Categorias
Destaque Formação de palavras Origem das palavras

Homofóbico

Diferentemente de HOMÔNIMO, o termo HOMOFÓBICO nasce do encontro de dois processos diferentes de formação de palavras.

“Professor, até hoje não consigo compreender o termo homofóbico. Não falo do sentido, que me parece bem claro, mas das partes que o compõem. Este homo quer dizer “semelhante”, como em homógrafo, não é? Pelo que eu entendo, homossexual é quem procura parceiros de sexo semelhante ao seu; pela mesma razão, homofóbico não deveria significar quem tem aversão a seu semelhante? Onde foi que eu me enganei?” — pergunta Alcides M., de Santos, São Paulo.

Caro Alcides, não foste o primeiro, nem serás o último a levantar este problema. Aqui mesmo, nesta coluna, tive a oportunidade de tratar do assunto, mas vou explicar de novo, pois já lá vai uma meia dúzia de anos. Vamos começar pela parte mais fácil, que é a fobia. Esta palavra fobia tem origem na mitologia grega: Fobos, (“medo”), era filho de Afrodite e Ares (em Roma, Vênus e Marte, respectivamente), fruto da mais célebre e invejada relação extraconjugal da literatura clássica, narrada por Homero no canto VIII da Odisseia. Era gêmeo de Deimos (“pavor”), e não foi por acaso que o astrônomo que descobriu os dois satélites do planeta Marte batizou-os com o nome dos irmãos.

[convertkit]

Tecnicamente, o termo fobia designa um medo incontrolável, irracional, muitas vezes exagerado, que nos domina em determinadas situações e terminam atrapalhando nossa vida. Quem sofre de claustrofobia, como eu, por exemplo, não consegue controlar seu pânico ao entrar em lugares fechados ou exíguos — e já sei que vou me ver em betas quando visitar as pirâmides do Egito neste outubro próximo. Originalmente, fobia só se juntava a outros elementos gregos, como ela — xenofobia (de xenos, “estrangeiro”); acrofobia (de ákros, “altura”); hidrofobia (de hydro, “água” — nome antigo da raiva, porque um dos sintomas de quem foi infectado pelo vírus é a dificuldade de ingerir qualquer líquido); fotofobia (de foto, “luz”). Com o tempo, porém — como era natural — fobia passou a fazer parte dos utensílios básicos de nossa cozinha linguística, capaz de ser acrescentado a vocábulos quotidianos do Português, como em gordofobia, veganofobia, islamofobia, velhofobia (uma versão popular para a gerontofobia, “antipatia por idosos”) e muitos outros mais que se usam ou usarão nesta época de infinitas intolerâncias.

Agora, vamos ao homo. Aqui vais ver em ação um novo processo de formação de palavras, razoavelmente recente (não chega a ter cem anos, o que, em linguagem, é muito pouco): no momento em que palavras complexas, de origem erudita, ingressam no vocabulário usual do brasileiro, há uma forte tendência a reduzi-las a um padrão prosódico mais confortável. Foi assim que fotografia virou foto e motocicleta virou moto, por exemplo. É um progresso, sem dúvida — mas nem todo o mundo se deu conta de que, por trás desta simples operação de encurtamento, a língua portuguesa estava parindo um novo vocabulozinho que iria fazer concorrência com seu pai. Em fotossíntese, fotocélula, fotofobia e fotografia, podemos ver claramente que este elemento foto tem, como no Grego, o significado de “luz”,  Ora, no momento em que reduzimos fotografia para foto, criamos um vocábulo com a mesma forma mas com sentido completamente diferente: em fotomontagem ou fotojornalismo, foto significa “fotografia”, e não “luz”.  Em autobiografia, autocomiseração e automóvel, o auto original significa “a si mesmo”; no momento em que encurtamos automóvel para auto, com o sentido de carro, passamos a ter uma novidade como automecânica, que é uma mecânica de carros, e não uma mecânica de si mesma. Temos, portanto, um autoA e um autoB — e um bom dicionário deveria abrir uma entrada diferente para cada um.

Pois foi exatamente isso o que aconteceu com homo, que recebemos do Grego com o sentido de “igual, semelhante” (o antônimo de hétero), como se vê em palavras eruditas como homônimo (“o mesmo nome”) e homossexual (“o mesmo sexo”). Este último, ao sair do restrito mundo acadêmico e ingressar na fala de todo o mundo, sofreu o natural encurtamento para homo, figurando já com o novo sentido em compostos como homoafetivo, homoerótico e homofobia, onde não mais significa “semelhante”. Como um Lego infinito, nosso idioma, sem parar, combina e recombina suas peças para acompanhar nossa realidade.

Categorias
Destaque Etimologia e curiosidades Formação de palavras Origem das palavras

Caminhão

Por acaso um vocábulo tecnicamente “malformado” como CAMINHÃO não tem o direito de viver? É nos desvios da norma que a língua está realmente inovando.

Confesso que fiquei emocionado quando vi, entre os e-mails de sempre, uma mensagem de antiga colega da quinta série, quando eu me preparava para o Exame de Admissão. Muito gentil, ela faz questão de informar que está morando em São Paulo mas acompanha o meu trabalho há muitos anos, até porque — eu não sabia — cursou a faculdade de Jornalismo e sempre trabalhou como revisora de texto. “Já usei várias de tuas colunas para amansar clientes teimosos — sabes como é, aqueles que embirram contra as correções que proponho. Também pesquiso bastante no teu site, mas desta vez não achei o que eu preciso: o dono de uma pequena rede de clubes noturnos leu em algum lugar que é errado chamar de consumação aquela quantia mínima que se cobra na entrada, pois o certo seria consumição — aquilo que será consumido. Não posso negar que haja certa lógica no que ele afirma, mas minha intuição e alguns bons dicionários dizem que sempre foi assim e que seria imprudência mexer nisso. Só não tenho nenhum argumento técnico para contrariá-lo; como dizia nosso hino, “pela glória do Instituto e a grandeza do Brasil”, podes ajudar esta velha colega?”.

Posso, sim — e com todo o prazer. Estamos diante de um dos incontáveis exemplos da legítima criatividade linguística — a verdadeira, a genuína —, diferente da criatividade estrutural, intrínseca a qualquer idioma. Como bem sabes, há processos de formação que estão registrados no DNA da língua portuguesa, segundo os quais as mesmas causas sempre vão produzir os mesmos efeitos: a partir de verbos transitivos diretos, por exemplo, podemos gerar adjetivos com o sufixo –vel: lavar, lavável; crer, crível; comer, comível. Quando aquele ministro do Collor se saiu com um imexível, ele não estava criando o termo, como foi dito na época, mas apenas usando um mecanismo regular que o Português põe à nossa disposição.

Do mesmo modo, -ção é um dos sufixos usados para derivar um substantivo abstrato a partir de um verbo: agitar, agitação; atribuir, atribuição; definir, definição. Por esse modelo, consumirconsumição, mesmo — e consumação deriva de consumar (lembro a “consumação do casamento”, por exemplo). No entanto, por influência do Fr. consommation, os brasileiros consagraram o derivado de consumar para exprimir o ato de consumir. Para alguns autores, esta irregularidade basta para condenar o recém-nascido; para outros (que eu prefiro), é nestes desvios da norma que a língua está realmente inovando. E por acaso esses vocábulos tecnicamente “malformados”, esses “acidentes genéticos” não têm o direito de viver?  Quem vai decidir é o plebiscito silencioso do uso: cada vez que alguém o emprega, está votando por sua existência, e hoje, no Google, “consumação mínima” está batendo cinco milhões e meio de ocorrências. Como meu mestre Luft dizia, entre amigos, “palavra nova é como macarrão; atirou na parede e colou? Então essa não morre mais”.

Queres um outro exemplo, dolorosamente atual? Caminhão veio do Fr. camion, termo usado desde o séc. 14 para designar uma carroça reforçada para o transporte de fardos pesados,  pedras de construção ou barricas de vinho (meu Robert Historique é taxativo: não há nenhuma hipótese satisfatória para sua origem, mas isso é lá problema deles). O vocábulo francês entrou em nosso idioma no séc. 20, quando se inventou o automóvel de carga, e camion logo se tornou camião, forma ainda hoje preferida em Portugal.

No entanto — e aqui entram aqueles fatores não previstos pelas regras de formação — por influência de caminho, criou-se a variante caminhão, que sempre foi a preferida dos brasileiros. A depender da forma escolhida para designar o veículo, assim serão seus derivados: camionista, camioneiro ou caminhonista, caminhoneiro. A escolha, assim como o voto, é livre e personalíssima.

Categorias
Através dos dicionários Destaque Formação de palavras Origem das palavras

Desemalando dinheiro

“Professor, um amigo meu usou o verbo bocaberteou (de boca-aberta) para dizer que o irmão tinha sido descuidado com o celular, que terminou sendo roubado no ônibus. Isso é um neologismo, não é? A gente pode inventar palavras para nossa língua? Essa até que eu achei legal” — pergunta Celso B., estudante de Rio Grande. Pois eu também, Celso; essas brincadeiras feitas com nossa língua são papa-fina para mim, um adicto incorrigível do prazer que as palavras produzem — mas tenho de informar que essas preciosas criações dificilmente vão fazer parte ativa de nosso léxico. São formações momentâneas, expressivas, adequadas a uma situação muito específica, mas que chamam demasiada atenção por sua novidade e estranheza e não atingem a frequência de uso das palavras comuns. Mário de Andrade, por exemplo, brinca maliciosamente com isso: “a musa sentiu-se farta, bifarta, centifarta, multifarta“; “estrambólicas, sonambúlicas e não-me-amólicas“; “o poeta fogo-de-artificiou o Centenário Independentriz e Brasilial“; “entusiasmo pela “luso-poetice guerrajunqueiriz e juliodantal (de Guerra Junqueiro e Júlio Dantas) − tudo isso para falar da obra de um poeta que devemos, pois, “vaiar, fiaufiauizar, batatizar, ovopodrizar“… Servem para o momento, mas não vingam. Outro Mário, o nosso  Quintana, não hesitou em escrever “Um dia, os padres se desbatinaram” − um exemplo mais sutil, de maior finura, mas que também morreu ali mesmo.

E já que estamos falando de neologismo, aproveito para mandar um recado, por via indireta, para aqueles que ainda empregam esse termo: de uma vez por todas, deixem de lado esse vocábulo, tão inútil, inexato e anticientífico. Já lembrei diversas vezes nesta coluna que este conceito sempre se afoga nas águas profundas do rio do tempo. Como o novo de hoje sempre será o velho de amanhã, o rótulo de “novo” que dou a um vocábulo não terá valor algum para as próximas gerações, a não ser que haja uma contextualização histórica: na primeira metade do séc. 19, quando Dom Pedrinho II começava seu longo reinado no Brasil, o termo cientista acabava de ser criado na Inglaterra; quando chegamos à República em 1889, o vocábulo apendicite era tido como raro e novo; em 1905, The Spectator ainda pedia desculpas aos leitores pelo uso da palavra intelectual, alegando ser um neologismo consciente.

Para demonstrar o quão precária pode ser a nossa avaliação do que é antigo e do que é recente no idioma, proponho (velho vezo de professor!) um pequeno teste para o amigo. Em cada frase há uma palavra em destaque; assinale as que você colocaria no balaio dos neologismos: (1) “A PF pediu a ajuda de um banco para desemalar e contar os milhões encontrados no imóvel de Geddel”; (2) “Era muito desengraçado quando menino, mas tornou-se homem atraente”; (3) “Em vez de ajudar, a opinião dos pais pode desajudar a noiva”; (4) “O camponês desnarigado por um golpe de facão sofreu cirurgia reparativa”; (5) “O laboratório descontinuou a produção do medicamento sem nenhuma justificativa”.

E aí, leitor, quer saber quantas acertou? É muito simples: tantas marcou, tantos erros cometeu. São todas elas palavras velhas, mas bem velhinhas mesmo, que já constavam no empoeirado Bluteau, nosso primeiro grande dicionário, publicado em 1728 — um pouco antes da fundação da cidade de Rio Grande e do início ocupação portuguesa do território gaúcho. Como dá para ver, as aparências enganam.

[a ilustração é do  grande Edu  Oliveira, da ZH]

Categorias
Destaque Etimologia e curiosidades Origem das palavras

coco e cocô

A consulta veio do outro lado do Atlântico, mais precisamente de Lisboa. Escreve de lá o leitor Nuno T.: “Professor, fiquei muito curioso quando li, num site do Reino Unido, que a palavra deles coconut (“noz de coco”) tinha vindo do Português coco. Gostaria de saber se é verdade, pois isso seria para mim motivo de orgulho. Afinal, a gente só vive a importar… E por falar no dito, tenho outra dúvida que o senhor pode não responder, se não achar conveniente: e o cocó das criancinhas (ou cocô, como dizem em vosso país), por que é tão parecido? Haverá alguma relação com o fruto do coqueiro?”.

Prezado Nuno, a resposta é sim para a primeira e não para a segunda. No caso do coco, a origem é mesmo lusitana e, a meu ver, bastante supreendente. Esta palavra designava, inicialmente, uma entidade imaginária usada para assustar as crianças — algo da estirpe do nosso bicho-papão (do verbo papar, ogro que tinha o desagradável hábito de papar os petizes que não se comportassem). Vários estudos folclóricos da Península Ibérica descrevem o antiquíssimo costume de abrir dois olhos e uma boca numa abóbora ou numa cabaça, muitas vezes iluminando-as por dentro (o que não é, como podemos ver, uma invenção dessa praga do Halloween).

Quando os portugueses se lançaram na aventura dos descobrimentos, tomaram contato com o coqueiro nas praias do Oceano Índico (coqueiro esse que mais tarde foi transplantado para cá e se aclimatou tão bem que passou a ser um dos símbolos nacionais, como diz a letra da ufanista Aquarela do Brasil). Vendo no fruto a semelhança de uma cabeça com olhos vazados, tal qual a cara da assombração, acharam natural designá-lo pelo mesmo nome. João de Barros, em suas Décadas na Ásia, de 1563, é um dos autores que deixam bem clara essa origem, ao dizer que o fruto do coqueiro parece ter um “nariz posto entre dois olhos redondos… por razão da qual os nossos lhe chamaram coco, nome imposto pelas mulheres a qualquer coisa com que querem fazer medo às crianças”.

Já o vocábulo cocô não tem assim ilustres antecedentes literários, pois pertence àquele léxico especializadíssimo que se usa na interação do adulto com seus pequerruchos. O nome das pessoas e das atividades cotidianas mais importantes é modificado, reduzido para uma forma mais pronunciável, mais adequada ao ainda inexperiente aparelho da fala da criança, que só domina as sílabas de estrutura mais simples —  no caso da nossa língua, uma sequência de consoante seguida de vogal, que geralmente aparece  reduplicada. É por isso que se criam, no coração das famílias, tantos apelidos como Zezé, Dudu, Lili, Juju, Dadá, etc. —  o mesmo processo que está presente nas primeiras palavras que nossos brasileirinhos pronunciam (e que todos na casa passam a adotar, no seu diálogo com os pequeninos): cocô, pipi, popô, xixi, totó, babá, bebê, papá, mimi, por exemplo, que podem ser diferentes em Portugal. Aliás, o cocó que os portuguesinhos usam no lugar de cocô é, para os nossos pequenos, a designação da galinha e assemelhados, numa evidente formação onomatopaica. França Júnior, autor de comédias do séc. 19, desdobra o vocábulo e faz ouvir em cena o que seria uma frase complexa na língua dos galináceos: “Có, có, cocó, coró có, có có coró”. Não sei o que quer dizer, mas tem estilo.

Categorias
Destaque Etimologia e curiosidades Origem das palavras

propina

Embora pareça ser uma especialidade brasileira, PROPINA, como qualquer outro vocábulo tradicional de nosso idioma, sofreu muitas mudanças e acréscimos no seu significado, aqui e além-mar.

 

Um fiel amigo acaba de voltar da Europa, de onde quase me trouxe um presente. Fiquei muito agradecido pelo quase, não por acreditar naquela conversa fiada de que é a intenção que vale, mas porque ele sacrificou as duas preciosas horas entre um voo e outro, em Lisboa, na tentativa de comprar, para mim, uma garrafa de um bom tinto de Colares. O trânsito estava interrompido por uma estrondosa manifestação de estudantes que protestavam contra o recente aumento no valor das propinas. Para aumentar ainda mais o absurdo da cena, o motorista do táxi virou-se para trás e, como a se desculpar pela bulha que os jovens faziam, declarou: “Eles não deixam de ter sua razãozinha. Vá lá que se pague, mas dentro do bom senso! Essa nova tabela de propinas é um verdadeiro abuso! Um verdadeiro abuso!”. Como o engarrafamento não cedia, meu amigo voltou para o aeroporto sem o meu presente, mas convencido de que a corrupção que grassa em nossa Pindorama é uma herança direta de Portugal, país que chega à perfeição de ter propinas tabeladas! Por sorte, fui eu a primeira pessoa a quem ele expôs essa teoria  genética da desonestidade brasileira  — primeira e única, porque fiz questão de desmanchar imediatamente esse perigoso mal-entendido.

Ocorre que propina, como qualquer outro vocábulo tradicional de nosso idioma, sofreu muitas mudanças e acréscimos no seu significado. Na Grécia, propinein (de pro, “antes”, e pinein, “beber”)  era uma espécie de brinde muito comum nos banquetes, destinado a reforçar os laços entre amigos ou parentes. A cerimônia se dividia três ações sucessivas, sempre na mesma ordem. Por exemplo, numa festa de casamento, o sogro enchia de vinho uma taça especial, geralmente valiosa, bebendo ele próprio alguns goles de seu conteúdo; depois, levantava um brinde à saúde do genro e dava-lhe a taça de presente. O jovem, então, bebia do mesmo vinho que o sogro tinha bebido, a fim de que se estabelecesse entre os dois um vínculo incorruptível de parentesco.

No passo seguinte, em Roma, propinare já não se referia a esse ritual formalizado, mas simplesmente significava “convidar alguém para beber” e, mais tarde, “dar de beber a alguém, ministrar, servir”. É nesse sentido que o verbo aparece na fórmula de exorcismo do tempo do Papa Leão XIII, quando, dirigindo-se ao capeta, o exorcista ordena: “Cesse decipere humanas creaturas, eisque aeterna perditionis venenum propinare” — o que vem dar, em vernáculo, algo como “Deixa de enganar as criaturas humanas e ministrar-lhes o veneno da perdição eterna”. Aliás, é nesse mesmo sentido que nossos escritores do séc. XIX usaram o verbo propinar: “Há envenenamentos propinados por escravos” (Macedo); “Guardai-vos das Circes: prometem prazeres e propinam veneno” (Marquês de Maricá).

No séc. XVIII, o vocábulo propina passou a ser usado para designar  a bebida que se pagava a alguém para premiá-lo por um bom serviço prestado, prática que foi simplificada com a simples oferta da quantia correspondente. Nos países de língua espanhola, esse continua sendo o sentido preponderante do vocábulo; dá-se propina ao garçom, ao porteiro do hotel ou ao carregador de malas para recompensar sua eficiência ou sua boa vontade. No Brasil atual, no entanto, criou-se uma curiosa distinção entre o antes e o depois: essa gratificação  por um serviço qualquer  é chamada de gorjeta, enquanto propina passou a designar o dinheiro que o brasileiro dá antecipadamente a alguma autoridade corrupta para garantir a obtenção daquilo que ele deseja; como invariavelmente se trata de atos ilícitos, o funcionário corrompido cobra sua recompensa  antes,  para evitar possíveis calotes do corruptor. A classe dos que recebem propina vai ficando tão numerosa que aqui e ali já há indícios de um progressivo aperfeiçoamento da instituição, tais como a emissão de recibo, o registro das propinas auferidas na declaração do Imposto de Renda e o pagamento parcelado por meio de carnê.

Em Portugal, no entanto, propina adquiriu um significado totalmente diferente daquele que tem no Grego, no Latim, no Espanhol ou no PB (Português do Brasil); na terra de Eça e de Camilo Castelo Branco, o termo designa simplesmente as anuidades cobradas pelas faculdades e pelos colégios, sejam privados, sejam  públicos (que também são pagos). Várias instituições de ensino divulgam, na internet, o seu “regulamento de propinas“; o estudante bolseiro (que nós chamamos de “bolsista”) está isento de pagar a propina; o Conselho de Reitores fixa o valor da propina — e assim por diante. Os estudantes que meu amigo encontrou nas ruas de Lisboa, portanto, protestavam  contra o aumento das anuidades.      Era só isso.

Categorias
Destaque Etimologia e curiosidades Formação de palavras Origem das palavras

propinocracia

 

 

A algumas semanas da eleição, poucos foram os brasileiros que ficaram indiferentes à denúncia oferecida contra o ex-presidente Lula pelos procuradores da operação Lava a Jato — uns a criticar, outros tantos a aplaudir. Entre estes últimos certamente se inclui nosso leitor Alberico Z., de Caxias do Sul, o qual, depois de elogiar muito esta coluna (“Recorto sempre e mostro para os amigos”), lamenta que os jovens integrantes da força-tarefa do Ministério Público tenham maculado sua apresentação ao empregar o termo propinocracia, que não está nos dicionários. “Professor, entendo o que eles querem dizer com isso, mas acho que um neologismo deste quilate destoa como um resto de feijão no dente. O senhor não concorda?”.

Não, caríssimo leitor, não concordo — e aconselho que você puxe uma cadeira e aproveite o divertido desfile dessas palavras que nascem da recombinação de elementos que todos conhecem. Como sabem que o termômetro e o barômetro são instrumentos de medir, os falantes criaram, por analogia, palavras como olhômetro, impostômetro, sonegômetro e bafômetro, que são muito úteis e de significado muito claro. Os hotéis equiparam cada quarto com um frigobar? Pois um folheto anuncia um passeio ecológico pela Serra do Mar, em que os participantes serão acompanhados por um guia e um paciente frigoburro. Não é uma beleza?

Além disso, a palavra propinocracia já não é tão nova assim. Em 2011, por exemplo, Cláudio Noronha publicou em seu blogue um texto facecioso em que deita e rola, descrevendo uma suposta república propineira, que segue o regime da propinocracia. O poder é dividido entre propinocratas novos e velhos — os neopropinocratas e os propinossauros, todos eles imbuídos do mais legítimo espírito propinocrático.  O problema, diz o autor, é que “recente pesquisa, feita pelo Instituto de Propinologia
e disponibilizada na propinet, revelou uma tendência perigosa da sociedade se polarizar, opondo propinistas contra antipropinistas” — e por aí vai a valsa. 

Como podemos ver, não precisamos consultar um dicionário para entender essas palavras, pois nosso léxico é como um imenso Lego: as peças estão na caixa, à disposição do falante, que pode usá-las para produzir centenas de milhares de combinações que, é quase certo, não haverão de estar dicionarizadas. O blogueiro Cláudio Noronha ou os procuradores, portanto, não inventaram propinocracia ou o também recente propinoduto; elas já existiam virtualmente no nosso estoque de palavras possíveis, à espera de que a realidade produzisse as condições necessárias para que alguém as empregasse. É isso que explica, aliás, a cara de paisagem que faço quando me perguntam quantas palavras tem nosso idioma…

Ah, outra coisa: o amigo disse que costuma recortar e guardar o que escrevo — no que muito me honra; talvez lhe interesse saber, por isso mesmo, que a Coleção Pocket da editora L&PM inclui três volumes de O Prazer das Palavras, reunindo uma
boa parte das colunas aqui publicadas.

(Ilustração do incomparável Edu – Jornal ZH) 

Categorias
Através dos dicionários Destaque Etimologia e curiosidades Origem das palavras

Férias no dicionário

Edu sáb ago 2015

Veja como um bom dicionário pode transportar seus filhos para um mundo de aventuras e descobertas.

Para aqueles que, como eu, ainda têm criança em casa, a segunda metade de julho é a época ideal para chegar mais perto dos petizes e compartilhar com eles alguns breves mas preciosos momentos culturais (suspeito, às vezes, que o prazer seja bem mais nosso do que deles, mas não faz mal: todos vão sair ganhando). Se não tiver um bom livro ou um bom filme à mão, aconselho a recorrer ao dicionário, que tantas aventuras pode oferecer. Quer ver como é fácil, leitor? Pois há dias se ouve aqui em casa (muito mais vezes, confesso, do que eu gostaria) a música Pomar, do incomparável grupo Palavra Cantada ― uma composição infantil bem ritmada em que desfilam todas as frutas conhecidas e as árvores que as produzem (“mamão, mamoeiro; banana, bananeira; pera, pereira…”). O que dá para tirar daí? Muito mais do que se pensa, como vamos ver.

Primeiro, tenho certeza de que nosso pequeno ouvinte não ficará indiferente ao ser informado de que, em nossa língua, a árvore sempre tem o mesmo gênero que sua fruta: abacate, abacateiro, mas laranja, laranjeira, e que este princípio vale para todas elas ― com a enigmática exceção do figo, que nasce na figueira. Como esse é um caso único entre centenas, temos aí um bom pretexto para voltar ao passado, no período em que a nossa e as demais línguas românicas se formavam ― quando descobriremos que, no Catalão, a fruta também é feminina (una figa). Não fica difícil, assim, defender a ideia de que o Português preferiu dar o gênero masculino à fruta para distinguir da figa, aquela mãozinha sem-vergonha com o polegar enfiado entre o dedo médio e o indicador, gesto usado tanto para afastar o mau-olhado quanto (tirem as crianças da sala!) para sugerir aquilo que Luzia foi fazer na horta.

Em seguida, que tal uma história de sangue e horror, daquelas que sempre agradaram aos pequenos? Que tal contar-lhes a lenda do Papa-Figo, o velho sinistro que raptava meninos para extrair-lhes o fígado, usado na tentativa de cura de um ricaço leproso? E explicar que o tal velho papão devia se chamar, na verdade, Papa-Fígado, mas que esse Papa-Figo popular não é tão errado como parece, porque figo e fígado nasceram juntos, na mesma hora e na mesma maternidade? Basta lembrar que era costume entre os romanos engordar os gansos com figos em passa, a fim de que sua carne ficasse com sabor mais refinado, e que a parte mais requintada era o jecur ficatum  (jecur, “fígado” + ficatum “com sabor de figo”). Com o tempo, o primeiro elemento se apagou e só restou ficatum ― exatamente como aconteceu com uma (linha) diagonal, um (dente) canino, uma (carta) circular, entre tantos outros.

Como um guia na floresta, você continua mostrando os caminhos que ligam pontos que pareciam tão distantes: o sobrenome Figueiredo que aparece na lista de chamada do colégio vem de um bosque de figueiras, assim como de árvore saiu arvoredo e de vinha saiu vinhedo. E mais ainda teria para contar, se não terminassem antes as férias, tão curtas, ou  a paciência dos filhos.

[A ilustração tem a marca registrada do genial Edu Oliveira]

Convido os amigos leitores a me acompanhar no grupo Sua Língua no Facebook, onde conversamos sobre tudo o que diz respeito a nosso idioma.

PORTUGUÊS AO VIVO – Acaba de entrar no ar o meu curso de Língua Portuguesa – aulas, exercícios e testes, todos gravados por este que vos escreve.

Categorias
Destaque Etimologia e curiosidades Origem das palavras

Azeite de oliva

Por que dizemos azeite de OLIVA, se ele vem da azeitona? E existe alguma diferença entre ÓLEO e AZEITE?

 

Como os médicos e os policiais, os professores de Português não podem deixar de prestar auxílio, quando solicitado, Desta vez foi num hotelzinho na serra, diante de um possante fogão a lenha. A proprietária, muito hospitaleira, tinha cozinhado para nós sua última reserva de pinhões desta safra e assistia, interessada, ao ritual da família — o escravo aqui a descascá-los no dente, e minha filha pequena a comê-los alegremente, sem remorso algum, com sal e azeite de oliva. Declarando-se leitora desta coluna — “Leio sempre o que o senhor escreve; fui professora primária e nunca perdi o gosto pelo Português” —, ela puxou da algibeira duas “dúvidas cruéis”: (1) por que a gente diz azeite de oliva e não de azeitona, e (2) por que usamos óleo, e não azeite, quando vem da soja. Prometi pesquisar (raramente me arrisco a responder assim, de bate-pronto, a perguntas sobre etimologia; as chances de fazer uma burrada, acredite, são imensas).

Pois vamos à primeira dúvida: do Latim oliva, introduzido pela dominação romana na Península Ibérica, veio o clássico oliva, usado inicialmente em Portugal e na Espanha. No entanto, quando os árabes entraram na região, no séc. VIII,  com eles entrou também o nome azeitona (az-zaituna), que passou a predominar sobre oliva. Este, apesar de substituído, ainda pode ser visto nas expressões “azeite de oliva” e “verde-oliva” (cor), além de participar, como radical, de oliveira, o que criou este exemplo raríssimo de árvore cujo nome não deriva, como as demais, do fruto que produz (figo:figueirapitanga:pitangueira; e assim por diante). Nos países que não tiveram a presença árabe, porém, o nome da azeitona até hoje é derivado da forma latina: olive (Ing.), olive (Fr.), oliva (It.).

A segunda pergunta também encontra sua resposta nesta dicotomia entre o Árabe e o Latim. Nosso óleo vem do vocábulo latino oleum (“azeite de oliva”), que entrou nos idiomas mais importantes do Ocidente — oil (Ing.), olio (It.), huile (Fr.), Öl (Al.) — para designar genericamente qualquer substância gordurosa em estado líquido. Contudo, por causa da influência árabe no mundo ibérico (muita gente esquece que os árabes conviveram com nossos antepassados por mais de sete séculos, do séc. VIII  ao séc. XV), o Português distingue o azeite (de az-zait, “azeite de oliva”) do óleo (daí o óleo diesel, o óleo de soja, de arroz, de rícino, de amendoim, de girassol, de milho, de canola, etc. — sem esquecer o terror das crianças da minha geração, o repugnante óleo de fígado de bacalhau). Esta dicotomia não existe nos outros idiomas, que denominam o nosso azeite de olive oil (Ing.), huile d’olive (Fr.), olio di oliva (It.) e Olivenöl (Al.).

Convido o amigo leitor a me acompanhar no grupo Sua Língua no Facebook, onde conversamos sobre tudo o que diz respeito a nosso idioma.

 

PORTUGUÊS AO VIVO – Acaba de entrar no ar o meu curso de Língua Portuguesa – aulas, exercícios e testes, tudo gravado por este que vos escreve

Categorias
Como se escreve Destaque Grafia de estrangeirismos Origem das palavras

espresso?

Os vocábulos importados são como estrangeiros que vêm morar no Brasil: uns já estão naturalizados, outros aguardam o deferimento do pedido e outros, finalmente, vão viver aqui sem mudar sua cidadania de origem.

Num ponto qualquer do litoral de Santa Catarina, pelas asas da internet, chega-me o pedido de ajuda de uma pessoa que me é muito cara: Elisa Prenna, dona do Chicafundó (não por acaso, o meu restaurante preferido), gostaria que eu respondesse, em nome dela, a um de seus frequentadores que reclamou do restaurante — não da comida, que é impecável, mas do Português empregado no menu que ela envia semanalmente por email. Inconformado com o café espresso que o Chica (assim chamado pelos mais íntimos) oferece ao fim de cada refeição, o amigo Cafezinho (à falta de um nome, vou chamá-lo assim), num estilo de dar inveja a qualquer espartano, escreveu: “Erro no fôlder. Expresso é com x. Favor verificar antes de enviar material divulgativo”. Elisa, que nunca cometeu a grosseria de ignorar uma manifestação de cliente seu, fez uso então de um velho contrato tácito que existe entre nós dois: ela me ensina a forma correta de queimar o açúcar do crème brûlée e eu, em troca, oriento seus passos nos pontos mais obscuros do vernáculo.

O problema, meu caro Cafezinho, é que muitos termos culinários estrangeiros ainda não foram (se é que um dia o serão) aportuguesados, como já aconteceu, por exemplo, com os termos usados no futebol. Fique tranquilo, que isso é natural: em todas as línguas do mundo, o vocabulário relativo à cozinha é como aquele espaçoporto do filme Guerra nas Estrelas, em que convivem representantes de todas as galáxias. No nosso caso, a situação dos termos que ingressam em nosso léxico é muito semelhante à dos indivíduos estrangeiros que vêm para o Brasil: uns já estão naturalizados, outros aguardam o deferimento do pedido e outros, finalmente, vão morar aqui sem alterar sua cidadania de origem.

Para não fugir do Chica, fui à sua página na internet (www.chicafundo.com.br) para colher exemplos. Dos que já foram aportuguesados, encontrei pudim, lasanha e nhoque (de pudding, lasagna e gnocchi, respectivamente). Do segundo caso, achei tortilla (tortilha), champignon (champinhom), goulash (gulache), curry (caril) e capuccino (capuchino) — as formas no parêntese já estão dicionarizadas, mas vai demorar muito até serem aceitas pela maioria dos falantes que conhecem esses alimentos. Finalmente, com pouquíssimas chances de vir a ser nacionalizadas, temos paella, chutney, bavaroise, couvert, pizza (as duas formas alternativas até agora propostas, piza e pitza, não convenceram), e sushi (adaptado ao nosso sistema ortográfico, só poderá dar suxi, que, convenhamos, é de fazer bacalhau chorar em porta de venda).

Seguindo o segundo modelo, não há dúvida de que espresso poderá um dia ser nacionalizado para expresso, como já vem ocorrendo em restaurantes mais populares. Ouvi, num bar da Rodoviária, alguém reclamar do tempo de espera: “Se é expresso, por que demora tanto?”. Ele certamente ignorava que o espresso, aqui no Italiano, não significa “rápido”, mas sim que o café foi feito sob pressão, numa máquina especial. Os estabelecimentos mais sofisticados, naturalmente, resistem a expresso assim como resistirão por muito tempo a champinhom ou a capuchino.

_____________________________

 

 

Junte-se ao grupo Sua Língua no Facebook! Clique AQUI 

 

Categorias
Destaque Etimologia e curiosidades Formação de palavras Origem das palavras

homofobia

HOMOFOBIA

QUANDO UM TERMO técnico entra na linguagem do quotidiano, a tendência é reduzi-lo a um padrão mais confortável para todos os falantes.Vai daí, coisas estranhas começam a acontecer.

 

Na hora em que esta coluna chegar à sua casa, neste sábado, prezado leitor, estarei trilhando a estrada entre Corinto e Epidauro, sob a luz e o céu azul da eterna terra dos gregos. Mais uma vez, por dez preciosos dias, vou empunhar meu simbólico cajado de pastor para guiar um novo grupo de amigos pelo mundo fascinante da mitologia e da literatura grega ― ali onde estão as raízes vivas de nossa imaginação, de nossa filosofia e, bem a propósito, de grande parte das palavras que empregamos.

Como se adivinhasse isso, o leitor D. Xavier escreve para perguntar exatamente sobre um desses greguismos indispensáveis, homofobia, que não lhe parece bem construído: “Eu sei que deve haver outros casos parecidos que já fizeram jurisprudência ― mas não é um desastre, essa palavra homofobia? Lido ao pé da letra significaria “aversão ao similar, ao igual”, mas é bem o contrário! É uma composição que não parece etimológica, sei lá eu…. Homo virou sinônimo de homossexual, e pronto?”.

Caro Xavier, estás apontando para um curiosíssimo (e novo) processo lexical que, embora ainda não esteja muito bem compreendido, pode se tornar uma das grandes fontes de novas palavras do idioma: no momento em que algum termo técnico ou erudito, geralmente formado por elementos gregos ou latinos, passa a fazer parte do vocabulário quotidiano, há uma forte tendência a reduzi-lo a um padrão prosódico mais confortável. Achamos natural e oportuno que fotografia, por exemplo, tenha virado foto, mas não nos damos conta de que, ao fazê-lo, o elemento original do Grego produziu um “filhote” com a mesma forma mas com um significado completamente diferente. Na primeira geração, temos fotossíntese, fotocélula, fotofobia, fotografia, em que foto está com seu sentido primitivo de “luz”; na segunda, porém, a etimologia vai para o brejo, pois em fotomontagem, fotojornalismo ou fotonovela, foto passou a significar “fotografia”.

Tente definir para um estrangeiro, por exemplo, o valor do elemento tele em nossos compostos! Você terá de explicar a ele que o tele mais velho, que desde o Grego significa “à distância” (telepatia, telefonia, telescópio, telêmetro), deu cria duas vezes, e seus filhotes passam bem: um com o sentido de “telefone” (tele-entrega, telechaveiro, telessexo) e o outro com o sentido de “televisão” (telejornal, telenovela, teleteatro). Parece confuso? Sinto muito; esse é um processo espontâneo de nosso idioma e, como tal, não pode ser regulamentado – e muito menos interrompido.

Pois foi isso que aconteceu com homo, que recebemos do Grego com o sentido de “igual, semelhante” (o antônimo de hétero), como se vê em palavras eruditas como homófono (“o mesmo som”), homógrafo (“a mesma grafia”), homônimo (“o mesmo nome”). Já homossexual (“o mesmo sexo”), ao sair do restrito mundo acadêmico e ingressar na fala de todo o mundo, foi encurtado para homo, figurando já com o novo sentido em compostos como homoafetivo, homoerótico e homofobia.

Ilustração de Edu Oliveira – jornal Zero Hora] Junte-se ao nosso grupo no Facebook:  www.facebook.com/groups/sualingua