Grande do Sul, tinha acento até entrar em vigor o atual Acordo, quando então foi suprimido o acento dos ditongos abertos nos vocábulos paroxítonos. Fica claro, portanto, que o registro de fundação de um município, diferentemente do registro das pessoas físicas, não dá aos munícipes o direito de manter para sempre a grafia original. Se, no futuro, nova reforma vier a ocorrer, esses nomes sofrerão todas as modificações necessárias para se adequar à nova lei.

É natural que as gerações contemporâneas às mudanças sofram um verdadeiro choque estético diante do que lhes parece uma mutilação. O próprio texto de 1943, prevendo isso, inseriu um paragrafozinho maroto no final do texto da lei admitindo que “topônimos de tradição secular”, como Bahia, poderiam ficar fora deste regimento. Ora, esta exceção alimenta, até hoje, a discussão sobre a grafia de certos municípios − especialmente os de origem indígena, como Erexim, Bajé ou Moji, que defendem o direito de manter sua grafia “secular” preservada (Erechim, Bagé, Mogi) − livres, portanto, da padronização que sofreram os milhares de palavras que herdamos das línguas indígenas e africanas (sempre X no lugar de CH, sempre J no lugar de G e sempre Ç no lugar de SS), como em açaí, acarajé, caxinguelê, xaxim, jibóia e miçanga.

Sou obrigado a reconhecer, diante do precedente de Bahia, que estes municípios têm todo o direito de espernear. Não é disso, porém, que estamos tratando aqui, e sim dos vocábulos derivados dos topônimos, especialmente da classe dos adjetivos gentílicos. Estes seguem, na sua formação e na sua grafia, os mecanismos gerais do idioma; são palavras comuns, civis, que vão ser tratadas como todas as suas iguais. Bahia é um vocábulo de exceção, mas — como define expressamente o Acordo — os seus derivados não têm o mesmo privilégio e não podem ostentar aquele H aristocrático: baiano, baianidade, coco-da-baía, laranja-baía.

Este é exatamente o caso de Bajé; os partidários do G alegam que um tal de “Conselho Federal de Cultura”, durante o governo do general Médici, aprovou o enquadramento do município nesta fluida categoria de “topônimo secular”, que pode assim manter o Bagé original; seus oponentes, contudo, não reconhecem a competência dessa entidade para legislar sobre ortografia e ressaltam que a tal “tradição secular” é metafórica, não se limitando especificamente a um século. A questão persistirá por tempo indeterminado − mas, escreva-se Bajé ou Bagé, Moji ou Mogi, Erexim ou Erechim, os adjetivos que daí derivam, pela regra clara e cristalina, serão bajeense, mojiano e erexinense − sem choro nem vela.

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Antes do sol nascer

 

ANTES DO SOL NASCER - EDU

 

Como é possível que se defendam construções tão malsoantes como “Antes DE o sol nascer”, “Depois DE ele chegar”? Esta é uma regra artificial, inventada por defensores da análise lógica no início do séc. XX.

 

 Dona Lia, uma gaúcha gentil que mora em Florianópolis, escreve para tecer comentários elogiosos a esta coluna e aproveita a viagem para dizer que estranhou uma construção que empreguei um dia desses — “O fato DA maioria falar assim não justifica…”. Diz ela: “Aprendi que nesse caso e semelhantes, não se pode fazer a combinação da preposição de com o artigo a; eu escreveria o fato DE a maioria falar assim… Estou certa ou estou errada?”.

Olha, dona Lia, a regra a que a senhora se refere é uma regra pedagógica (não gramatical) de meados do séc. XIX, difundida por nomes importantes como Eduardo Carlos Pereira e repetida por muitos autores depois dele. Nosso idioma passava por um período em que pontificavam autoridades sem formação linguística científica, que imaginavam que a linguagem deveria ser um “sistema lógico”. Essa foi a mesma atitude equivocada que tentou, por exemplo, condenar a dupla negação como agramatical, desconhecendo que essa é uma maneira normal — em alguns casos, inclusive, obrigatória — de reforçar a negação (por exemplo, não podemos usar nada se não houver uma palavra negativa anterior: não ganhei nada).

Confundindo a análise lógica com a análise sintática e fonética, esses autores condenavam frases como “na hora DO papai chegar” alegando que papai, que é o sujeito do verbo, não poderia vir regido pela preposição de e que, por isso, deveríamos manter o artigo separado (“na hora DE o papai chegar”). Ora, autores da importância de Evanildo Bechara e Celso Pedro Luft apontam o equívoco dos gramáticos de antanho: isso nada tem a ver com subordinação sintática; a sequência de + o se transforma em do por um processo meramente fonético que recebe o nome de elisão. E tem mais: como já notou Sousa da Silveira, na fala essa elisão é obrigatória — o que é bom deixar bem claro. Que ninguém se ponha a pronunciar a preposição separada do pronome, porque tamanho disparate nunca se viu no vernáculo.

Na escrita, essa elisão foi praticada pelos melhores autores de nosso idioma: “São horas da baronesa dar o seu passeio pela chácara” (Machado). “Antes dele avistar o palácio de Porto Alvo” (Camilo). “Sabia-o antes do caso suceder” (Herculano). “Antes do sol nascer, já era nascido” (Padre Vieira). “Apesar das couves serem uma só das muitas espécies de legumes” (Rui Barbosa). Fica evidente que por séculos esta era uma construção correta, antes que alguém tentasse impor uma restrição quanto a ela, certamente levado por um raciocínio equivocado.

Infelizmente, a imprensa foi mordida pelo mosquito e passou a separar sistematicamente a preposição do artigo, dando a aparência de obrigatória a uma regra que Cegalla, na mosca, classifica de uma “inovação ao arrepio da tradição da língua”. O uso, porém, ficou tão generalizado que não se pode mais considerar errada esta construção, apesar do que ela tem de artificial e malsoante. Acerta, portanto, quem mantém a preposição separada, e acerta quem faz a elisão com o artigo ou o pronome. Como podem ver pelo título desta coluna, este é o meu caso — muito faceiro, aqui, de braço dado com o padre Vieira e com Machado de Assis.   

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Chico também escorrega no Imperativo

As regras de formação do IMPERATIVO são tão artificiais que raríssimos são os brasileiros que conseguem navegar por essas águas turvas sem naufragar. Como veremos, nem Chico escapou dessa armadilha.

Prezado Doutor,  gostaria de parabenizá-lo por sua página na Internet.  Minha dúvida encontra-se na letra de uma música de Chico Buarque, compositor pelo qual tenho uma grande admiração. A referida música intitula-se Fado Tropical.  Sua primeira estrofe nos diz:

“Ó, musa do meu fado
Ó, minha mãe gentil,
Te deixo, consternado,
No primeiro abril.
Mas não sê tão ingrata,
Não esquece quem te amou
E em tua densa mata
Se perdeu e se encontrou
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal

 Não deveria o ilustre compositor ter utilizado o imperativo negativo na forma mas não sejas tão ingrata? Ou será que a língua escrita em Portugal, notoriamente presente na letra da música, permite aquela outra construção? Agradeço sua atenção.”

João Marcelo ― Fortaleza

RESPOSTA ― Meu caro João Marcelo: o Chico — quem diria! — também tropeçou no imperativo, como seus colegas Gil e Mílton Nascimento (dá uma olhada em lê ou leia).  Na verdade, errou duas vezes: deveria ter escrito não sejas e não esqueças ( e esquece, como está na canção, são formas do imperativo afirmativo, não do negativo). Para tua informação, o imperativo em Portugal é igualzinho ao nosso, e os dois versos estão errados deste e daquele lado do Atlântico.

Agora, esse erro, vindo de quem vem ― o melhor letrista de nosso cancioneiro popular ― serve para confirmar duas teses (que eu defendo, aliás):

(1) o Imperativo negativo da 2a pessoa passou a ser, para a maioria dos falantes, idêntico ao afirmativo (volta, não volta; fica, não fica, etc.). Só não concordam com isso os gramáticos tradicionais ― e, por consequência, as bancas de concurso.

(2) não é qualquer um que pode encarar o tu e sair ileso. Vê só: nesse torvelinho, caíram três dos nossos maiores compositores da MPB!

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Acordo ortográfico Destaque Questões do momento

Nova folia ortográfica?

As redes sociais (e os jornais menos avisados) andam ameaçando os pobres brasileiros com uma nova (e radical) reforma ortográfica. Não se assustem; trata-se apenas da proposta pessoal de um professor que pouco ou quase nada entende do riscado. 

Quando o doutor Simão Bacamarte construiu o seu hospício, conta-nos Machado, “de todas as vilas e arraiais vizinhos afluíam loucos… Eram furiosos, eram mansos, eram monomaníacos, era toda a família dos deserdados do espírito”. Felizmente naquela época ainda não se manifestavam essas pobres mentes que de vez em quando saem do anonimato para anunciar uma solução mágica para nossa ortografia; caso contrário, tenho certeza de que nosso bom alienista os mandaria internar na Casa Verde.

Como certos fenômenos meteorológicos, aparecem e desaparecem ciclicamente. Sentem-se iluminados por uma inspiração genial e inédita; com aquele olhinho brilhante que tão bem conhecemos, anunciam uma verdade que ninguém, antes deles, em todo o planeta ― nem os filólogos, nem os linguistas, nem os lexicógrafos do mundo inteiro ― ninguém, repito, havia percebido: para eliminar as dificuldades inerentes à escrita, basta criar um sistema em que a cada letra corresponda um só fonema! Puxa, que simples! Como não são especialistas no tema, pouco se lhes dá que nenhum país tenha adotado essa ortografia fonêmica ou que os linguistas reprovem unanimemente essa ideia. Para eles, nada disso conta; afinal, alguém que viu a luz não deve dar ouvidos aos que vivem na treva.

O problema é que esta mesma ignorância que os deixa felizes impede que entendam a real importância da ortografia. Ela é que deixa visível o DNA das palavras; ao realçar as semelhanças e diferenças entre elas, agrupa-as em famílias que nosso cérebro pode reconhecer. A grafia diferente do fonema /s/ em obsceno, obcecado e obsessão nos informa que se trata de três conceitos distintos; escrever essas três palavras da mesma forma levaria, em poucas gerações, a um mingau semântico irreversível. Também é por isso que não se pode eliminar o H inicial (uma das vítimas favoritas desses ortógrafos amadores): além de assinalar a família a que a palavra pertence (hombridade está ligada a homem, não a ombro), liga nosso idioma à civilização greco-romana, da qual felizmente fazemos parte. Comparem  hora (Lat.), hour (Ing.), heure (Fr.), hora (Esp.) e hora (Port.), e vejam como fica desfigurado o pobre ora, do Italiano, a única língua ocidental que suprimiu o H… Pois fiquem sabendo que todas as sociedades civilizadas já fizeram essa conta: é melhor conviver com a complexidade da ortografia, com todos os problemas e custos que isso traz, do que destruir a própria essência de nossa apreensão da realidade.

Além disso, há muitos anos a professora Mira Mateus, falando acerca dessas propostas baseadas no “escrever como se fala”, nelas apontou uma contradição essencial que as faz invariavelmente morrer no ovo: o mundo da ortografia precisa ser estável, organizado e uniforme, em contraste com o mundo da fala, ambiente sempre vivo e irrequieto, habitado por incontáveis maneiras de pronunciar as palavras, que se modificam ao sabor dos anos que passam ou da região ou país em que vive o falante.

Digo tudo isso porque uma dessas sumidades se infiltrou na comissão do Senado encarregada de propor ajustes ao Novo Acordo e anda pregando a mesma “simplificação” pedestre que era defendida, em 1940, pelo famoso general Bertoldo Klinger. Trata-se do professor Ernani Pimentel, nome totalmente desconhecido do mundo acadêmico, autor de apostilas para concurso  ― “com mais de 10.000 páginas publicadas”, diz seu saite, que parece substituir a qualidade pela quantidade. A comissão do Senado foi criada para sugerir aperfeiçoamentos ao Acordo assinado pelos países lusófonos; ele acha pouco, e quer botar tudo abaixo! Alguns jornalistas apressados caíram no conto do vigário e apresentaram suas ideias como se fossem oficiais (desmentidas pelo senador responsável; afinal, a comissão não tem poder para propor um novo acordo internacional). O nome do professor Pasquale, outro membro do grupo técnico, apareceu várias vezes nos jornais que noticiaram esta falsa “nova reforma”. Não o conheço pessoalmente, mas quase posso jurar que seu nome entrou aqui como o de Pilatos no Credo; pelo bom senso e boa formação que demonstra no que escreve, dificilmente iria embarcar nessa canoa furadíssima.

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vou estar verificando

Não seja injusto! O erro chamado de GERUNDISMO não é culpa do pobre gerúndio.

Numa coluna muito bem-humorada, ao falar dos operadores de telemarketing ― uma praga que faltou no Egito ―, Mário Corso apontava, com ironia, um peculiar emprego do gerúndio que eles propagaram país afora: “Não foi Machado, nem Pessoa, nem ao menos um criador de palavras como Guimarães Rosa quem nos trouxe o encontro triverbal. Nunca antes usamos três verbos juntos como nesse exemplo prosaico: vou estar verificando… Como chamar isso? Talvez o professor Cláudio Moreno possa nos dizer: seria promessa de gerúndio, ou presente gerundiado, ou ainda gerúndio do gerúndio?”. Ora, amigo Mário, nestas questões de Português sofro a mesma sina que o gênio de Aladim, pois não posso deixar de atender a quem fricciona a lâmpada da dúvida.

Embora esse tipo de erro seja chamado de “gerundismo”, ele não se origina no pobre gerúndio, mas sim em um dos vários recursos que a língua oferece para expressarmos a ideia de futuro. No Português atual (falo do Brasil, apenas), é mais usada a construção [ir +qualquer verbono infinitivo]: “Amanhã vou sair bem cedo”; “Desse jeito, vais perder o marido”. Em segundo lugar, a preferência fica simplesmente com o presente do indicativo do verbo: “Amanhã eu saio bem cedo”; “Desse jeito, perdes o marido”. Nossa terceira e derradeira escolha passou a ser, há muito tempo, o futuro do presente, quase extinto no uso comum: “Amanhã sairei bem cedo”; “Desse jeito, perderás o marido” (aliás, deve ter sido a raridade de seu emprego que levou o Pinheiro Machado, nosso Anonymus Gourmet, a escolher “Voltaremos!” como bordão de seu programa).

O outro ingrediente desta complexa mistura é a sequência [estar+gerúndio], usada para expressar uma ação continuada, seja no presente, no passado ou no futuro: “Estou tentando ligar”; “Ele estava pintando o muro”; “Quando chegares, estarei dormindo“. Pois aqui está: quando o auxiliar estiver no futuro, a tendência natural, como vimos acima, é substituí-lo pela locução formada de [ir+infinitivo]: “Quando chegares, vou estar dormindo“, “Na hora do jogo, vou estar dando aula” ― frases corretas, “corretíssimas”, como diria o José Dias de Machado.

Ora, o que nos faz rejeitar frases do tipo “vou estar verificando”? Há algo nela de esquisito, mas, como vimos, não é a sequência  [ir+estar+gerúndio], pois este “encontro triverbal” é construção prevista na estrutura da língua, empregada por vários autores que escrevem bem melhor do que nós. O problema, na verdade, é a incompatibilidade do verbo verificar com o verbo estar, já que não tem caráter durativo, mas pontual (“vou estar verificando” significa, no fundo, “vou verificar”). É o mesmo motivo que nos faz rejeitar “vou estar chamando um táxi” ou “vou estar enviando o relatório”, mas aceitar “venha, que vou estar esperando na porta” ou “quando você defender a tese, vou estar torcendo aqui em casa”.

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há dez anos atrás

Como as roupas expostas à luz do Sol por muito tempo, as palavras e expressões também podem desbotar, levando-nos a reforçar o seu significado com outros recursos que a língua oferece. Ao lado de redundâncias grosseiras como “subir para cima”, temos redundâncias perfeitamente justificáveis como “ambos os dois”, “bonita caligrafia” e “há dois anos atrás”.

Uma leitora que assina como Mãe Aflita (quase um pleonasmo, diria um cínico…), desconfiada da escola em que o filho estuda, escreve para perguntar se não andam servindo merenda estragada a seu rebento: “Mandaram ler O Burrinho Pedrês, professor. Sei que Guimarães Rosa é famoso, mas já na primeira folheada encontrei um erro que considero primário: ele escreve há dois anos atrás! Aprendi que isso é uma redundância inaceitável. A professora diz que não é mais. E o senhor?”.

Pois eu também digo que não, minha cara Mãe Aflita. Se lhe serve de consolo, a mim também ensinaram a mesma coisa, e o meu mestre pessoal, Celso Pedro Luft, recomendava expressamente que o atrás, em casos como esse, fosse eliminado. Acontece que comecei a discordar. São tantos os brasileiros bem falantes que usam essa construção que deve haver algo que a justifique. Eu não escrevo assim, mas preciso entender a razão de sua vitalidade, até porque tenho sentido, várias vezes, a tentação de empregar esse adverbiozinho de reforço. Como o que não me falta é estudo, só posso imaginar que aqui exista um daqueles redemoinhos que volta e meia se formam na correnteza da língua. É o momento de lembrar, como ensinava um antigo professor de Lingüística, a teoria do degrau: se meu vizinho, ao entrar no seu prédio, tropeça no degrau, podemos imaginar que ele esteja com algum problema de visão, ou de coordenação motora, ou coisa assim. No entanto, se um grande número de moradores tropeça no mesmo lugar, então é hora de examinar o degrau…

É muito comum recorrermos voluntariamente a algum tipo de reforço quando, a nosso ver, houve o enfraquecimento do significado original do vocábulo. Para mim, é o que está acontecendo com este emprego do verbo haver para indicar o tempo decorrido, que parece caminhar na mesma direção que seguiram ambos os dois e bela caligrafia. Como já mencionei aqui, em outra ocasião, a significação dual de ambos ficou tão enfraquecida na consciência de muitos falantes que fez surgir, espontaneamente, a construção ambos os dois, que tem eco no Inglês both two, no Italiano ambe due e no Espanhol ambos los dos. Ninguém é obrigado a usar esse reforço, mas quem o fizer não deve, a meu ver, ser corrigido. (Disseram-me que Valter Hugo Mãe, uma das estrelas da literatura portuguesa atual, emprega ambos os três; deve ser por ironia, imagino, mas ainda não pude verificar in loco esta curiosa variante). O mesmo ocorreu com caligrafia, que significa, originalmente, “escrita bela” ― sentido que fica muito claro, por exemplo, numa frase como “infelizmente a escola atual deixou de valorizar a caligrafia”. No entanto, o progressivo “esquecimento” de que o radical grego cali significa “belo” levou-nos a aceitar como perfeitamente válidas expressões como belíssima caligrafia ou péssima caligrafia (a rigor, uma redundância a primeira, um absurdo a segunda).

Fui conferir o conto do burrinho e lá está, realmente: “Assim mais assim, com os erros todos e muita demora, até há uns dois anos atrás eu ainda era homem para pôr algum bilhete no papel…”. Quero frisar que isso saiu da pena de um dos escritores mais “gramatiqueiros” da literatura brasileira; nenhum outro, como ele, percorreu de trás para diante os velhos gramáticos caturras, garimpando arcaísmos e colecionando nugas para criar o estilo que o tornou inconfundível. Ora, pelo que se vê, o advérbio atrás aposto ao verbo haver não feriu seu ouvido treinadíssimo para a linguagem, e Rosa, numa decisão técnica e pessoal, julgou necessária sua presença para obter o efeito que procurava. Talvez fique mais tranqüila, prezada Mãe Aflita, se souber que se juntam a ele vários outros autores modernos que a senhora deve conhecer: Érico Veríssimo (“D. Maria Luísa lhe diz que a filha saiu há 2 horas atrás para ir visitá-la”); Lima Barreto (“Quem, há cinco anos atrás, acreditaria na utilização de aeroplanos para atacar forças inimigas?”); Rachel de Queiroz (“Há vinte anos atrás a gente no Rio só falava guria“); Nelson Rodrigues (“Há quinze anos atrás, os dois se casaram, no civil e religio­so”).

Suspeito que o hábito de usar atrás como apoio do verbo tenha suas raízes na língua falada: enquanto na escrita a presença do “H” informa o leitor de que ali está o verbo haver, na fala, que é instantânea e sem replay, o atrás é muitas vezes indispensável para que o ouvinte possa discernir, desde o início da frase, do que estamos falando. Na escrita, por sua vez, permanecem outras áreas de turbulência, principalmente quando usamos o imperfeito do indicativo, pois existe também um “há dois anos” que, por indicar tempo continuado, não comporta o reforço do atrás: compare “Há dois anos ele tinha o dinheiro; só faltava encontrar o terreno certo” com “Há dois anos [atrás] ele tinha o dinheiro, mas perdeu tudo”. Não sei se a resposta está aqui, mas sei que, esteja onde estiver, deve existir uma causa para um comportamento majoritário no universo dos falantes.

Depois do Acordo: Lingüística>Linguística        tranqüilo>tranquilo

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judiar

O verbo JUDIAR, hoje empregado sem qualquer conotação preconceituosa, esconde um antigo e surpreendente significado,  raramente registrado nos dicionários e, por isso mesmo, desconhecido da maioria dos falam ou escrevem sobre o uso deste vocábulo.

A primeira consulta vem de um gaúcho que mora no Rio de Janeiro, ex-aluno e admirador, como eu, do professor Celso Luft (o que, nesta coluna, já dá direito de puxar um banco e ir sentando). Ele é gentil, mas seu raciocínio é tortuoso: “Gostaria de saber se a expressão baixo calão, usada pelos dicionários para classificar os palavrões, não poderia ser substituída por baixo escalão. Acontece que no dicionário do prof. Luft consta que um dos significados de escalão é “nível”; logo, baixo escalão teria o sentido de “baixo nível”, exatamente o conceito que se aplica aos palavrões ― o senhor não concorda?”.

Sinto muito, prezado amigo, mas não posso concordar; calão nada tem a ver com escalão. Escalão provém do Latim scala, “escala, escada”, que produz também escalar; é por isso que falamos, numa estrutura hierarquizada, em cargos ou postos que vão do baixo ao alto escalão. Calão, por sua vez, vem de caló, como os ciganos chamavam a si próprios e ao seu próprio idioma. Pela desconfiança histórica que os povos europeus votavam (ou votam) aos ciganos, o termo passou a designar “língua vulgar, grosseira, de pessoas de baixa extração”. Como estás a ver, entre calão e escalão há uma mera semelhança casual, a mesma que existe entre adulto e adúltero ou banha e banho, vocábulos que nada têm a ver um com o outro.

A segunda consulta vem de São Paulo, capital, assinada por Gabriel, um jovem que precisa de algo mais substancioso que uma simples aula de Português. Escreve ele: “Prezado prof. Moreno, tenho apenas catorze anos mas acompanho sua coluna pela internet. Gosto muito do bom humor e da franqueza com que o senhor trata as pessoas e por isso me animei a lhe fazer uma pergunta. Ontem eu li num site que o holocausto da Alemanha nazista não passa de uma invenção (que eles chamam de “holoconto“) e que a palavra judiar vem das maldades que os judeus costumavam cometer contra os cristãos. Essa explicação está correta? É impressão minha ou o site é meio racista?”.

Meu caro Gabriel, não fosse pela tenra idade eu não desculparia tuas dúvidas. “Meio” racista? Para começar, ele faz, a meu ver, duas coisas imperdoáveis: primeiro, nega o horror absoluto que foi holocausto; segundo, e talvez pior ainda, procura fazer humor com algo que jamais será engraçado (convenhamos, “holoconto” é uma blague de insuperável mau gosto). Já que freqüentas a internet, procura e acharás dezenas de depoimentos e documentários que vão ter dar uma visão aproximada dessa inexplicável explosão da maldade humana. Como diz Giorgio Agamben no início de seu livro sobre Auschwitz (a tradução é minha), “No campo de concentração, uma das principais razões para sobreviver é a idéia de um dia poder testemunhar sobre o que aconteceu” ― exatamente para neutralizar esses fanáticos do lado negro da Força que vivem tentando, dos modos mais delirantes, apagar de nossa memória o que nunca deverá ser esquecido.

É também um equívoco a explicação que eles dão para judiar. É importante lembrar que as judiarias (ou judarias, como eram mais conhecidas) eram os bairros judeus do Portugal antigo, similares às mourarias, onde se concentravam os muçulmanos. Nas Ordenações Afonsinas, que datam mais ou menos do descobrimento do Brasil, lê-se, no título 86: “De como os judeus hão de viver em judarias apartadamente”. Nas cidades maiores de Portugal, onde esse confinamento era imposto com rigor, era proibido ao judeu, sob graves penas, “andar fora da judaria depois de tanger a Ave Maria”, como nos explica o dicionário de Bluteau.

O verbo judiar, ao que parece, era usado justamente para descrever as incursões que os cristãos faziam nessas judarias para infernizar a vida de seus moradores ― daí o valor que este termo tem até hoje de “maltratar, tratar com escárnio”. “Vamos judiar!”, portanto, seria um sinônimo para “Vamos mexer com os judeus”. Contudo, contaminada por uma longa tradição de preconceito racial e religioso, a cultura popular (e, portanto, nossa língua) preferiu ver o judeu como o sujeito deste verbo (aquele que judia), quando, na verdade, ele era apenas o seu objeto direto (a vítima, ou seja, aquele que é judiado). O único dicionário que registrou esse ponto de vista foi o Aurélio ― mas apenas até sua segunda edição, a que eu uso, apelidada por mim de Aurélio-vivo (acredite, prezado leitor, esta é a mais confiável de todas, pois as edições seguintes, feitas depois da morte do mestre, continuam descendo vertiginosamente ladeira abaixo). Ali, o verbete judiar abre com uma definição que inexplicavelmente foi retirada das edições posteriores: “tratar como antigamen­te se tratavam os judeus: escarnecer,maltratar”.

Depois do Acordo:    freqüentas > frequentas         idéia > ideia

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Tolerância

Os leitores que escrevem para esta coluna geralmente se dividem em dois tipos: os que têm dúvidas e precisam de ajuda (felizmente, o mais numeroso) e os que querem desabafar sua fúria contra aquilo que consideram errado no Português dos outros… Um leitor do Ceará, exemplo do primeiro tipo, vem perguntar se a camisa é listada ou listrada. Ou seja, ele quer saber qual das duas formas estaria de acordo com o consenso das pessoas cultas, que, pelo que se vê, ele respeita e ao qual procura se adequar. Alguns lingüistas oficiais vêm combatendo esse tipo de preocupação, tachando-a de elitista; tentam até eliminá-la do ensino da língua portuguesa, mas espero ardentemente que o impulso civilizatório acabe prevalecendo e essa nefasta influência seja neutralizada (ultimamente eles têm andado muito pimpões do alto de seus cargos — mas deixa estar, jacaré, que a lagoa vai secar…).

Respondo então que o mais comum é listrada, mas os bons dicionários (Houaiss, Aurélio, Luft e Aulete — e, humildemente, eu também) admitem listada com o mesmo sentido. Há alguns medalhões que só aceitam a primeira, alegando que o que camisa tem são listras; eles esquecem que a forma mais antiga sempre foi lista, para riscos ou raias desenhadas no pano ou no papel. Nosso leitor não quer parecer “errado” diante de seus pares (como também certamente não lhe agradaria ir a uma festa com o traje inadequado); a informação que lhe passei permite, agora, que ele opte, se quiser, por listada, que também é moeda boa e corrente.

Outros, no entanto, escrevem para esta coluna com o olho raiado de sangue, furiosos com alguma expressão que não toleram ver usada. Estes não querem perguntar, nem trocar ideias — seu objetivo é condenar, com aquela veemência de quem acredita pertencer ao partido da verdade. Não podem deixar o próximo em paz; apontam com dedo acusador tudo aquilo que, na sua visão intolerante, é um pecado inadmissível. A maior parte deles investe ou contra o emprego de palavras estrangeiras ou, por algum motivo que me escapa, contra possíveis pleonasmos. “Professor, é absurda esta moda de empregar palavras estrangeiras nas vitrines de luxo. Sale, off, delivery — que coisa mais ridícula!”. Como nada perguntam, só me resta tentar incutir-lhes um pouco de tolerância, atualmente uma das virtudes escassas neste país. Afinal, se é ridículo tal emprego, e os donos das lojas querem ser ridículos, nós nada temos a ver com isso, já que não somos os catões deste mundo. Eu gostaria de saber, aliás, quantos desses que condenam sale não admiram a Disneylândia ou levam os filhos para mastigar alegremente uma dessas temíveis iguarias  de fast-food… Epa! Não é que me escapou mais uma?

Os pleonasmos, coitados, esses são caçados como ratazanas. Há leitores tão primários quanto intolerantes: “Professor, não agüento mais ouvir, no rádio, falarem que o trânsito está congestionado devido ao excesso de veículos. Ora, se está congestionado, é claro que por causa dos veículos. Deviam multar quem diz tamanha asneira”. Lá vou eu, apóstolo da tolerância, mas já um pouquinho irritado com o tom da mensagem, explicar o que me parece óbvio: não há pleonasmo aqui, não. O trânsito pode estar congestionado devido ao excesso de semáforos, ou devido à realização de uma manifestação, ou devido ao mau estado da pista, ou devido a cem mil outros fatores que não o excesso de veículos — e assim espero, sem muita convicção, acalmar a fera.

Algumas mensagens, porém, ultrapassam o limite da prudência: “Percebi que o senhor costuma usar junto com em seus artigos, o que estranho. Afinal, junto com não é pleonasmo?”. Respiro fundo e explico que há muitos casos em que junto com não é um pleonasmo, não. Há centenas (não é força de expressão!) de exemplos nos bons escritores, do séc. 13 até o nosso. No início, era mais usada com o sentido de aproximação física: “Fomos até uma lagoa grande de água doce, que está junto com a praia” (carta de Caminha);  “Desenhava os olhos muito junto com as sobrancelhas” (Francisco Rodrigues Lobo). Depois, passou a ser empregada mesmo no sentido de companhia. Só para ficar com o incomparável Veira, que é do séc. 17: “Ali se verá o princípio do mundo junto com o fim, e o fim junto com o princípio”. Vale o mesmo para juntamente com: “Todas as coisas desde seu princípio nasceram juntamente com o tempo”; “Sêneca disse que é grande consolação acabar juntamente com o mundo”. Concluo: “Pode-se ver que nesses exemplos, meu amigo, o autor procurou, ao incluir junto ou juntamente, acrescentar uma idéia que não seria transmitida se tivesse optado por usar simplesmente o com“. Tolerância. Eu realmente tenho andado muito zen…

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A Reforma adiada: e agora?

Agora que a Reforma foi adiada, como é que  nós como ficamos? O que vai resultar desse adiamento? Olhe, prezado leitor, há muitos desfechos possíveis. O adiamento, a meu ver, elimina desde já a hipótese de ficar assim como está; haverá alterações de rumo.

Como vimos nas colunas anteriores, a presidente Dilma tinha toda a razão em sustar esta Reforma, adiando a sua definitiva entrada em vigor. Para que o futuro não repita esse erro (não é para isso que serve a História?), tratamos de apontar, pela ordem, os responsáveis, a fim de que o País saiba a quem culpar por este equívoco descomunal: a Comissão Elaboradora, que deu à luz a Reforma, mesmo consciente de que ela não faria o que prometia; o governo Lula, que tratou levianamente uma decisão desse porte em nome de um discutível ganho político; a comissão chapa-branca do MEC, que dissem amém ao projeto, apesar de estar ciente de seus defeitos; a Universidade, que se calou covardemente, traindo a confiança que nela deposita a sociedade que a sustenta; a ABL, que veio jogar gasolina na fogueira, ao lançar unilateralmente o seu Vocabulário Ortográfico e — o que é pior! — introduzir, por conta própria, algumas interpretações desastradas que fogem ao texto original.

Como em qualquer grande desastre, dói muito ficar sabendo — depois que ocorreu — que  houve várias oportunidades de evitá-lo. Bastaria que uma dessas instituições tivesse acenado com uma lanterna vermelha ou acionado os freios da locomotiva, e todos desceriam do comboio para avaliar o tamanho do abismo. No entanto, levados pelos mais diferentes interesses, todos acabaram se omitindo, num silêncio cúmplice que dava a todos nós, os passageiros, a impressão de que tudo corria muito bem sobre os trilhos.

A imprensa também teve lá a sua parcela de culpa, ao aderir cegamente, desde o primeiro minuto, ao novo sistema. Tomando-o como um fato consumado, passou a preocupar-se apenas em explicar o “como usar”; foram publicadas dezenas de matérias que enumeravam “o que muda”, mas nenhuma discutia a conveniência ou a exeqüibilidade da mudança. Foi como se a imprensa, ao ver tantas cabeças coroadas do mundo acadêmico endossarem o Acordo, tivesse considerado desnecessário examinar criticamente o projeto, não concedendo a ele nem um décimo da energia e do entusiasmo investigativo que os jornalistas costumam dedicar, por exemplo, ao corte de árvores em nossas ruas ou aos engarrafamentos de verão na BR-101.

Para piorar, outro fator veio contribuir para anestesiar a opinião pública: o belíssimo papel para presente em que a Reforma veio embrulhada. Afinal, quem não gostaria de unificar a grafia entre os países lusófonos e fortalecer o Português como língua internacional? Diante disso, falar contra a Reforma parecia, ipso facto, opor-se a essas coisas boas e desejáveis, em nome das quais a sociedade assinou ingenuamente esse contrato de compra em que o vendedor, de antemão, sabia que não poderia entregar o produto combinado. O inacreditável é que agora, mesmo depois de tudo o que se sabe, a ABL, em nota recente, continua a usar essas promessas vãs como argumento para lamentar o adiamento decretado pela presidente!

Mas e nós, como ficamos? O que vai resultar desse adiamento? Olhe, prezado leitor, há muitos desfechos possíveis. O adiamento, a meu ver, elimina desde já a hipótese de ficar assim como está; haverá alterações de rumo. Poderíamos (1) simplesmente anular tudo e voltar ao sistema anterior — isso já foi feito em 1945, quando o Brasil desconsiderou o acordo assinado com Portugal e preferiu ficar com o modelo de 1943; (2) revisar e corrigir o texto atual, aproveitando o que vale a pena e descartando os absurdos; (3) eliminar todos os acentos gráficos do idioma — medida que aproximaria extraordinariamente a grafia dos dois países; uma ou duas gerações sofreriam as dores do parto, mas as outras cresceriam risonhas e saudáveis…

Deve haver muitas outras saídas, mas, seja qual for a adotada, fomos empurrados para um brete do qual certamente não sairemos sem grandes prejuízos. O mal está feito; o problema agora é minimizar as conseqüências. Até 2016, vamos viver num limbo ortográfico, com os dois sistemas — o novo e o antigo — convivendo lado a lado, mas ambos inexoravelmente prejudicados: o novo, porque não nos convenceu; o antigo, porque adquiriu um inegável ar de provisório. Espero, ao menos, que todo esse sacrifício nos torne muito mais atentos e vigilantes a qualquer iniciativa “brilhante” que venha propor a troca do modelo ortográfico ou a adoção de novo modelo de tomada elétrica.

NOTA: aproveito para informar aos amigos que inicio, em março, novas turmas do meu curso de Português na Casa de Ideias, no Shopping Total. Mais detalhes no telefone [51]30187740 ou pelo e-mail contato@casadeideias.com.

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A Reforma adiada (3)

A Reforma foi um desastre que resultou de uma trágica sequência de erros e omissões; veja aqui a parcela de responsabilidade que coube à Academia Brasileira de Letras e às editoras brasileiras.

 

Diante do bem-vindo adiamento da entrada em vigor da Reforma Ortográfica, esta é a terceira coluna que dedico a nomear, para que todos guardem, os responsáveis por termos embarcado nesse inconcebível festival de leviandades que tanto prejuízo trouxe e que tanto mais ainda há de trazer ao sofrido povo brasileiro. Na galeria dos culpados, como vimos, o primeiro lugar cabe à Comissão que redigiu o Acordo, que deveria ter encerrado os trabalhos no momento em que se deu conta de que a unificação ortográfica, razão de ser da reforma, era impossível. Em segundo lugar vem o governo Lula, que, obcecado por interesses geopolíticos e diplomáticos discutíveis, jogou o país de ponta-cabeça numa aventura cujas conseqüências tinha a obrigação de prever, mas não previu. Em terceiro lugar vêm o MEC e a Universidade, que calaram por conivência, ou conveniência, deixando de esclarecer, como era o seu dever, o que precisava ser esclarecido. A esses devemos acrescentar, como veremos, a Academia Brasileira de Letras, as editoras e a própria imprensa brasileira.

A Academia — A ABL também não pode se orgulhar da participação que teve neste episódio, pois terminou agravando os danos que o Acordo, por si só, traria ao Brasil. Seus defensores alegam que esta entidade, cuja ação é limitada a nosso país, não tem competência legal para se opor a um tratado assinado por vários Estados soberanos — o que é verdade —, mas, pelo mesmo raciocínio, ela também não tem competência para mudar o que tinha sido decidido, coisa que ela fez sem remorso ou hesitação, para espanto e escândalo de nossos parceiros portugueses. Seu maior erro foi editar o seu próprio Vocabulário Ortográfico, fazendo de conta que não tinha lido, no texto do Acordo, a disposição expressa de que os países signatários deveriam trabalhar na elaboração de um “vocabulário ortográfico comum”. O pior é que, ao ser questionada por essa evidente traição ao espírito que presidiu a Reforma, a respeitável ABL saiu-se com uma resposta de “malandro eshhhhhperto”, algo como “ué, nós já fizemos o nosso; eles que façam lá o seu” — o que soou, aos ouvidos de nossos parceiros, como uma sentença de morte à tão decantada “unificação”. Pronto: com essa atitude de “Mateus, primeiro os meus”, lá se ia água abaixo a concórdia aparente que tinha unido, até ali, os membros da comunidade lusófona, que agora ameaçam seriamente deitar às urtigas tudo o que foi combinado.

As editoras — Desde o início, os editores brasileiros acolheram a ideia de uma nova ortografia como um maná caído do céu, pois julgavam que ela lhes traria uma grande expansão do mercado livreiro (tanto interna quanto externamente), além de facilitar o preparo e o aproveitamento de seus originais. Tinham toda a razão quanto ao mercado interno, pois imediatamente foi necessário fazer vultosas tiragens para suprir as bibliotecas escolares de todo o país, que tiveram de adaptar seu acervo ao novo sistema ortográfico, disputando as impressionantes verbas do Programa Nacional do Livro Didático, talvez o maior do mundo, no seu gênero. Quem apostou nesta ficha se deu bem.

A perspectiva de ampliar o mercado externo, contudo, murchou como balão furado assim que ficou claro que a Reforma tinha muito pouco de unificadora, sepultando para sempre a ideia fantástica (e ingênua), alimentada no início, de que a ortografia unificada viria permitir que um original, com o mesmo trabalho de editoração, fosse consumível em qualquer um dos países signatários do Acordo. Na medida em que estaria livre de marcas ortográficas locais, o mesmo texto poderia circular por todo o mundo lusófono com a mesma facilidade que uma chave mestra abre todas as portas do hotel; um livro composto e impresso no Brasil poderia, desta forma, ser exportado sem a necessidade de ser reeditado com as adaptações necessárias para adequá-lo ao mercado lusitano, e vice-versa.

O irônico é que essa avaliação errônea foi compartilhada  pelos editores daqui e de além-mar, mas com sentimentos opostos: os nossos a se felicitarem pela perspectiva de abocanhar uma nova fatia do mercado (os 40 milhões de leitores que seguem a norma portuguesa); os deles (falo de Portugal), a lamentarem o golpe dado pelo Brasil, que, com seu parque industrial mais moderno e pujante, passaria a ameaçar diretamente a indústria lusitana do livro e sua participação no mercado africano. Ora, como se viu, nada disso aconteceu, pelo simples fato da Reforma — volto a reiterar — não ter unificado coisíssima nenhuma. Parece que nossas editoras não consultaram especialistas (ou não quiseram acreditar nos especialistas que consultaram, o que dá na mesma); se o tivessem feito, teriam se dado conta, desde o início, de que o Acordo era um tigre de papel e de que a Reforma precisava ser implantada com mais estudo e cautela.

(continua)

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