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vou estar verificando

Não seja injusto! O erro chamado de GERUNDISMO não é culpa do pobre gerúndio.

Numa coluna muito bem-humorada, ao falar dos operadores de telemarketing ― uma praga que faltou no Egito ―, Mário Corso apontava, com ironia, um peculiar emprego do gerúndio que eles propagaram país afora: “Não foi Machado, nem Pessoa, nem ao menos um criador de palavras como Guimarães Rosa quem nos trouxe o encontro triverbal. Nunca antes usamos três verbos juntos como nesse exemplo prosaico: vou estar verificando… Como chamar isso? Talvez o professor Cláudio Moreno possa nos dizer: seria promessa de gerúndio, ou presente gerundiado, ou ainda gerúndio do gerúndio?”. Ora, amigo Mário, nestas questões de Português sofro a mesma sina que o gênio de Aladim, pois não posso deixar de atender a quem fricciona a lâmpada da dúvida.

Embora esse tipo de erro seja chamado de “gerundismo”, ele não se origina no pobre gerúndio, mas sim em um dos vários recursos que a língua oferece para expressarmos a ideia de futuro. No Português atual (falo do Brasil, apenas), é mais usada a construção [ir +qualquer verbono infinitivo]: “Amanhã vou sair bem cedo”; “Desse jeito, vais perder o marido”. Em segundo lugar, a preferência fica simplesmente com o presente do indicativo do verbo: “Amanhã eu saio bem cedo”; “Desse jeito, perdes o marido”. Nossa terceira e derradeira escolha passou a ser, há muito tempo, o futuro do presente, quase extinto no uso comum: “Amanhã sairei bem cedo”; “Desse jeito, perderás o marido” (aliás, deve ter sido a raridade de seu emprego que levou o Pinheiro Machado, nosso Anonymus Gourmet, a escolher “Voltaremos!” como bordão de seu programa).

O outro ingrediente desta complexa mistura é a sequência [estar+gerúndio], usada para expressar uma ação continuada, seja no presente, no passado ou no futuro: “Estou tentando ligar”; “Ele estava pintando o muro”; “Quando chegares, estarei dormindo“. Pois aqui está: quando o auxiliar estiver no futuro, a tendência natural, como vimos acima, é substituí-lo pela locução formada de [ir+infinitivo]: “Quando chegares, vou estar dormindo“, “Na hora do jogo, vou estar dando aula” ― frases corretas, “corretíssimas”, como diria o José Dias de Machado.

Ora, o que nos faz rejeitar frases do tipo “vou estar verificando”? Há algo nela de esquisito, mas, como vimos, não é a sequência  [ir+estar+gerúndio], pois este “encontro triverbal” é construção prevista na estrutura da língua, empregada por vários autores que escrevem bem melhor do que nós. O problema, na verdade, é a incompatibilidade do verbo verificar com o verbo estar, já que não tem caráter durativo, mas pontual (“vou estar verificando” significa, no fundo, “vou verificar”). É o mesmo motivo que nos faz rejeitar “vou estar chamando um táxi” ou “vou estar enviando o relatório”, mas aceitar “venha, que vou estar esperando na porta” ou “quando você defender a tese, vou estar torcendo aqui em casa”.

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Destaque Sintaxe das classes gramaticais

“Águia DE Haia” ou “Águia DA Haia”?

Prezado Professor: a cidade de Haia é precedida de artigo em alguns idiomas que pesquisei  —The Hague (Ing.), La Haya (Esp.), La Haye (Fr.). Aqui, no entanto, está mais do que consagrado entre nós o uso desse nome SEM o artigo; todos diriam que Rui Barbosa é o “Águia DE Haia“, não o “Águia DA Haia“. Aborrece-me, na verdade, que alguns “descobridores da pólvora” apontem o dedo em riste e asseverem, inflexíveis, que o correto seria A HAIA. Embora os despreze, indago: há uma forma “mais certa” ou outra “menos certa”?

Luiz Fernando S. R. – Petrópolis (RJ)

 

Todos os que me lêem sabem o quanto custa, às vezes, encontrar o termo preciso, o mot juste dos franceses, a palavra que diz exatamente o que pretendemos dizer. Ora, assim como os personagens refinados da literatura jamais perguntam qual a classe social do herói que lhes salvou a vida, nós também não haveremos de hostilizar um desses vocábulos insubstituíveis, precisos e certeiros só porque ele pertence a uma faixa menos asseada de nossa linguagem. Não conheço melhor exemplo do que caga-regras, rótulo perfeito para essas aves intrometidas que volta e meia aparecem para dar suas bicadas em nosso idioma, deixando para nós, que somos do ramo, o trabalho de limpar a sujeira que fizeram. O Aurélio define o caga-regras como “pessoa que se julga sabichã, a dona da verdade”; o Houaiss, como “aquele que se julga melhor que os outros ou superior a eles e impõe ou quer impor sua vontade sem ter competência ou autoridade para tanto” (como o prezado leitor terá notado, a diferença de qualidade entre os dois dicionários é constrangedora).

Faço esse comentário porque nosso amigo Luz Fernando, ao que parece, anda sofrendo o assédio dessas incômodas caturritas que andam revoando por aí, apregoando a novidade de que o nome da cidade holandesa em que Rui Barbosa brilhou seria a Haia, e não Haia, simplesmente, como nós, os tolos, acreditávamos. “Embora os despreze”! Gostei de ver, Luiz Fernando! Essa é a atitude correta para com esses profetas recém-chegados, que pensam (no seu delírio) ter sido enviados aqui embaixo para reescrever a história e a tradição de nossa língua.

Para começar, não é possível definir, com rigor, quando se usará (ou não) o artigo antes dos nomes de lugar. Nós, no Brasil, dizemos na França, na África, enquanto nossos irmãos de além-mar preferem em França, em África. No corpo do mesmo poema, Camões ora usa Espanha com artigo, ora sem: “Somente sei que é gente lá de Espanha” e “Um Rei, por nome Afonso, foi na Espanha”. O padre Vieira, o Imperador da Língua, tanto escreve “tenho visto a Companhia em todas as cinco Assistências dela: na de Portugal, na de Espanha, na de França, na de Alemanha, e na de Itália”, quanto “os príncipes da Itália”, “os portos da França”, “setenta mil soldados da Alemanha”. Aqui mesmo há uma velhíssima pendenga entre os que dizem em Recife e os que defendem no Recife – e os dois lados têm lá sua razão. “Certo” e “errado”, aqui, são conceitos temerários. Tudo vai depender do momento histórico, da região, dos hábitos consagrados pela língua culta.

No caso de Haia, há uma nítida indecisão histórica. Até o séc. XIX nota-se uma preferência (especialmente nos autores portugueses) por a Haia – embora Francisco Manuel de Melo e Rocha Pita usem o nome sem artigo. Eça e Machado ainda preferem a Haia, mas Fialho de Almeida ora usa o artigo, ora o dispensa. No séc. XX, no entanto, a preferência por Haia, sem artigo, é esmagadora e revela o que se chama, em Lingüística, de “direção de tendência”. Uma simples passeada pelo Google encontrou mais de 250.000 ocorrências para Tribunal de Haia contra 50.000 para Tribunal da Haia; mais de 300.000 para Corte Internacional de Haia contra 60 (seis dezenas!) para Corte Internacional da Haia; 950.000 para Convenção de Haia contra 140.000 para Convenção da Haia; finalmente – e impressionante! – mais de um milhão para Águia de Haia contra 33 (a idade de Cristo!) para Águia da Haia… Um milhão contra trinta e três! Ainda bem! Se fosse chamado de Águia DA Haia, Rui Barbosa começaria a dar voltas no túmulo como uma piorra!

Esses dados nos permitem afirmar, sem hesitação, que pouco a pouco vai diminuindo o número daqueles que acham necessário o artigo antes do nome desta cidade. Não podemos dizer que eles estejam errados, é claro – mas hoje a forma preferível é SEM o artigo. É completamente despropositado que uma minoria em extinção procure condenar aquilo que a maioria culta já decidiu há muito tempo. Ah, outra coisa: lembro que, nesses casos, a posição que adotarmos quanto ao artigo vai naturalmente ter seus reflexos na crase. Quem não usa artigo vai a França, a África, a Haia; quem o usa, vai à França, à África e à Haia.

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Destaque Lições de gramática Sintaxe das classes gramaticais

Ao meu ver?

Caro Professor Moreno, escrevo para perguntar sobre uma dúvida que tive ao ler seu texto sobre “maiúscula após dois-pontos“, onde o senhor diz que “as regras que estipulam o seu emprego são poucas e (ao meu ver) equivocadas”. Não compreendi o uso de AO MEU VER, pois até onde sei, a forma correta é A MEU VER. Desde já agradeço a ajuda

Vitório  M. – Porto Alegre

Meu caro Vitório, eu já tinha ouvido falar nessa curiosa condenação do “ao meu ver”, mas não sabia de onde tinha partido essa lenda urbana. Andei campeando por aí e acho que localizei a fonte num velho professor paulista, de muito maus bofes e pouca ciência. Ele escreve um desses manuaizinhos do tipo “Não erre mais!”, cheio de dicas duvidosas, que são, como era de esperar, imediatamente divulgadas em milhares de pontos da internet.

Se o falante do Português tem a opção de usar, ou não, o artigo definido antes do pronome possessivo , por que cargas d’água só neste caso seria “proibido”? De onde ele tirou esse disparate? O que esse professor deveria dizer (e o conselho vale também para ti) é que ele “prefere” a forma sem artigo. Pois é bom ficar sabendo que outros preferem usá-lo, como, por exemplo, o velho Rui Barbosa (“Supondo por momentos a hipótese, aliás distante, ao nosso ver“; “Era uma ilusão desinteressada e generosa, mas, ao nosso ver, politicamente deplorável”), Aluísio de Azevedo (“sua modesta procedência, longe de fazer-lhe carga, dava-lhe até boas vantagens, ao meu ver“; “Leandro, pois, ao meu ver, nada por si só representava”), Emílio de Menezes (“Homem, ao meu ver – disse-nos o poeta – devemos todos…).

O mesmo se aplica, é claro, a locuções similares a essa, como EM/NO meu entender, A/AO meu modo, etc. No séc. XVI, Fernão Mendes Pinto e Rodrigues Lobo preferem usar o artigo (“celebravam grandes exéquias com pompas fúnebres, ao seu modo, muito custosas”; “fazem alguns ao seu modo, como um letrado”). Machado, bem mais recente, também usa: “No meu entender, é mesmo uma obrigação”; ‘A nova filha era, no seu entender, uma intrusa”). Em Portugal, fazem o mesmo Júlio Dinis (“Este silêncio é, no meu entender, de máxima significação”) e Garret (“As instituições monásticas eram, no seu entender, condição essencial”) — e por aí afora, que eu não vou perder o meu e o teu tempo com uma imensa relação de exemplos.

Como podes ver, Vitório, não são poucos — nem incultos — os usuários do idioma que optam pela presença do artigo. Foi essa liberdade de escolha que exerci; aliás, se confrontares “a meu ver” e “ao meu ver” no Google, verás que a segunda forma, com o artigo, tem o dobro de ocorrências da primeira. Isso não significa que ela seja a “vencedora” ou a “preferível” — mas deixa totalmente sem fundamento opiniões autoritárias como a desse manualzinho que envenenou tuas idéias. Abraço. Prof. Moreno

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Destaque Lições de gramática Sintaxe das classes gramaticais

colocação do pronome

Professor Moreno, encontrei isto de sua autoria:

“Em princípio, usamos (no Português Brasileiro) SEMPRE o pronome oblíquo  antes do verbo (próclise), a não ser nos casos em que o verbo inicie a frase  (o que deixaria, é óbvio, o pronome na cabeça da frase). Por isso, deves  preferir “o livro SE encontra” , “todos ME esperavam”, “eu ME confundo” – e assim  por diante. Toma cuidado, que a maioria das regras de colocação do pronome  que vais encontrar nas gramáticas veio de Portugal, que desenvolveu um  sistema prosódico diverso do nosso”.

Agora fiquei bastante confuso; eu sabia que a posição normal dos pronomes  oblíquos átonos é depois do verbo (ênclise); a próclise só seria usada quando  justificada por vários (o Senhor bem os conhece) motivos, e também sabia que  não existe língua brasileira; na verdade, a “nossa” língua é apenas uma  variação da língua portuguesa, sem no entanto haver diferenças nas regras. E  agora?”

Paulo César – Fortaleza


Meu caro Paulo César: confusas estão as nossas pobres gramáticas, que, com honrosas exceções, reproduzem, como bons papagaios desta luminosa Pindorama, as regras de colocação usadas em Portugal. Tens razão em dizer que todos os países lusófonos utilizam o Português, mas temos de distinguir, para fins de estudo sério, o PE (Português Europeu), o PB (Português Brasileiro) e o PA (Português Africano) – da mesma forma que se faz com o Inglês (britânico, americano, australiano, etc.).

A colocação do pronome oblíquo átono é um dos xibolês da lusofonia: enquanto os portugueses vivem usando a ênclise (para eles, os casos de próclise precisam ser motivados objetivamente), os brasileiros só usam a próclise, até mesmo no início da frase – o que exige aquela regrinha indispensável para quem ensina escrita culta: “não se inicia frase com pronome oblíquo” (isso para nós, simples mortais, porque os escritores já o fazem desde a Semana de Arte Moderna de 22). Jamais ouvirás (e a fala precede a escrita, não te esqueças …) um brasileiro correr atrás de sua amada dizendo “Espera-me! Ouve-me! Amo-te!”. Essa diferença entre nós e os portugueses, neste caso específico, é devida exclusivamente à realização fonológica  do pronome; em Portugal, diferentemente daqui, a vogal final se reduz tanto que o pronome praticamente se limita à consoante. O te de devo-te é realizado como um /t’/ – o que nos permite entender por que a preferência lusa recai em /devot’/, e não, como no Brasil,  /tidevo/.

Exatamente por essa diferença prosódica, nós, brasileiros, preferimos a próclise em qualquer situação; só não a utilizamos no início da frase porque há uma regra que o proíbe (isso na escrita, porque, na fala,  só se ouve “te vi, me encontra, nos viram, me pegaram“)*. Se fores, como parece, um leitor de gramáticas, vais ver que elas apresentam uma fantástica teoria para os casos de próclise, detalhando “regras” e mais “regras” para o seu emprego. Havia alguns birutas que falavam até na “atração” que algumas palavras exerceriam sobre os pronomes! Eu próprio, pequenino, lembro de perguntar à professora se tal palavra atraía ou não o pronome, e ela respondia que sim ou que não, compenetrada, honestamente acreditando naquela baboseira! Ora, se somarmos todos os “casos que exigem próclise”, como se diz por aí (em frase negativa, em frase interrogativa, em orações subordinadas, com o sujeito expresso, etc., etc.), praticamente não sobra nada – exceto aquela já referida estrutura em que a frase inicia pelo verbo: “devo-te“, “espera-me“. Não sei como, apesar de tudo isso, alguém ainda tem coragem de dizer que a posição “normal” do pronome é a ênclise. Enxergas o equívoco? Eles não perceberam que trocamos de hemisfério e que, conseqüentemente, certas verdades precisam ser adaptadas. Os ciclones, em Portugal, giram para a esquerda; os nossos giram no sentido do relógio. Um livro de Física, para ser utilizado aqui e lá, precisaria fazer essa indispensável adaptação. Uma gramática também. Abraço. Prof. Moreno

* aqui, em notinha reservada: é daí que vem o mifo, sifo, nusfo (que pronunciamos /mífu/, /sífu/, /núsfu/ e que todos sabemos muito bem o que querem dizer …

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Destaque Lições de gramática Sintaxe das classes gramaticais

filho morto FOI ou É?


Como vai, professor? Preciso de sua orientação para uma dúvida delicada que  surgiu aqui na emissora na hora de anunciar a morte de Jett Travolta: ele FOI filho do ator John Travolta (porque já morreu), ou ele É filho (porque, mesmo morto, nunca vai deixar de ser filho)? Como não sabíamos, acabamos apelando para aquela velha máxima jornalística que diz: “na dúvida, não há dúvida” e mudamos a estrutura da frase. Colocamos “O pai, John Travolta…”. Mas agora, aqui entre nós, qual seria a forma correta?

Bete – São Paulo

Prezada Bete, falar de um morto é sempre um problema espinhoso, principalmente  se for defunto recente, que ainda conserva vínculos muito fortes com este mundo. No entanto, dos tempos verbais possíveis, o que menos cabe é o presente do indicativo. Morto não “é”; depois de ter ido — com o devido respeito — ver a grama nascer por baixo, ele deixou de ser síndico do edifício, pensionista do INSS, marido, pastor ou ovelha do rebanho de nossa igreja, filho, pai, o que seja.

Em casos como este nosso idioma vacila entre o pretérito perfeito e o imperfeito do indicativo. A Bíblia usa muito “foi” (Fulano FOI pai de Beltrano), mas eu acho que a tendência natural (portanto, a mais fácil de ser aceita por quem a ouve ou a lê) é o imperfeito: Fulano ERA casado com…, ERA pai de …, ERA diretor da Escola de Samba …, ERA filho de … Inclusive, com a instabilidade cada vez maior dos relacionamentos, começa a se formar uma oposição entre FOI e ERA casado, que representa muito bem a diferença entre o tempo da ação pontual e o tempo da ação durativa: se eu leio que Fulano FOI casado com Y, automaticamente penso que, em algum momento de sua vida, ele e Y formaram um casal, mas que a relação já estava desfeita quando se deu o infeliz passamento; se, no entanto, leio que o falecido ERA casado com Y, vou visitar Y e apresentar-lhe as condolências que uma viúva merece.

De qualquer forma, como eu disse, é gelo fino, em que se deve pisar com toda a cautela. Uma saída é desviar do pedregulho, como vocês fizeram, mas, como tu mesma intuíste, isso nem sempre vai ser possível. Quando chegar um desses momentos, faz como eu e usa o imperfeito. Abraço.  Prof. Moreno

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Concordância Destaque Emprego das letras Etimologia e curiosidades - Respostas rápidas Lições de gramática Sintaxe das classes gramaticais

os seis melhor colocados

Professor, eu só leio a parte esportiva do jornal e não sou a pessoa mais indicada para achar erro nos outros. Confesso, porém, que fiquei cabreiro quando um grande  jornal de São Paulo noticiou que ia haver um torneio entre os “seis melhores colocados“. Isso não está errado? A gente não devia falar nos “seis mais bem colocados“?

Dejair F. L.  — Sorocaba (SP)

Meu caro Dejair, tua intuição está muito mais afiada que a do jornalista que escreveu essa pérola. Embora seja uma construção inadmissível na língua culta, todo dia aparece na imprensa algo como esse “Seis *melhores colocados” (lembro que o asterisco  assinala formas agramaticais). A dupla natureza do vocábulo melhor, no entanto, constitui uma atenuante para este equívoco; como a forma melhor corresponde ora a “mais bom”, ora a “mais bem”, cria-se aqui um daquelas encruzilhadas em que tanta gente boa acaba se perdendo. Vou mostrar.

Primeiro, com o sentido de “mais bom”,  melhor é ADJETIVO, com plural e tudo (melhores):

Este filme é [mais bom] que o anterior = Este filme é melhor que o anterior.
Os italianos são bons, mas os brasileiros são [mais bons] = os brasileiros são melhores.

Em segundo lugar, com o sentido de “mais bem”, melhor é ADVÉRBIO (e, como tal, invariável):

Jonas joga bem, mas o irmão joga ainda [mais bem] = o irmão joga ainda melhor.
Na casa nova, eles estão ainda [mais bem] do que estavam= melhor do que estavam

É muito raro um erro de concordância nominal nesses casos. Dificilmente alguém deixaria o adjetivo no singular em “Os italianos são bons, mas os brasileiros são *melhor“, ou tentaria flexionar o advérbio em “Na casa nova, eles estão ainda *melhores do que estavam”. No entanto, é na situação que já descrevi em mais bem e melhorantes de um particípio — que o perigo nos espreita. Como devemos preencher a lacuna nas frases abaixo? Com melhor ou com melhores?

Ele escolheu as dez cadeiras   …….  pintadas.

Agora só vão jogar os quatro  …….. colocados.

Que tipo de vocábulo vai entrar nessa estrutura? Será o  ADJETIVO melhor [mais bom], que é variável, ou o ADVÉRBIO melhor [mais bem], que é invariável ? A resposta é simples: o ADVÉRBIO.

Ele escolheu as dez cadeiras mais bem pintadas = as dez cadeiras melhor pintadas.
Agora só vão jogar os quatro  mais bem colocados = os quatro melhor colocados.

Não há hipótese de imaginarmos, aqui, a presença do ADJETIVO:

Ele levou as dez cadeiras *mais boas pintadas = as dez cadeiras *melhores pintadas.
Agora só jogam os quatro  *mais bons colocados = os quatro *melhores colocados.

Na imprensa, estes erros pulam como camarão em terra seca. Um bom jornalista, contudo, deveria ser capaz de perceber que são duas estruturas diferentes:

(1) Agora só vão jogar os quatro mais bem classificados.
(2) Agora só vão jogar os quatro melhor classificados.
(3) Agora só vão jogar os quatro melhores times.
(4) *Agora só jogam os quatro melhores classificados.

As frases (1) e (2) são sinônimas; ambas estão corretas, mas eu só uso a primeira, pois a segunda soa muito mal para meu gosto (o que explica, aliás, por que nosso idioma aceita naturalmente a forma analítica “mais bem” antes dos particípios). A frase (3) está correta, pois agora não se trata do ADVÉRBIO, mas sim do ADJETIVO melhor (“os quatro times mais bons“). A frase (4) não tem defesa, pois a estrutura de nossa língua não comporta aquele ADJETIVO (“melhores”) ligado a um particípio.

 

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Destaque Flexão nominal Formação de palavras Lições de gramática Sintaxe das classes gramaticais

interpretação dos vocábulos compostos

Professor Moreno: li sua explicação sobre o plural dos compostos. Concordo que, em vale-compras,  a palavra vale seja substantivo. Mas acho que ela também pode ser interpretada com verbo (isso vale uma compra). Dessa forma, as duas formas (vales-compra e vale-compras) não deveriam estar corretas?

Ademar Q. – Goiânia

Meu caro Ademar, a tua pergunta bate exatamente no prego: é tão fluida a natureza de nossos vocábulos compostos que são poucas as afirmações definitivas que podemos fazer sobre eles – ao contrário dos vocábulos simples, muito mais fáceis de sistematizar, cujo comportamento segue princípios que o falante termina “adivinhando”. Nos substantivos do Português, por exemplo, é bem definida a oposição entre o plural, marcado pelo “S”, e o singular, reconhecido exatamente pela ausência dele. Não nos incomodamos com os raríssimos substantivos que têm o “S” mesmo no singular (como pires ou lápis), embora falantes mais simples, sem instrução, muitas vezes interpretem essas formas como pertencentes ao plural e criem aqueles ingênuos singulares que nos fazem sorrir: “*quebrei um pir“, “*perdi meu lápi” (análogo a faquir, faquires e táxi, táxis). Deves perceber que esses erros não se devem ao desconhecimento da regra do plural, mas sim à interpretação errônea dos fatos lingüísticos.

A importância dessa interpretação, por parte do falante, é decuplicada no caso dos compostos. Como eu fiz questão de frisar no artigo que mencionas, os compostos não são carne, nem peixe: eles ficam num limbo intermediário entre um vocábulo simples e unitário (como cadeira, palha) e um elemento da estrutura sintática, formado por vários vocábulos (como “cadeira de palha“). Graficamente, um composto atua como um vocábulo uno, pois fica isolado entre dois espaços em branco; ora, por que não acrescentamos, simplesmente, um “S” no final de guarda-noturno, pé-de-moleque, horaaula, formando *guarda-noturnos, *pé-de-moleques e *hora-aulas? Exatamente porque sentimos a presença da estrutura sintática que lhe deu origem. Fazemos guardas-noturnos porque temos aí uma banal seqüência de um substantivo acompanhado de seu adjetivo modificador; fazemos pés-de-moleque porque estamos flexionando o núcleo de um antigo sintagma nominal (como cartas de baralho, flores de papel, etc.); fazemos horas-aula pela mesma razão, já que a presença do substantivo à direita, agindo como especificador (“aula”), é explicada pela estrutura subjacente “horas de aula”.

Quando vamos operar com um vocábulo composto, essa “desmontagem” mental pode variar de um falante para o outro, criando-se assim diferentes conseqüências flexionais. Se eu decompuser vale-refeição como “vale uma refeição”, terei enxergado aqui uma estrutura [verbo + substantivo] — análoga a tira-gosto, quebra-pedra, porta-estandarte —, que só poderá ser flexionada no substantivo: vale-refeições. Se, no entanto, eu interpretá-lo como “um vale destinado à refeição”, ele terá a estrutura [substantivo+ especificador] – análogo a operário-padrão, hora-aula -, que só deve ser flexionada no primeiro elemento: vales-refeição.

No caso particular de vale-compra, vale-refeição, etc., repito que opto sempre pela interpretação [substantivo + especificador], com o conseqüente plural vales-compra, vales-refeição. A meu ver, este vale que aqui é uma substantivação formada a partir do verbo valer: o papel onde se escrevia (e ainda se escreve) “vale um refrigerante”, “vale cem reais”, “vale uma entrada para o domingo”, etc. passou a ter esse nome, assim como aconteceu com o habite-se ou o atenda-se.

Além disso, quando um composto é formado de [verbo + substantivo], sempre pressupomos um sujeito que complete essa estrutura: porta-estandarte é, no fundo, “alguém que porta o estandarte”; bate-estaca é “um aparelho que bate a estaca”. Isso impede que façamos uma referência abreviada ao composto, usando apenas o seu primeiro elemento (“*lá vem o porta“, “*ouça o bate“), o que pode, no entanto, ocorrer em compostos cujo núcleo é um substantivo: o guarda-civil, o guarda; o mestre-escola, o mestre; o vale-transporte, o vale; e assim por diante.

Sempre que encontrares dúvida ou hesitação na flexão de um composto, podes ter certeza de que isso foi motivado pela possibilidade, naquele determinado caso, de uma dupla interpretação sintática de seus elementos constituintes. Abraço. Prof. Moreno

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Concordância Destaque Emprego dos pronomes Lições de gramática Sintaxe das classes gramaticais

“você” é 2ª ou 3ª pessoa?

Prezado professor Moreno: tenho uma dúvida quanto ao uso dos possessivos. Aqui em Minas Gerais usamos sempre o você em lugar do tu, fato que gera várias confusões e ambigüidades com o uso simultâneo da 2ª e da 3ª pessoa. Eu tento manter a uniformidade pronominal, mas há uma situação em que ainda fico em dúvida: quando estou me dirigindo a dois interlocutores e quero me referir a um objeto que pertence a ambos, que pronome possessivo devo usar? Já ouvi dizerem “O carro de vocês está com o pneu furado”; na fala popular, ouvi “Seus carro está com o pneu furado” (ai, que dor no ouvido!); sei também que se pode empregar o pronome da 2ª pessoa do plural (nunca usado por aqui): “Vosso carro está com o pneu furado”. Este “de vocês” pode ser considerado correto segundo a norma culta? Ou só se admitiria o “vosso carro”?

Juarez A. –  Pedro Leopoldo  (MG)

Meu caro Juarez, acho indispensável começar por uma importante distinção: as pessoas do discurso não são as mesmas pessoas gramaticais. As pessoas do discurso se definem por sua posição no ato comunicativo: a 1ª pessoa é a que fala (eu, nós); a 2ª, com quem eu falo (tu, vós, você, vocês, o senhor, etc.); a 3ª é de quem eu falo (ele, eles). Nota que, por esta classificação, você é uma das opções que nosso idioma oferece para designar a pessoa com quem estamos falando – a 2ª pessoa do discurso, portanto. Como tu mesmo observaste, uns tratam seu interlocutor de tu, outro preferem usar você. A escolha é livre.

As pessoas gramaticais, por sua vez, é que nos dizem qual a flexão verbal que vamos usar, que pronome oblíquo vamos selecionar, e assim por diante. Se compararmos “Tu te arrependeste de tua escolha” com “Você se arrependeu de sua escolha”, veremos que o tu é acompanhado de formas da pessoa gramatical (te, arrependeste e tua), enquanto o você corresponde a formas da pessoa gramatical (se, arrependeu e sua). Aqui se encontra a fonte das confusões que descreveste: você é um  pronome da 2ª pessoa do discurso, mas usa (como todos os pronomes de tratamento) as formas da 3ª pessoa gramatical: “Você deve se orgulhar de seu filho” (assim como “Vossa Majestade pode se orgulhar de seu filho”). Só utilizaremos o possessivo vosso, portanto, quando a forma de tratamento escolhida for vós, cujo emprego (atualmente) ficou restrito a textos religiosos (“Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco, bendita sois vós entre as mulheres, bendito é o fruto em vosso ventre, Jesus”).

Vamos, agora, ao teu problema específico –  como se referir a um só objeto que pertence a vários interlocutores. Não esqueças que o pronome possessivo do Português sempre concorda com o substantivo que representa a coisa possuída (diferentemente do Inglês, em que concorda com a pessoa do possuidor). João tem um carro; ele guardou seu carro. João tem dois carros; ele guardou seus carros. João e Maria têm um carro; eles guardaram seu carro. João e Maria têm dois carros; eles guardaram seus carros. Vocês têm um carro; vocês guardaram seu carro. (Falando com dois irmãos): “Vocês devem agora falar com seu pai“. “Vocês deveriam passar mais tempo com sua família“. Como podes ver, não interessa se o possuidor é singular ou plural, mas sim o número da coisa possuída. Para você e os demais pronomes de tratamento, o possessivo correspondente é seu, sua, seus, suas; a forma a ser usada dependerá do substantivo que eles acompanham. No exemplo que enviaste, portanto, o uso culto oferece duas opções: “Seu carro está com o pneu furado” ou “O carro de vocês está com o pneu furado”. Abraço. Prof. Moreno

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Lições de gramática Sintaxe das classes gramaticais

guardadas as proporções

Regina A. escreve de Rosário, Argentina, para perguntar sobre a frase “Guardado exageros e sonhos, o resto estava…”. Diz ela: “Gostaria que o senhor me explicasse este guardado e me dissesse que classe gramatical e função sintática tem”. 

Prezada Regina: tens certeza de que era assim mesmo que estava no texto? Digo isso porque há um erro de concordância nesta frase; o correto seria “Guardados exageros e sonhos, o resto estava …”. Guardados é o particípio do verbo guardar, usado aqui naquela construção que os latinos chamavam de “ablativo absoluto”; modernamente costumamos ver aqui uma oração adverbial reduzida. Exemplos similares seriam “feitas as contas”, “encerradas as discussões”, etc.

 O problema da frase que enviaste é a inadequação do verbo guardar. Quando escrevo “guardadas as proporções”, estou dizendo algo como “Se guardarmos as proporções”. Mas o que o autor queria dizer com “guardados os exageros e sonhos”? Certamente não era “se guardarmos os exageros e sonhos”; acho que ele queria usar “ressalvados os exageros e os sonhos” — e sua memória forneceu-lhe o vocábulo errado. Abraço. Prof. Moreno

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Lições de gramática Sintaxe das classes gramaticais

do/de Paulo

Renato de Mendonça gostaria de esclarecer se estão corretas as três formas da seguinte frase: (1) A casa é do Paulo, da Renata e do Marcelo. (2) A casa é do Paulo, Renata e Marcelo. (3) A casa é de Paulo, Renata e Marcelo.

Meu caro Renato: o leque deve ser ampliado para quatro opções: (1) A casa é DO Paulo, DA Renata e DO Marcelo. (2) A casa é DE Paulo, DE Renata e DE Marcelo. (3) A casa é DO Paulo, Renata e Marcelo. (4) A casa é DE Paulo, Renata e Marcelo.

A diferença entre 1 e 2 é a mesma que existe entre 3 e 4: usar ou não o artigo antes do nome próprio, o que é uma escolha livre para o falante. A diferença entre 1 e 2, de um lado, por oposição a 3 e 4, do outro, é mais gritante: em 1 e 2, estamos mantendo o paralelismo, repetindo a preposição antes de cada item. Em 3 e 4, usamos apenas a preposição no primeiro item da relação. Embora estas duas últimas formas sejam aceitas modernamente, se quiseres ser mais formal deverás ficar com as duas primeiras. Eu, particularmente, uso sempre a número 1. Abraço. Prof. Moreno