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Molhos e molhes

 

Reúna o molho de pimenta, o molho de chaves, os molhos do fondue e os molhes da barra e terá uma maçaroca de significados e de pronúncias.

 

— A leitora Balbina V. quer resolver uma pequena disputa doméstica: visitando a Serra gaúcha juntamente com os netos,  seu marido, ao se referir aos molhos que costumam acompanhar o fondue borguinhão (o de carne, não o de queijo), pronunciou /mólhos/, com o que ela não concordou. Diz ela: “Para mim, molhos com o O aberto é aquela construção de pedra que vai mar adentro, como fizeram na barra do Cassino e do Mampituba, aqui no Rio Grande do Sul. Na comida, deve ser com a vogal fechada mesmo. O que o senhor acha? Aliás, não é por isso que escrevemos com acento circunflexo?”.

Cara leitora, sem querer ser deselegante, eu diria que deste uma martelada no prego mas várias na tábua. Para deixar tudo bem claro, no entanto, temos de fazer algumas distinções etimológicas. Em primeiro lugar — no caso do fondue — temos o molho, o qual, segundo a pitoresca definição de Morais, é “líquido temperado segundo a arte dos cozinheiros, em que vêm certos guisados de peixe ou de carne para terem melhor sabor” (para quem estranhar o guisado de peixe, lembro que aqui o termo está empregado no sentido original de “refogar em temperos”; no Brasil, só os gaúchos usam este termo com o sentido de “carne moída”). Aqui a razão está contigo: o O fica fechado tanto no singular quanto no plural.

Em segundo lugar, temos um outro molho (/ó/), que significa “feixe, conjunto de coisas unidas”. Podemos ter um molho de cenouras, de lenha, de gravetos, de ervas, de espigas, de rosas, de cordas e, naturalmente, um molho de chaves. Neste caso, o O fica aberto tanto no singular, quanto no plural. Vou ceder aqui à despudorada tentação de citar a mim mesmo, em coluna mais antiga: “Como nos ensinavam as boas professoras de antigamente, um molho (/ó/) de espinafre é bem diferente de um molho (/ô/) de espinafre — o que torna o molho (/ô/) de chaves, como muita gente diz, uma radical inovação culinária”.

Em terceiro lugar, aparece mole, aparentemente um estranho no ninho. Este vocábulo vem do Latim moles (“imenso volume ou massa”) e hoje está circunscrito à linguagem literária, tanto no sentido real quanto figurado: “No meio daquela vasta mole de pedra, em que os sons discordes reboavam” (Alexandre Herculano); “A moça teve um deslumbramento: em seu espírito, subitamente iluminado, fez-se vácuo enorme, desmoronou-se fragorosa a mole das ilusões” (Júlio Ribeiro).

De inhapa, uma curiosidade: é daí que vem a molécula (diminutivo latino de moles), termo que antigamente significava “pequena massa; pequena partícula de um corpo”. Pois também é daí que vem o molhe, que Bluteau define, na sua saborosa linguagem setecentista, como “lanço de muro grosso, a moda de cais, que se faz em alguns portos de mar para abrigar os navios do ímpeto das ondas”. Aqui, cara Balbina, tua martelada errou o prego e deu na tábua: o que temos na barra da Lagoa dos Patos, em Rio Grande, são molhes — e não molhos, como pensavas.

Por fim, também te enganas quanto ao acento — mas este é um equívoco totalmente desculpável; quem já tem tem netos em idade de comer fondue deve ter sido alfabetizado antes de 1971, ano em que foi abolido aquele acento que distinguia pares homógrafos que se diferenciam apenas pelo timbre da vogal, como porto:pôrto, almoço:almôço, gelo:gêlo e molho:môlho, entre vários outros (o único a ser poupado até hoje foi pode:pôde). Muitos lamentam a perda deste acento, mas o contexto dá conta do recado. Não há dúvida de que não estamos falando em comida em exemplos como “Depois do almoço fui à casa de D. Plácida; achei um molho de ossos, envolto em molambos” (Machado) ou “No seu farto cabelo, crespo e reluzente, puxado sobre a nuca, havia um molho de manjericão” (Aluísio Azevedo).

 

 

 

 

 

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Destaque Fonologia Lições de gramática - Respostas rápidas

Rubrica

Muita gente prefere RÚBRICA à forma RUBRICA, mais aconselhável. Como vamos ver, há uma razão para isso. 

Escrevo esta coluna em Delfos, diante de uma janela que se abre para as impressionantes escarpas que abrigam o oráculo mais famoso do Mundo Antigo. Acabamos de deixar o Peloponeso, por onde viajamos cinco dias visitando aquelas cidades que vão figurar para sempre entre os lugares imortais de nossa imaginação ― Micenas, Corinto, Epidauro, Esparta e Olímpia. Nossa guia, a preciosa Konstantina, uma jovem grega que tem nome de rainha, modos de princesa e um Português que daria inveja a muita gente que conheço, faz um simpático esforço para entender os nomes gregos que pronunciamos à brasileira, tirando a sílaba tônica do lugar a que ela está habituada. Corinto, Epidauro e Olímpia são, para ela, /côrinto/, /epídauros/ e /olimpía/. Dizemos Aristóteles, Cleópatra e Tucídides; ela diz /aristotéles/, /cleopátra/ e /tucidídes/. Não há nada a estranhar: a prosódia do Português ― a colocação da sílaba tônica do vocábulo ― raramente vai coincidir com a prosódia do Grego, mas isso não vai atrapalhar nosso périplo pela Grécia: afinal, como dizia Fred Astaire na música dos irmãos Gershwin, para quem quer viver em harmonia não faz a menor diferença chamar a batata de /poteito/ ou de /potato/, e o tomate de /tomeito/ ou de /tomato/ (ouça aqui).

Ora, já que veio à baila o assunto da prosódia, selecionei, entre as perguntas que estão na lista de espera, uma que trata exatamente sobre este tema ― pergunta, aliás, muito original, como verão em seguida meus leitores. Sem dar o nome, alguém que usa o e-mail “professora.capixaba” escreve: “Até as pedras de Ouro Preto sabem que a palavra rubrica é paroxítona; ela não tem acento, rima com fabrica, do verbo fabricar, e pronunciá-la como /rúbrica/ é um erro clássico de prosódia. Até aqui estamos de acordo, e não canso de mostrar a meus alunos a pronúncia recomendada. O que eu gostaria de saber é por que quase todas as pessoas que conheço são naturalmente atraídas para esta malfadada /rúbrica/? Ela parece que tem um mel que a forma correta, rubrica, decididamente não tem. Isso se explica, professor, ou é modinha assim de gente de pouca instrução?”.

Cara professora, um fato linguístico de tal amplitude não pode ser casual. Se passamos a vida inteira a lembrar nossos alunos de que devemos dizer rubrica é porque deve estar agindo aí uma força que os arrasta no sentido contrário. Simples modinhas não atravessam várias gerações, como é o presente caso. A meu ver, neste verdadeiro cabo-de-guerra entre as duas formas atuam dois fatores que favorecem a opção por /rúbrica/. Primeiro, o grande prestígio que as proparoxítonas têm junto a alma popular, que costuma associá-las, não sem razão, à erudição e à tecnologia; é exatamente por isso que tantas vezes ouvimos, da boca de pessoas que querem falar bonito, estrovengas como /pégada/, /púdico/ ou /filântropo/.

O segundo fator, porém, é mil vezes mais forte que o primeiro. Nossa língua tem alguns processos derivacionais tão corriqueiros que conseguem atuar sobre o falante sem que ele perceba. No caso de rubrica, trata-se da oposição de dois termos ― de um lado, um verbo na 3ª pessoa do singular; do outro, um nome (substantivo ou adjetivo) ―, ambos criados a partir da mesma base, mas com sílabas tônicas diferentes. Alguém musica um poema, mas toca uma música; fabrica automóveis, mas trabalha numa fábrica; autentica um documento, mas tem uma atitude autêntica ― em suma, formam-se pares em que o verbo é paroxítono e o nome é proparoxítono: medica e médica; clinica e clínica; critica e crítica; pacifica e pacífica; pratica e prática; etc. Ora, segundo este modelo, é gigantesca a pressão estrutural para que o par de rubrica (o verbo) venha a ser o substantivo /rúbrica/. Eu não gosto, e muitos outros não gostarão, mas quando isso acontecer ― e assim prediz o oráculo da língua ―, o sistema terá dado mais um passo na sua inexorável regularização.

 

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Como se diz Destaque Fonologia

A OSPA e a osga

Uns enfiam o pé na /pôça/, outros na /póça/; uns dizem /algôz/, outros preferem /algóz/ —  e todos clamam que estão com a razão. A mesma hesitação se manifesta na hora de pronunciar as vogais de uma sigla: a Ospa (Orquestra Sinfônica de Porto Alegre) é /ôspa/ ou /óspa/? Veja o que está por trás disso tudo.

Publicar alguma coisa na internet gera conseqüências tão imprevisíveis quanto lançar ao mar uma mensagem na garrafa. Há quase dez anos, quando o www.sualingua.com.br era tão jovem que ainda não comia com a mão, respondi a uma consulta de um casal de músicos de Porto Alegre, integrantes da Ospa, que estavam intrigados com o fato dos vocábulos harpa e arpejo serem escritos de maneira diferente. “Se ambos vêm da mesma raiz, arpejo também não deveria ter H?”, perguntavam os dois, com absoluta propriedade. A razão desta discrepância ortográfica, expliquei, foi a loucura que fez a Itália ao suprimir o H inicial de todos os vocábulos (Port. homem, Esp. hombre, Fr. homme — mas It. uomo; Port. hora, Esp. hora, Fr. heure — mas It. ora). Ora, arpejo, como a maior parte de nossos termos musicais, veio do Italiano arpeggio — e como lá a velha harpa virou arpa, deu no que deu…

Vai daí que esta garrafa vagou pelo ciberespaço por quase uma década, até que minha antiga resposta veio despertar no jovem Michel P., de 15 anos incompletos, uma dúvida que ele classifica de “atroz” (não lembro bem, mas acredito que, nesta idade, minhas dúvidas também costumavam ser “atrozes”): “Professor, como é que se diz em voz alta o nome de nossa orquestra? É /óspa/ ou /ôspa/? Meu avô, aqui em Lajeado, fala com o O fechado, mas ele é meio alemão e aí não conta, porque fala tudo assim, até /bôsta/” [uso as barras inclinadas para assinalar que estamos falando da pronúncia, não da grafia].

Talvez não saibas, meu caro Michel, que a resposta à tua pergunta serve para dividir os gaúchos em duas facções que não se bicam, assim como chimangos e maragatos, gremistas e colorados. Conversando com Luiz Osvaldo Leite, presidente honorário da república de seus amigos e um dos grandes incentivadores da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, fiquei sabendo que não há entrevista sobre a Ospa em que não lhe perguntem a opinião: afinal, como é que se diz? A resposta que ele dá é a mesma que eu daria: cada um pode escolher a que mais lhe aprouver — mas a tendência dominante é, sem dúvida, a pronúncia aberta do O. Cabe a mim, nesta coluna, explicar o porquê disso tudo.

Em primeiro lugar, por que existe esta dúvida? Ora, ela nasce da tradicional hesitação que os brasileiros têm na determinação do timbre do O e o E em dezenas de vocábulos. Nossas gramáticas e dicionários vivem discutindo a pronúncia de dolo, algoz (dizemos /ô/ ou /ó/?), quibebe, coeso, extra, obsoleto (dizemos /ê/ ou /é/?), entre muitos outros em que a escolha entre aberto e fechado ainda não está consolidada pelo uso. E não se espante com isso o leitor: se, por um lado, a ortografia é regulamentada e fixada por uma norma específica, nada semelhante existe para a língua falada, que abriga um sem-número de variantes regionais, etárias e sociais. Como já mencionei em colunas anteriores, uns metem o pé na /póça/, outros o metem na /pôça/; há quem faça /ióga/, há quem prefira /iôga/. Não é de estranhar, portanto, que as pessoas se dividam quanto ao nome da nossa orquestra sinfônica.

Em segundo lugar, a tendência a priorizar a pronúncia /óspa/ coincide com o padrão dominante nessa configuração fonológica: birosca, cosca, gosma, losna, bosta, morta, amostra, aposta, costa, hoste, posta, resposta (e, muito parecida, a osga, nome daquela simpática e inofensiva lagartixinha de parede). Vocábulos femininos com O fechado existem, mas são minoria: mosca, rosca, lagosta, fosca, tosca, crosta, ostra ─  e não é por acaso que se ouve, por hipercorreção, um e outro candidato a celebridade pronunciando /óstra/… É por isso, aliás, que nossos bons dicionários  indicam, entre parênteses, quando o E ou o O são fechados; quando nada mencionam, é porque a pronúncia é /ó/ ou /é/, ou seja, as vogais abertas são tomadas como “default“.

Em suma, caro Michel, eu uso e recomendo a pronúncia aberta, embora nada tenha contra  os partidários de /ôspa/. Só lhes peço que aposentem o velho argumento de que o O, nesta sigla, como representa a vogal inicial de /ôrquestra/, também deveria ser fechado. Não é assim que as coisas funcionam; basta ver, em siglas corriqueiras, que não há correspondência necessária entre o timbre da vogal da sigla com o da vogal da palavra representada: IBOPE (o O está por “Opinião”); SEC (o E está por “Educação”), GBOEX (o E está por “Exército”), CEP (o E está por “Endereçamento”), BO (o O está por “Ocorrência”), e por aí vai a valsa.

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BOLETIM:  o Sua Língua agora publica um boletim quinzenal com tópicos diversos (e inéditos) sobre nosso idioma. Veja o 1º da série AQUI.

Depois do Acordo: conseqüência > consequência

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antes DO ano terminar

Qual a forma preferível — “Antes DO ano terminar” ou “Antes DE O ano terminar”? Na escrita, podemos escolher: os grandes escritores preferem a primeira, a imprensa em geral prefere a segunda. Na FALA, porém, a elisão é OBRIGATÓRIA.

De vez em quando, entre dezenas de dúvidas sobre como se escreve, aparece uma pergunta sobre como se fala. Eu até estranho esta escassez de consultas, considerando que são pouquíssimas as fontes em que os brasileiros podem pesquisar sobre a língua culta falada. É bem verdade que assistimos, no meio universitário, ao surgimento de várias tentativas de descrever a norma urbana culta, mas infelizmente seus resultados jamais atravessaram as paredes invisíveis que separam o mundo acadêmico dos simples mortais aqui fora. Quando queremos confirmar a pronúncia de um determinado vocábulo, recorremos à opinião dos gramáticos e dos dicionaristas — friso, opinião, nada mais do que isso, o que cria um sem-número de divergências por este Brasilzão afora: uns metem o pé na poça (rimando com roça), outros na poça (rimando com moça). Para uns, a grelha do assado rima com velha (Houaiss e Aurélio, por exemplo); para outros, com orelha (Luft e todos os gaúchos, imagino). Há filmes em tecnicólor (rimando com aquele ex-presidente) e filmes em tecnicolor (rimado com bolor); há viquingues e víquingues, recordes e récordes, e assim por diante, numa abundância de opções que mais nos diverte do que nos atrapalha.

A última, agora, veio de um jovem ator, meu ex-aluno, que vai atuar como mestre de cerimônias numa formatura em agosto. Ele estava repassando o texto que lhe foi fornecido quando empacou, por instinto, diante de uma construção que nunca tinha lido em voz alta: “Antes de o ano terminar…”. Cismado com aquele DE separado do artigo, achou melhor me escrever: “E aí, professor? Leio palavra por palavra ou devo dizer antes DO ano terminar, como todo o mundo? Como é que o senhor faz?”.

Pois eu, prezado amigo, sempre faço a elisão da preposição com o pronome — tanto na escrita (onde é opcional), quanto na fala (onde é obrigatória). Há muitos anos escrevi um artigo sobre isso — “Antes do jogo começar“, incluído no vol. 2 da coletânea O Prazer das Palavras, da L&PM —, mostrando que a prática tradicional, adotada pela quase totalidade dos escritores de renome, é combinar a preposição DE com o artigo ou com o pronome pessoal reto que vem depois: “Creio que foi uma apologia de amigo por ocasião dele fazer quarenta anos”, “Antes dela ir para o colégio, eram tudo travessuras de criança” (Machado); “Depois do enfermo lhe haver contado” (Bernardes); “Apesar das couves serem uma só das muitas espécies” (Rui Barbosa).

Alguns gramáticos tradicionais, no entanto, dizem que esta construção não é correta, já que o sujeito estaria, segundo eles, “regido pela preposição, o que não se admite em nossa língua”. Ora, quem acredita nisso está dizendo, em outras palavras, que Machado deveria ter escrito “antes de ela ir para o colégio”, Rui Barbosa teria feito melhor se escrevesse “Apesar de as couves serem uma só das muitas espécies”, Bernardes deveria revisar o seu estilo, e assim também Eça, Camilo e todos os demais outros escritores do passado… Uma rápida pesquisa no preciosíssimo córpus do Português organizado por Mark Davies e Michael Ferreira, que reúne 600 anos de textos literários e jornalísticos, revela um detalhe extremamente significativo: até o final do séc. 19, todos os autores juntavam a preposição com o artigo ou o pronome, com a única (e brilhantíssima) exceção do Padre Vieira, que os mantinha separados (“porque antes de o mundo ser julgado”, “depois de ele emendar os estilos”, “antes de ela chegar, chegou uma lancha sua”). Só a partir do séc. 20 é que começa, nos jornais, a aplicação maciça daquela regra, que hoje alguns erroneamente tomam como obrigatória.

Celso Luft e Evanildo Bechara há muito determinaram que esta regra artificial nasce de uma confusão entre sintaxe e fonética: em “antes do ano terminar”, a transformação da sequência “de o” em “do” é apenas fonética, sem qualquer efeito sintático. Infelizmente, a regrinha já está tão arraigada nos manuais de redação da imprensa brasileira que será impossível eliminar o seu emprego; no entanto, se a maciça difusão nos jornais faz com que ela seja tolerável, não a torna, nem de longe, preferível ao hábito consagrado de juntar as duas partículas. Como as duas regras passaram a conviver lado a lado, temos, na escrita, mais uma daquelas situações em que podemos escolher livremente; eu não hesito e, como afirmei no artigo citado, sempre prefiro combinar a preposição com o artigo (e confesso que me sinto muito bem na companhia de Machado, Eça e Camilo). Para o leitor que fez a pergunta, finalmente, lembro que ele deve ler “antes DO  ano terminar”, pois na fala, como já notou Sousa da Silveira, essa elisão é obrigatória: não me vá algum incauto pronunciar a preposição separada do artigo ou do pronome, porque isso nunca se viu no vernáculo.

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xibolete


Mário Quintana tentou ensinar o Papa a pronunciar o nosso ÃO como se fosse um brasileiro — sem saber que, assim como as impressões digitais identificam o indivíduo, a pronúncia deste ditongo distingue quem é e quem não é falante nativo do Português.

Uma amável leitora de Pelotas manda uma cartinha à moda antiga, em papel de seda, com envelope e tudo, em que pergunta o que eu sei sobre a correspondência trocada entre Mário Quintana e o Papa João Paulo II. “Lembro que o senhor um dia escreveu sobre isso, mas esqueci de recortar e agora estou aflita”. Olha, prezada leitora, eu não sei se eles chegaram a se cartear; o que mencionei, certa feita, foram as instruções que o Mário escreveu (não sei se chegou a enviar…) para que o Papa pronunciasse corretamente o nosso ditongo “ão“. Reproduzo, com prazer: “Sendo Vossa Santidade um poliglota notável, vejo que não consegue pronunciar o famoso ão da Língua Portuguesa. E tomo a liberdade de esclarecê-lo sobre esta pronúncia. Considere o ão como dois monossílabos, “ã” mais “o“, e tente pronunciá-los cada vez mais rapidamente. Assim obterá o nosso ão. Esperando a sua benção, respeitosamente”.

Como eu disse na ocasião, é comovente ler essa ingênua sugestão que o Poeta fez a Sua Santidade. Entretanto, se a intenção era boa, a teoria era falha: com ou sem ajuda, o bom Papa poliglota jamais conseguiria pronunciar o nosso ão. Cada língua tem sons que só seus falantes nativos são capazes de distinguir e, por isso mesmo, de reproduzir. Por mais perfeita que seja nossa pronúncia de um idioma alheio, sempre haverá algum fonema que irá  trair o fato de que somos estrangeiros;  é o que se chama, lingüisticamente, de xibolete, uma peculiaridade de pronúncia que atesta se fazemos parte (ou não) de um determinado grupo lingüístico.

No seu sentido primitivo, portanto, um xibolete é um tipo de senha lingüística que identifica os componentes de uma comunidade, assim como a impressão digital identifica o indivíduo. Este estranho (mas útil) vocábulo é a transliteração de um vocábulo hebraico que alguns traduzem por “espiga de grãos”, outros por “corrente de água”. Segundo o Velho Testamento (Juízes, 12: 1-15), esta palavra foi usada para distinguir entre duas tribos semitas, os gileaditas e os efraimitas, que travaram uma grande batalha. Os gileaditas, vencedores, bloquearam as passagens do Jordão para evitar que os efraimitas sobreviventes pudessem escapar. Os sentinelas exigiam que todo o passante dissesse /shibboleth/; como os efraimitas não tinham o fonema /x/ em seu dialeto, só conseguiam pronunciar /sibboleth/ (com /si/ na primeira sílaba), sendo assim reconhecidos e executados.

Há vários exemplos conhecidos desse uso hostil da linguagem para diferenciar grupos humanos. No massacre das Vésperas Sicilianas, no séc. XIV, os odiados franceses eram reconhecidos pela maneira como pronunciavam ciceri (uma espécie de ervilha seca). Nas revoluções de 1893 e de 1923, no Sul do Brasil, quando foi amplamente empregada a execução por degola, os mercenários castelhanos eram identificados fazendo-os pronunciarem palavras que contivessem algum desses fonemas exclusivos; exemplos conhecidos são o jota (o nome da letra) e doispauzinhos. Em qualquer um dos casos, o estrangeiro estava perdido, porque teria de produzir sons que o falante nativo do Espanhol não conhece: a resposta, com suas fatais conseqüências, era sempre algo como /rôta/ ou /paucinhos/.

Ora, talvez o xibolete mais evidente do Português seja exatamente o ditongo ão, como já tinha notado Monteiro Lobato no seu Emília no País da Gramática (aliás, não por acaso, foi exatamente esse o ditonguinho que o Visconde de Sabugosa seqüestrou e que acabou sendo salvo por artes  da astuciosa boneca). As instruções do Mário eram inúteis, mesmo para um poliglota do quilate de João Paulo II: por mais que o falante estrangeiro se esmere em pronunciar este ditongo, sempre vai persistir um traço de estranheza que o ouvido nativo não deixará de captar. Vários autores afirmam, inclusive, que foi essa dificuldade que transformou a ilha de Coração, como chamavam os portugueses, na ilha de Curaçau, nas Antilhas Holandesas.

Hoje, o termo teve seu significado ampliado, podendo indicar, também, um hábito ou uma característica que sejam distintivos. Um oportuno artigo sobre etiqueta à mesa me ensinou, por exemplo,  que “a maneira como se usam os talheres para comer a fruta é o xibolete que distingue quem é quem”. Já no pólo mais sério, Freud, ao censurar a posição de Jung de diminuir deliberadamente o valor e a importância do fator sexual na Psicanálise, afirmava, em 1919: “O fator da sexualidade é o nosso xibolete“. Eu confesso que preferiria escrever xibolé ou xibolê, mas como Aurélio, Houaiss e Luft registram xibolete, eu baixo as minhas orelhas e vou puxar minha carrocinha.

Depois do Acordo:

lingüístico > linguístico
conseqüência > consequência
seqüestrou > sequestrou
pólo > polo

 

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bisesdrúxulas

Prezado professor: no ano passado, minha professora, ao explicar a posição da sílaba  tônica de uma palavra, disse que ocorre uma bisesdrúxula quando a tonicidade se localiza antes da antepenúltima sílaba. Eu gravei o nome e  fiquei interessado; porém, nunca encontrei nada a respeito. Diga-me: isso realmente existe?

Fernando  –  Maringá (PR)

Prezado Fernando: em primeiro lugar, uma pequena nota histórica, para que os leitores mais jovens entendam de onde veio esse estranho vocábulo. Antes de 1958, usava-se dividir os vocábulos, quanto à posição da tônica,  em agudos, graves e esdrúxulos, denominações que foram substituídas, respectivamente, pelos insossos oxítonos, paroxítonos e proparoxítonos de hoje. Se a Nomenclatura Gramatical Brasileira teve esse mau gosto, nossos vizinhos castelhanos resistiram, continuando a usar os mesmos nomes que abandonamos.

A posição da sílaba tônica de nossas palavras está submetida a uma restrição conhecida, em Lingüística, por “Janela de Três Sílabas” — o que significa, em  termos práticos, que a tônica deverá ser, obrigatoriamente, uma das três últimas sílabas. Ora, a idéia de uma bisesdrúxula (de bis + esdrúxula) implicaria a existência de uma tônica em sílaba anterior à antepenúltima. Isso não seria possível em um único vocábulo, mas ocorreria em certas seqüências fonéticas, como, por exemplo, [verbo + pronome clítico]. Esses, aliás, são os exemplos que encontramos no Aurélio XXI: tomávamolo, erguia-se-lhe.

O fato vai, no entanto, um pouco além dessas combinações de verbo e pronome. Como já expliquei em pronúncia dos encontros consonantais, os encontros consonantais imperfeitos são desmanchados pela inserção de uma vogal epentética (sempre o /i/), o que resulta, naturalmente, no surgimento de uma sílaba extra. Por causa disso,  África e afta (/afita/)  têm exatamente o mesmo número de sílabas; ritmo (/ritimo/) é uma proparoxítona das boas; pneu (/pineu/) tem duas sílabas; e assim por diante. Não quero insultar a inteligência de meus leitores alertando que tudo isso que explico nada tem a ver com a separação das sílabas na escrita, onde af-ta e rit-mo são dissílabos e pneu é monossílabo (!).

Ora, essa sílaba extra que existe nos encontros imperfeitos é o que vai permitir o aparecimento de verdadeiras bisesdrúxulas: rítmico, técnico, elíptico, helicóptero, apocalíptico e mais algumas, que são geralmente pronunciadas /rí-ti-mi-co/, /he-li-có-pi-te-ro/ — com três sílabas, portanto, depois da sílaba tônica. As gramáticas escolares não falam sobre isso, nem devem; os autores competentes são os que selecionam aquilo que o usuário comum precisa conhecer para entender o seu idioma – e o conceito de bisesdrúxula só passa a ser relevante para quem estuda o Português na Faculdade de Letras. Abraço. Prof. Moreno

Depois do Acordo:

Lingüística > Linguística

seqüência > sequência

 

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haplologia

Na semana passada, um leitor muito especial desta página (o mocinho tem apenas doze anos, mas já gosta de freqüentar dicionários!) me confessou candidamente que prefere dizer *paralepípedo. “Sei que o certo é paralelepípedo, mas não gosto; é muito feio e comprido demais. Não daria para cortar um pedaço?”. Como sua pergunta soou quase como um pedido pessoal, tive de lhe explicar que eu não tinha o poder de decidir sobre o assunto, mas aconselhei-o a ter paciência, pois a própria língua se encarrega de encurtar essas palavras centopeicas por meio da haplologia. Este é um dos processos usados pelo idioma para evitar que a formação de uma palavra nova dê origem a um encontro malsoante de duas sílabas idênticas ou muito semelhantes; quando isso ocorre, uma das sílabas é simplesmente suprimida. Um exemplo clássico é tragicômico; o produto da soma de trágico e de cômico — que seria um impensável *tragicocômico ! — foi providencialmente reduzido. Assim também ocorreu com idolatria (em vez de *idololatria), gratuidade (em vez de *gratuitidade), analista (em vez de *analisista), Candinho (em vez de *Candidinho). Temos binômio, trinômio, mas  monômio, que deveria ser *mononômio, não fosse a haplologia. O mesmo ocorre num expressivo número de adjetivos derivados de substantivos terminados em –dade: de vaidade, sai vaidoso (e não *vaidadoso); de caridade, caridoso (e não *caridadoso); de bondade, bondoso (e não *bondadoso); de piedade, piedoso (e não *piedadoso); e muitos mais. Como se vê, é uma boa notícia para o meu jovem interlocutor, que demonstrou ter um ouvido sensível para com as peculiaridades de nosso idioma: nada impede que o desajeitado paralelepípedo venha um dia a perder uma de suas sílabas repetidas — o que, aliás, já ocorre com freqüência na língua falada.

O mais curioso é que nem sempre o Português evita essas seqüências repetitivas, pois há dezenas de vocábulos formados por reduplicação, um processo que vai na contramão do que acabamos de examinar. Ele intervém corriqueiramente na formação de vocábulos por onomatopéia (aqueles cujo som mais ou menos imita o que está sendo designado): zumzum, lerolero, recoreco, ticotico, queroquero, lufalufa, lengalenga, cricri, fonfom; tiquetaque e pinguepongue seguem um padrão levemente modificado, usando vogais diferentes (mas sempre com o /i/ em primeiro lugar). Aparece também num grupo especial de substantivos compostos formados pela repetição da mesma forma verbal: matamata, quebraquebra, corre-corre, puxapuxa, ralarala, lambe-lambe, pula-pula, empurraempurra (a maior parte deles designa uma ação reiterada). Como muitas outras línguas também têm esse amor pela reduplicação, vamos encontrá-la em várias palavras estrangeiras que entraram no Português: beribéri, tsétsé, chachachá (ritmo caribenho), cancã, dumdum (projétil de fragmentação), pompom, cuscuz, frufru, hulahula, ioiô.

O mesmo padrão reduplicativo determina que a grande maioria dos apelidos carinhosos recebidos em nossa vida familiar seja formada por duas sílabas iguais. Geralmente cabe a uma criança da casa modificar o nome dos seus parentes ou o seu próprio, reduzindo-o a uma forma mais pronunciável, mais adequada ao seu ainda inexperiente aparelho da fala. Não precisamos ser lingüistas para perceber que esses pequenos entezinhos falantes têm grande preferência por um padrão bem definido — eles simplesmente reduplicam a  estrutura silábica mais comum do Português, que é CV (uma consoante seguida de uma vogal): Fafá, Dudu, Zezé, Lili, Juju, Mimi, Lulu, Dadá, etc. O processo também está presente nas primeiras palavras que nossos brasileirinhos pronunciam, e que pais, mães e avós se apressam a adotar no seu diálogo com os pequeninos — seja com relação ao mundo familiar (babá, vovó, titio, iaiá, nonô, bebê, mamãe), seja com relação às funções básicas: comer (mamá, papá), descomer (cocô, pipi, xixi, bumbum) e dormir (naná).

Por último, como sobremesa, lembro que há muitos lugares neste planeta com o nome reduplicado; muitos são obscuros lugarejos ou rios na África ou na Ásia, mas outros estão entre os nomes mágicos do circuito requintado: Baden-Baden, Bora Bora, Pago Pago. Em turismo, nome duplo é um luxo!

Depois do Acordo:

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seqüências >sequências

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lingüistas >linguistas

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bauru tem hiato ou ditongo?

Começou assim:

Prezado professor: bauru é uma oxítona terminada em “u”, e por isso não leva acento. No entanto, em dicionários atuais, há autores que separam a palavra assim: ba-u-ru, como se tivesse um hiato… Qual o correto?

Magda S.

 

Resposta do Sua Língua:

Minha cara Magda, não conheço nenhum dicionário que se atreva a encontrar um hiato em bauru. Para que o “u” ficasse em sílaba separada, ele precisaria ser tônico; ora, a sílaba tônica é a última, como sabes. A pronúncia não é /ba-ú-ru/, mas /bau-rú/. Abraço. Prof. Moreno

2ª mensagem:

Professor, muito obrigada pela resposta! Mas, como o senhor pode constatar abaixo, a ABL me disse que a palavra bauru possui hiato… Por isso estou lhe enviando novamente a pergunta, pois aprendi que esta palavra tem é ditongo – exatamente como o senhor me respondeu. Em um concurso público, como a classificaria?

Magda S.

Resposta da ABL:

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ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS

ABL RESPONDE

Pergunta: “A palavra bauru tem ditongo ou hiato? Certa feita, vi em um dicionário esta palavra dividida assim: ba-u-ru. Por quê? Muito agradecida desde já, Magda.”

Resposta: O correto é ba-u-ru –  hiato.

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Conclusão:

Prezada Magda, alguém enlouqueceu na nossa vetusta Academia! Talvez tenha havido uma confusão com baú – aqui sim, hiato. Em bauru, a primeira sílaba é /bau/, um legítimo ditongo decrescente. Isso vale em qualquer concurso do território nacional, porque assim está em todas as gramáticas e dicionários que conheço. Deves desconsiderar essa resposta da ABL, dada sabe-se lá por quem. Não é a primeira vez que leitores, como tu, reclamam de respostas um tanto “peculiares” dadas por esse serviço de tira-dúvidas. Chego a pensar que haja um hacker infiltrado, interceptando as mensagens dos consulentes e respondendo  tudo à moda galega. Abraço. Prof. Moreno

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Fonologia Lições de gramática

pronúncia dos encontros consonantais

Mestre, tenho 13 anos e gosto muito de ler; descobri agora sua página. Adorei! Como devo pronunciar o nome do faraó Ramsés? É /ram–sés/ ou /rámi–sés/? Penso que o certo é da primeira forma e discuti com minha prima. Creio que da segunda forma parece pronúncia inglesa, não? Agradeço sua atenção.

Mariana —  Campina Grande (PB)

Minha cara Mariana: as coisas não são tão simples quanto parecem. Por que será que tu e tua prima divergiram quanto a Ramsés? Porque aqui aparece aquele velho fantasma dos encontros consonantais imperfeitos. É um nome pouco empregado, hoje em dia (era usado pelos gramáticos de outrora), mas continua muito oportuno. Quando duas consoantes se encontram, ou formam um encontro consonantal perfeito (em princípio, todo aquele cuja segunda consoante for R ou L: aBRaço, PLaca, PRova, TRova, aCLamar, etc.), ou imperfeito (os demais: aFTa, diGNo, PNeu, aDVogado, oBTurar, etc. — geralmente em vocábulos de origem grega ou erudita).

Essa denominação de “perfeito” e “imperfeito”, claramente avaliativa, está ligada à facilidade ou à dificuldade de pronunciar esses encontros. Para podermos adequar os imperfeitos aos padrões fonológicos do Português, introduzimos, ao falar, uma vogal entre as duas consoantes, desmanchando assim o encontro e formando duas sílabas comuns: aFTa vira, na fala, /á-fi-ta/ (falando, tem o mesmo número de sílabas que África); riTMo vira /rí-ti-mo/; PNeu (ainda bem!) vira /pi-neu/. Não preciso te dizer que essa vogal não se escreve; estou representando, entre as barras inclinadas, a maneira como pronunciamos esses vocábulos. Por causa dessa vogal extra, todas as palavras que têm encontros imperfeitos passam a ter, na fala, uma sílaba a mais que na escrita.

É claro que as pessoas mais cultas, ao usarem uma fala mais cuidada (“fala tensa”, como alguns chamam), tratam de manter o mais discreta possível essa vogalzinha. Eu pronuncio a segunda sílaba de /a-DI-vo-ga-do/ com um /i/ mal e mal perceptível; muitos falantes, no entanto, carregam no /i/ e alguns, inclusive, tentam trocá-lo por /e/ (dizem algo assim como /a-DE-vo-ga-do/, erro típico dos pretensiosos de pouco estudo).

Sabes o que houve entre ti e a tua prima? A pronúncia de ambas inclui esse i-zinho: o teu pode ser mais discreto, o dela pode ser mais aparente, MAS AMBAS O ESTÃO PRONUNCIANDO. Ambas estão dizendo /ra-mi-sés/, com três sílabas. O Inglês sim, que admite sílaba fechada por consoante, pronuncia /ram-ses/. Espero ter solucionado o teu problema. Abraço. Prof. Moreno

P.S.: Curiosidade minha: como é que vocês duas (tu e a tua prima) pronunciam a última sílaba deste faraó? /ra-mi-CÉS/, /ra-mi-ZÉS/ ou /ra-mi-CÊS/?

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“porém” tem dígrafo ou ditongo?

Professor, sempre leio as questões elaboradas para concursos que vêm nos jornais; uma delas, no entanto, me deixou muito cismada quanto à resposta. A questão era: As palavras porém e quero têm:

a) ditongo decrescente oral e dígrafo
b) ditongo crescente nasal e dígrafo
c) ditongo crescente nasal e ditongo crescente 
d) ditongo decrescente nasal e dígrafo 
e) dígrafo e dígrafo

Bom, eu, com toda a minha segurança, “crente que estava abafando”, marquei a alternativa E, mas segundo o jornal a resposta certa seria a D. Já quebrei a cabeça, tentando encontrar onde está o ditongo da palavra porém, mas até agora não consegui nada. Conto com sua ajuda.

Danielly A. —  Realengo (RJ)

Minha cara Danielly, aceita um conselho do Doutor: quando fizeres testes de concursos e de vestibulares, JAMAIS leves a sério os que falam de dígrafos, ditongos, hiatos, etc. Acredita: a Fonologia, para uma grande parte dos professores de Português, ainda é um mundo completamente desconhecido. Nenhum colega meu que se preze, ao elaborar uma prova, vai incluir questões como essa que transcreveste. Ela se baseia numa visão ingênua e reducionista da Fonologia (que aparece, infelizmente, nas gramáticas escolares), em que tudo seria claro, preciso e com contornos bem definidos. Ora, quem faz um bom curso de Letras sabe que é interminável a discussão entre o que é ditongo e o que é hiato (há autores sérios que põem em dúvida, inclusive, a existência de ditongos crescentes em nosso idioma); se há semivogais ou semiconsoantes; se existem vogais nasais, no Português, ou se há um fonema nasalizador que trava a sílaba nasal; e assim por diante, numa sucessão interminável de pontos controvertidos. É claro que esse panorama assustador que estou pintando é absolutamente normal no mundo científico — principalmente se considerarmos que (1) a Lingüística é uma das ciências mais novinhas (e mais: dentro dela, a Fonologia é uma das áreas de maior ebulição acadêmica, no momento), e que (2) ela, diferentemente das ciências ditas “exatas”, luta por elaborar os próprios critérios e parâmetros que vai aplicar no estudo da língua. Ou dito de forma mais concreta: enquanto um ictiólogo (biólogo especializado em peixes) sabe, de antemão, que os peixes que vai estudar têm partes já definidas — barbatanas, escamas, cauda, etc. —, um fonólogo, antes de começar a analisar os sons do Português, é obrigado a definir o que ele entende por sílaba, por acento, por vogal, por consoante, etc., etc. É por isso que qualquer trabalho em Lingüística, antes de entrar no tema propriamente dito, precisa definir a metodologia que vai ser utilizada e delimitar os conceitos que vai empregar, numa rotina que, apesar de indispensável, torna muito desagradável a leitura dos trabalhos acadêmicos feitos com seriedade (eu mesmo perpetrei alguns…).

Ora, como é que podemos, então, basear uma questão de escolha múltipla em conceitos tão movediços? Se bem te entendi, deves ter considerado o final de porém como um dígrafo porque o M, em final de sílaba, é considerado, por alguns, como um simples nasalizador da vogal anterior. Ora, duas letras para representar um só fonema = dígrafo. Fica sabendo, no entanto, que outros consideram esta nasal como uma verdadeira consoante, o que os levaria a recusar, aqui, a hipótese de um dígrafo. Além disso, há autores que postulam, nesses casos, a existência de um ditongo descrescente: bem seria /beyn/; a sílaba final de cantam seria /tãw/; e assim por diante. Todas essas opiniões vêm fundamentadas com argumentos científicos, e o mundo acadêmico convive com essas divergências, naturais em qualquer ciência. O que não se justifica é usar esses pontos de grande controvérsia para elaborar questões alegadamente “objetivas”. Depois as bancas se queixam do grande número de recursos dos candidatos inconformados…

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