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nenhuns

A leitora Frederica W. escreve de lugar não identificado para dizer que levou um susto quando encontrou em Mia Couto, seu autor do momento, a frase “Caiu sem nenhuns sentidos“. Bem-humorada, ela acrescenta: “Não vou perguntar se isso está certo; afinal, se ele escreveu assim, é porque pode — mas bem que eu gostaria de uma explicação para suavizar o golpe…”

Prezada Frederica, este nenhuns que estranhas é o polo oposto do pronome indefinido alguns. Ele sempre esteve lá, em todas as gramáticas, mas uma coisa é vê-lo arrumadinho numa lista de pronomes, onde parece inofensivo como uma aranha espetada num tabuleiro de museu, e outra é vê-lo assim, ao vivo, com cara de que já vai saltar sobre nós.

Se fosses portuguesa, nem terias notado este plural, porque ele continua bem vivo na terra de nossos avós. Em Lisboa, uma campanha publicitária proclama que “Lenços há muitos, mas nenhuns como estes”; um fórum da internet registra, abaixo de uma postagem: “Nenhuns comentários”; no belíssimo fado Partindo-se, que põe em música um poema do séc. XV, Amália Rodrigues canta: “Senhor, partem tão tristes/ Meu olhos por vós, meu bem/ Que nunca tão tristes vistes/ Outros nenhuns por ninguém”.

Antes que alguém pense que se trata de uma dessas inovações “suspeitas” da língua falada, lembro que nenhuns figura abundantemente na obra de escritores importantes como Gil Vicente, Camões, Vieira, Garret, Alexandre Herculano, Júlio Dinis, Eça de Queirós, Mário de Sá Carneiro, entre muitos outros.

Deste lado do Atlântico, contudo, sua sorte foi diferente. Este plural chegou a ser usado por Capistrano de Abreu, José Veríssimo, Rui Barbosa, Euclides da Cunha (“duzentos homens válidos, talvez sem recursos nenhuns“) e até mesmo pelo grande Machado de Assis (“Não eram os primeiros versos que escrevia à moça, mas não lhe entregara nenhuns“; “nenhumas relações estreitas existiam entre mim e ela”), mas não soube bem ao paladar brasileiro, que terminou aposentando-o.

Qualquer um de nós diria “não posso indicar nenhum restaurante” — ou, para os mais elegantes, “não posso indicar restaurante algum“. Já “não posso indicar nenhuns restaurantes” parece um daqueles plurais de brincadeira do saudoso comediante Mussum — de quem muito me lembro, quando vejo na TV a chamada para (mais) um programa de culinária, em que o chef, que tem a figura ideal para representar o personagem Queequeg, o arpoador do filme Moby Dick, tropeçou ao formar o plural de mel. Em vez de optar entre méis (minha preferida) ou meles, ambas dicionarizadas, saiu-se com um impossível mels — concorrendo com Mussum, que chamava qualquer birita (“biritis”, para ele) de , forma reduzida de mel, que ele flexionava sabiamente no plural mézis.

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Concordância em concurso

A questão pedia para assinalar a alternativa com erro de concordância. Segundo a banca, a frase com erro seria “Tanto aos capitalistas mais liberais quanto aos socialistas mais ortodoxos parecem de pouca importância o que não diz respeito ao campo estrito da economia”, mas não entendi por quê. Sujeitos ligados por “tanto.. quanto…” não levam o verbo para o plural?

A frase que marquei como errada foi  “Superaram-se, sim, no campo da técnica todas as expectivas, mas também se registre que todas as desigualdades sociais se agravaram”, porque acho que o pronome indefinido “todas” pediria o verbo no plural.

Patricia F. — Osasco, SP

___________________________

Cara Patrícia: sinto muito, mas a frase apontada pela banca realmente está errada. O verbo parecer deveria estar no singular, já que o sujeito é “o que não diz respeito ao campo estrito da economia“. Na ordem direta, fica “O que não diz respeito ao campo estrito da economia parece de pouca importância tanto aos capitalistas mais liberais quanto aos socialistas mais ortodoxos”.

O tanto e o quanto, aqui, não têm a menor importância para a concordância, simplesmente porque introduzem objetos indiretos (“tanto aos capitalistas“, “quanto aos socialistas“) — e não sujeitos.

Sinto dizer-te, também, que está corretíssima a concordância dos dois verbos da frase que assinalaste como incorreta: “Superaram-se, sim, no campo da técnica, todas as expectivas, mas também se registre que as desigualdades sociais se agravaram”. São dois casos de voz passiva sintética; o sujeito de “superaram-se” é “todas as expectativas”, e por isso ele está no plural; o de “se registre” é a oração seguinte (“que as desigualdades sociais se agravaram”) — e, como em qualquer caso de sujeito oracional, o verbo fica no singular.

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Concordância Destaque Flexão nominal Lições de gramática Lições de gramática - Respostas rápidas

Um balaio de femininos

Assim como já fizemos com os plurais, aqui vai um balaio contendo vinte respostas rápidas sobre o feminino em nosso idioma.

 

elefanta, elefoa

Janaíne, de Belo Horizonte, quer saber se o feminino de elefante é elefanta ou elefoa. Diz que já assistiu a vários programas de televisão que consideram elefoa, mas nas gramáticas que consultou ela encontrou elefanta.

RESPOSTA — Minha cara Janaíne: nos textos clássicos não há registro algum de elefoa; alguns autores utilizam o feminino aliá, mas é um vocábulo oriundo do Ceilão e só se aplicaria ao elefante indiano. Tanto na linguagem culta quanto na usual a forma soberana é elefanta.

 

feminino de réu?

Fábio R. ouviu de uma colega que a mãe dela “poderia tornar-se ” num processo judicial, e quer saber se isso está correto — ou seria réu, ainda que se trate de uma mulher?

RESPOSTA — Meu caro Fábio: claro que existe o feminino! “Esta companhia é em doze processos trabalhistas”, “O juiz condenou a a dois anos de detenção”. Isso tu encontras em qualquer dicionário! Agora, em termos genéricos, falando nos dois pólos do processo, a mãe de tua amiga poderá figurar como réu: “Quem é o autor? A senhora Fulana de Tal. Quem é o réu? A senhora Beltrana dos Anzóis”.

 

anfitriã ou anfitrioa

O leitor Ubiratan diz que sempre tem ouvido anfitriã, mas que a forma anfitrioa lhe parece mais correta. E eu, o que penso?

RESPOSTA — Meu caro Ubiratan: tanto pode ser anfitrioa quanto anfitriã. Essa indefinição é uma das características dos nomes em –ão, que apresentam flexões variadas, ora em gênero, ora em número. Só para exemplificar, dei uma recorrida no Aurélio XXI e catei alguns vocábulos que admitem a variante em “-oa , além de -ã: anfitrioa, alemoa, ermitoa, faisoa, tabelioa, teceloa, viloa. Minha intuição lingüística me diz, entretanto, que as formas em são consideradas hoje mais cultas que as outras: anfitriã, alemã, ermitã, vilã.

 

tigresa

Flávio S. escreve sobre o feminino de tigre. Segundo ele, o Aurélio diz que é tigresa, porém seu professor discorda, afirmando que é “tigre fêmea“. Qual é o correto?

RESPOSTA — Meu caro Eduardo: tanto o Aurélio quanto o Houaiss registram tigresa como um feminino possível para tigre. Talvez essa forma tenha sido importada do Espanhol, onde ela é de uso comum, mas isso não importa. Tradicionalmente, aparece muito o “tigre fêmea”, mas o séc. XX viu também o incremento do uso do feminino sufixado. Escolhe o que te aprouver.

 

auto-elétrica

Adalberto, de São Paulo, diz que tem muita admiração pelo Sua Língua e aproveita para me dar os parabéns. Gostaria também de saber qual é o correto, se é auto-elétrico ou auto-elétrica.

RESPOSTA — Meu caro Adalberto: auto-elétrico é um adjetivo composto, do mesmo tipo que médico-cirúrgico. Como tal, ele vai concordar com o substantivo a que estiver ligado, flexionando sempre o segundo elemento do composto: tratamento médico-cirúrgico, clínica médico-cirúrgica, plantões médico-cirúrgicos. Da mesma forma, serviços auto-elétricos, oficinas auto-elétricas. Na rua, geralmente vemos auto-elétrica porque aqui se pressupõe claramente o vocábulo oficina (o mesmo substantivo feminino que está por trás da concordância de “retificadora de motores”, “vulcanizadora de pneus”, etc.

 

feminino de Reitor

Acir C., de Ponta Grossa (PR) pergunta: “Em nossa universidade surgiram algumas polêmicas e ninguém chegou a conclusão alguma. Nosso Reitor é um homem. A vice dele é uma mulher. Como ela deve ser chamada? Vice-Reitor ou Vice-Reitora? As mulheres são pró-reitores ou pró-reitoras?”

RESPOSTA — Prezado Acir, vejo que o machismo aí é pior do que em meu estado, o Rio Grande do Sul! Na UFRGS, tivemos, há pouco tempo, uma reitora; ela indicou vários pró-reitores e várias pró-reitoras. Com a inevitável ascensão da mulher, todos os cargos estão sendo flexionados no feminino: temos desembargadoras, senadoras, prefeitas, reitoras, juízas, promotoras (dá uma lida em Existe generala?). O que as mulheres daí dizem dessa polêmica?

 

gênero de omelete

Valquíria C., de São Bernardo do Campo, tem uma dúvida para qual ainda não encontrou resposta: deve dizer “vou fazer um omelete ou uma omelete”?

RESPOSTA — Minha cara Valquíria: embora o Houaiss omelete como sendo indiferentemente masculino ou feminino, prefiro seguir a lição do mestre Aurélio e considerar o vocábulo como feminino; não foi por acaso que a variante que se formou (e que ambos os dicionários registram) é omeleta. Portanto, fica com “vou fazer uma omelete” — e bom proveito.

 

gênero de “marmitex”

As professores Lena e Nilma F. perguntam se marmitex é palavra masculina ou feminina, formada por derivação de marmita.

RESPOSTA — Minhas caras: Marmitex, que eu saiba, não é palavra, mas uma marca comercial de papel aluminizado e afins (certamente derivada de marmita). Qual é o gênero? Não sei, porque a concordância, em casos como esse, é feita com relação ao objeto designado. Se for uma dessas “quentinhas” de alumínio, seria então “uma marmitex” — do mesmo modo que “uma gilete” (lâmina), “um modess” (absorvente), “uma havaiana” (sandália) — todas elas tradicionais marcas da indústria.

 

numeral no feminino

Alguém (ou algo) chamado Mweti, extremamente gentil, pergunta se o numeral 31.202, na frase “Durante o ataque, 31.202 mulheres foram feridas”, deveria ser lido “trinta e UMA mil, duzentas e duas mulheres”.

RESPOSTA — Prezado Mweti (?): tua intuição está correta; “trinta e uma mil mulheres” + “duzentas e duas mulheres” = “trinta e uma mil, duzentas e duas mulheres”.

 

feminino de beija-flor

Renata M. escreve da Virgínia, nos EUA, perguntando se a palavra beija-flor possui feminino, e por quê.

RESPOSTA — Minha cara Renata: não, beija-flor não tem feminino. As pessoas (e, conseqüentemente, o idioma) não distinguem os sexos das aves, exceto aquelas que, pela importância econômica (produção de ovos, por exemplo), precisam ser separadas em machos e fêmeas: pato, pata; galo, galinha; peru, perua; marreco, marreca. As demais — garça, pardal, ticotico, bem-te-vicurrupião, pintassilgo, águia, etc. — são tratadas como sendo de um só gênero. Às vezes hesitamos na hora de determinar o gênero de uma delas, mas isso é outra coisa: uns dizem um, outros uma sabiá, mas vão usar consistentemente a sua opção tanto para machos quanto para fêmeas.

 

plenário, plenária

O leitor Rosalino pergunta a diferença entre plenário e plenária.

RESPOSTA — Prezado Rosalino: Plenário é a sala onde se reúnem os parlamentares, os deputados, etc. (“Muitos servidores públicos lotavam o plenário da Assembléia“). Plenária é uma forma reduzida de referir-se a uma reunião: “Poucos professores participaram da [reunião] plenária de ontem à noite”.

 

búfala

Cleide A., de São Paulo, relata uma discussão com os amigos, numa pizzaria: “O correto é pedir pizza de mozarela de búfala, como está no cardápio, ou mozarela de búfalo? Logo alguém alegou que búfalo não tem feminino…”

RESPOSTA — Prezada Cleide: como não tem feminino? Claro que tem! É búfala, mesmo. Cuidado quando olhares no dicionário: quando ali diz “s.m.”, isso não significa que não tenha feminino. Basta procurar aluno, ou menino, e vais ver que o dicionário apenas diz qual é o gênero desta forma que encontraste — mas isso não se refere à  existência ou não da forma feminina. O Houaiss registra, com todas as letras, no verbete búfalo: “Fem.: búfala”.

 

muito dó

A leitora Tânia C., gaúcha, mantém uma discussão cordial com alguns amigos mineiros, que juram que a palavra (“pena”) é do gênero feminino, empregando expressões como “tenho uma de fulano” ou “me dá uma daquelas”. Qual é a forma correta?

RESPOSTA — Minha cara Tânia: , no sentido de “pena, piedade”, é um substantivo masculinotanto na opinião do Houaiss, como na do Aurélio, nossos dois dicionaristas mais abalizados. Aliás, a quase totalidade dos oxítonos em Ó são masculinos, como xodó, cipó, , etc., o que me faz estranhar muito essa tendência de certos estados do país (não é só Minas…) usarem como feminino. A única explicação seria uma confusão semântica com pena, a partir de analogias do tipo “estou com muita pena” = “estou com *muita dó“.

 

o gride de largada

Milton Sebastião pergunta sobre o gênero da palavra grid: é masculino ou feminino? Usamos O grid ou A grid?

RESPOSTA — Prezado Milton: embora alguns (poucos) usem o feminino, talvez por associarem a grade, a esmagadora maioria dos brasileiros (na informática, na cartografia, no automobilismo) usa o vocábulo como masculino (o grid, ou, como vai terminar ficando, o gride). É como substantivo masculino que o vocábulo vem registrado no dicionário Houaiss.

 

gênero de paradigma

Rita, de Belo Horizonte, que trabalha em um escritório de advocacia, escreve para dizer que o seu chefe, ao falar de um acusado, costuma dizer que ele é um paradigma; se for uma acusada, diz que ela é uma paradigma. “Afinal, paradigma é um substantivo de dois gêneros?”

RESPOSTA — Prezada Rita: se entendi bem, o problema é saber se paradigma se comporta como analista: um analista, uma analista. Ora, é claro que não; paradigma, como testemunha, é vocábulo de um gênero só: ele é uma testemunha, ela é uma testemunha; ele é um paradigma, ela é um paradigma.

 

formanda

Renato G., de Porto Alegre, reclama que o Aurélio, tanto quanto o Houaiss, indicam o verbete formando como substantivo masculino. Pergunta: “Devo falar nos convidados do formando ou da formanda Denise?”

RESPOSTA — Meu caro Renato: este é um cacoete de nossos dicionários. Eles registram os substantivos no masculino singular (o que é boa técnica), mas insistem em especificar, a seguir, “s.m.” — como se esse fosse o único gênero que o vocábulo admite. Examina aluno e cantor , por exemplo, e vais encontrar essa indicação defeituosa. Eles deveriam indicar que o vocábulo tem os dois gêneros, ou limitar-se a indicar “s.m.” e “s.f.” quando se tratasse de substantivo de um só gênero. É claro que existe formanda, assim como formandos e formandas.

 

gênero de mascote

A leitora Vera H. vem gentilmente perguntar se mascote é masculino ou feminino.

RESPOSTA — Minha cara Vera: mascote é um substantivo feminino; “aquele carneiro é a mascote do regimento”, “o papagaio era a mascote preferida dos indígenas”, e assim por diante. Assim vem no Houaiss e no Aurélio; acho que há, contudo, uma forte tendência a considerar este substantivo como um comum-de-dois, como estudante (O mascote, A mascote), dependendo do gênero do animal a que se refere. Em breve os dicionários vão ter de registrar essa dupla possibilidade.

 

masculinos terminados em A

Kleber S. escreve de Hannover, Alemanha, indagando sobre substantivos masculinos que terminam em A. Diz ele: “Conheço uma exceção clássica como planeta e sei que existem aqueles que se aplicam aos dois gêneros, como pateta. Existe algum outro substantivo masculino terminado em a ou feminino com final o?”.

RESPOSTA — Meu caro Kleber: existem vários substantivos masculinos terminados em A: planeta, cometa, mapa, tapa, tema, diadema, sofisma, diagrama, telefonema, aneurisma, etc. — muitos deles, não por acaso, considerados femininos até o século XVI (Camões usava escrever “A cometa”, “A planeta”). Agora, femininos em O são raríssimos; temos tribo, libido e reduções de vocábulos maiores, como foto e moto.

 

arquiteto, arquiteta

Escreve a leitora Gabriela A.: “Bondoso Professor, gostaria de esclarecer a seguinte dúvida: arquiteto é um substantivo exclusivamente masculino? Posso escrever que uma mulher é uma renomada arquiteta, ou essa palavra não é usada no feminino?

RESPOSTA — É evidente, dona Gabriela, que arquiteto é um substantivo masculino, mas arquiteta é a forma feminina correspondente! “Fulana é uma renomada arquiteta“, é claro. Esse é um erro técnico de nossos dicionários: registrar, ao lado dos substantivos de dois gêneros, a rubrica s.m., entre parênteses. Olha em qualquer dicionário e vais encontrar “aluno (s.m.), “lobo (s.m.)”, dando a falsíssima impressão de que eles só têm uma forma — quando, sabes muito bem, o Português tem aluna e loba desde o séc. 12. Só na França, por uma dessas coisas inexplicáveis, os substantivos ligados a profissões não admitem feminino — mas as francesas já estão fazendo um movimento bem aguerrido para terminar com essa discriminação.

 

a cal

Fábio M., de Juiz de Fora (MG), entregou um trabalho seu para ser revisado e ficou em dúvida quanto a uma correção feita pela professora de Português: “Escrevi que O cal era utilizado na indústria para neutralização química, e ela modificou para A cal. Gostaria de saber sua opinião”.

RESPOSTA — Ora, Fábio, a “minha opinião” é que a razão está com a professora que te corrigiu. Todos os dicionários dão cal como substantivo feminino (ao contrário de sal, por exemplo, que é masculino). É por isso que se fala em cal hidratada, cal viva, etc.


Depois do Acordo:

pólos>polos
lingüística> linguística
conseqüentemente>consequentemente
Assembléia>Assembleia

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concordância com o sujeito deslocado

Parece mentira, mas uma banal alteração na ordem dos elementos da frase provoca um dos erros mais comuns de concordância verbal

 

Falta só dois reais“, diz o rapaz da livraria, enquanto procura nos próprios bolsos o troco que não tinha no caixa. Levanto os olhos para ele e hesito; uma vida toda como professor de Português me deu uma grande sem-cerimônia em corrigir o que os outros falam de errado, mas a experiência também me ensinou que nem todos aceitam de bom grado uma lição gratuita. Recebo as duas moedas e me afasto, pensando que, ao menos, nem tudo estava perdido, já que ele não disse o  *dois real de sempre. Eu compreendo o que ocorreu: tenho certeza de que o balconista sabe (conscientemente ou não, ele sabe) que o verbo deve combinar com o sujeito, nesse fenômeno que chamamos de concordância. Não se trata de caprichar a linguagem que ele está usando; é muito mais profundo. Ele nasceu dentro dessa língua e dentro dela virou gente; logo, este princípio está gravado tão claramente em algum ponto de seu sistema nervoso quanto os comandos que permitem que ele alterne os pés para caminhar para a frente. Ora, como é que algo tão elementar e fundamental pôde ser desconsiderado, a ponto dele usar *falta em vez de faltam? É muito simples: ele  não   “enxergou”  o sujeito.

Talvez esta seja a maior fonte de erros de concordância no Português. Estamos acostumados a encontrar  o sujeito no começo da frase; quando ele é deslocado para uma posição À DIREITA do verbo, é muito provável que o  confundamos com os complementos. Quando escrevemos, com todo aquele tempo que temos para refletir e revisar, um exame um pouco mais detalhado da estrutura identifica o sujeito; a maioria das pessoas, contudo, deixa de fazê-lo, cometendo esse tipo de erro. Veja os exemplos abaixo, todos com erro de concordância; como as expressões em destaque são o SUJEITO da frase, o verbo deveria estar no plural em todas elas:

* No ano passado teve início as conferências.
* Foi anunciado, em São Paulo, os nomes que compõem o Ministério.
* Ficou provado, desta forma, as tentativas de suborno.
* Espero que seja explicado para todos nós as razõe de sua atitude.

Este erro é ainda mais freqüente com aquele pequeno grupo de verbos que normalmente têm o sujeito à sua direita: EXISTIR, OCORRER, ACONTECER, FALTAR, RESTAR, SOBRAR, BASTAR, CABER. Entre os exemplos abaixo, em que os elementos em destaque são o SUJEITO da frase, encontramos o erro de nosso balconista:

Faltam dois reais.
Existem aí coisas horríveis.
Bastam dois comprimidos.
Sobraram três fatias.
Ocorreram fenômenos inexplicáveis.

Após o Acordo: freqüente > frequente

FAÇA OS TESTES E VEJA AS RESPOSTAS COMENTADAS:

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Testes sobre verbos impessoais – Respostas comentadas

[RESPOSTAS DOS TESTES PUBLICADOS AQUI]

 

1 – Em (A), temos a estrutura tratar-se de, o que exclui a possibilidade de “pessoas honestas” ser o sujeito. Em (C), o verbo fazer não poderia estar no plural porque indica um fenômeno da natureza, sendo, portanto, considerado impessoal. Em (D) e (E), o verbo haver está em seu emprego clássico de verbo impessoal; “quatro semanas” e “imprevistos” são considerados meros objetos diretos. A resposta é (B); o verbo haver está no singular por ser impessoal.

2 -Temos, em (B), o verbo haver corretamente mantido no singular, já que é impessoal (“soluções” é considerado objeto direto). Em (C), a estrutura bastar de é impessoal;  “provocações”, portanto, não é o sujeito. Em (D), o verbo principal da locução verbal é acontecer; o sujeito é “coisas desagradáveis”, e o verbo haver, que aqui é um simples auxiliar, tem de concordar com ele. Em (E), temos outra vez haver como mero auxiliar da locução; a concordância se faz naturalmente com o sujeito “vários acidentes”. A alternativa que tem erro  é (A); o verbo fazer, ao indicar tempo decorrido, deveria ficar no singular.

3 – Nas  locuções verbais, como vimos, o verbo que comanda a concordância é sempre o da direita. Em (A), devem concorda com o sujeito de bastar (“duas colheres de açúcar”). Em (B), o verbo haver torna impessoal a locução; em vista disso, o auxiliar fica invariável. Em (C), o sujeito da locução é “outras saídas”; o verbo haver, que aqui é um mero auxiliar de existir, faz a concordância normal. Em (E), passar de, impessoal, faz com que seu auxiliar (deve) permaneça invariável. A alternativa que tem erro é (D): tratar-se de é uma estrutura invariável, e assim também deveria ficar seu auxiliar.

4 – Outra questão com locuções verbais: deverá fazer, haja sobrado, começa a haver, havia feito e pode haver. Como vimos, a pessoalidade (ou não) da locução é determinada por seu verbo principal (aquele que ocupa a última casa da direita). Em (A), (C), (D) e (E), o verbo principal é impessoal, e seu auxiliar está corretamente no singular. A alternativa em que o auxiliar deveria ser pluralizado é (B), pois aqui haver é um simples auxiliar de sobrar e deveria concordar com “algumas cervejas”.

5 – As duas lacunas envolvem o verbo haver, aqui usado no sentido em que é considerado impessoal. Na primeira, ele é o verbo principal da locução [poder + HAVER]; o auxiliar, neste caso, mantém a impessoalidade do principal: pode haver. Na segunda lacuna, o verbo é usado com o mesmo sentido, ficando, igualmente, na forma do singular. Duas alternativas preenchem os requisitos indicados no cabeçalho da questão: (A) e (C). Contudo, em (A) o verbo não foi conjugado corretamente no futuro do subjuntivo; deveria ser houver, não haver. A resposta é (C).

6 – A primeira lacuna deve ser preenchida pelo verbo fazer, que, neste sentido de tempo decorrido, é considerado impessoal. O verbo da segunda lacuna – faltar – é perfeitamente normal, devendo concordar com o sujeito trinta dias. A resposta é (C).

7 – O verbo haver da primeira e da terceira coluna está no seu clássico emprego como impessoal; vai ficar, portanto, no singular (havia e houvesse). Na segunda coluna, temos uma construção de passiva sintética, cujo sujeito é os trabalhos, o que leva recomeçar para a  3a. pessoa do plural. A resposta é (E).

8 – A primeira lacuna deve ser preenchida pelo verbo faltar, que concorda normalmente com o sujeito “muitos dias”. Na segunda lacuna, temos a locução verbal [dever + FAZER] que deverá ficar invariável, uma vez que o sentido de fazer aqui o torna impessoal. A resposta é (E).

9 – Na primeira lacuna, temos o clássico fazer no sentido de tempo decorrido, que é impessoal. O verbo existir, da segunda lacuna, é um verbo como qualquer outro, concordando com o sujeito “ruínas”. Já o haver da terceira lacuna é o impessoal de sempre. A resposta é (D).

10 – Na primeira lacuna, o verbo haver não tem sujeito e não pode variar, embora a posição em que o objeto direto “todos os parafusos” foi colocado na frase contribua para que um leitor apressado o tome por sujeito. Na segunda lacuna, fazer não está empregado num dos sentidos em que é impessoal; aqui ele é um verbo comum e deve concordar com o sujeito plural (“todos os parafusos faziam falta”) . Na terceira lacuna, o verbo haver, indicando tempo decorrido, fica invariável. A resposta é (B).

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Testes – Concordância com verbos impessoais

[Antes de fazer os testes, leia Concordância com verbos impessoais]

 

1 – Assinale a alternativa em que a concordância do verbo grifado está CORRETA:

a) Mesmo que se tratem de pessoas honestas, exija um fiador.
b) É importante que haja muitas faculdades de Letras.
c) Espero que, em fevereiro, façam dias menos ventosos.
d) Haviam quatro semanas que o navio estava no porto.
e) Se não houverem imprevistos, chegaremos amanhã.

 

2 – Assinale a alternativa em que a concordância do verbo grifado está ERRADA:

a) Onde você andava? Fazem mais de três horas que a espero.
b) Talvez houvesse soluções melhores do que aquela.
c) Você não acha que basta de provocações?
d) Vão terminar acontecendo coisas desagradáveis
e) Haviam ocorrido vários acidentes naquele local.

 

3 – Assinale a alternativa em que a concordância do verbo grifado está ERRADA

a) Acho que devem bastar duas colheres de açúcar.
b) de haver outras saídas.
c) Hão de existir outras saídas.
d) Podem tratar-se de vírus desconhecidos.
e) Deve passar das quatro horas.

 

4 – Assinale a alternativa em que o verbo grifado deve ser pluralizado, a fim de que a concordância verbal fique CORRETA:

a) Em fevereiro deverá fazer dias melhores.
b) Espero que haja sobrado algumas cervejas.
c) Já começa a haver esperanças.
d) Aqui nunca havia feito verões tão rigorosos.
e) Não pode haver hesitações

 

5 – Este ano ……….. as festas que ……….., que eu não comparecerei a nenhuma.

a) pode haver           – haver
b) podem haver        – haverem
c) pode haver           – houver
d) pode haver           – houverem
e) podem haver        – houver

 

6 – No domingo, ……… seis meses que as aulas começaram; pode-se dizer que só ………. trinta dias para as férias.

a) fará           – falta
b) farão         – falta
c) fará           – faltam
d) faz            – falta
e) fazem        – faltam

 

7 – Não ……… condições para se …….. os trabalhos; mesmo que as …….., era tarde.

a) havia              – recomeçar               – houvessem
b) haviam           – recomeçarem          – houvessem
c) haviam           – recomeçar               – houvesse
d) haviam           – recomeçar               – houvessem
e) havia               – recomeçarem          – houvesse

 

8 – ………ainda muitos dias para que ele volte? Afinal, ………bem uns dois meses que ele foi viajar.

a) Faltará           – deve fazer
b) Faltará           – devem fazer
c) Faltarão         – devem fazerem
d) Faltarão         – devem fazer
e) Faltarão          – deve fazer

 

9 – Já ……… muitos anos que só ………. ruínas das construções que…….. nesta cidade.

a) fazem       – existe           – haviam
b) fazem       – existe           – havia
c) fazem        – existem        – haviam
d) faz           – existem         – havia
e) faz           – existem         – haviam

 

10 – Todos os parafusos que ………. demais naquele relógio, noutros ………. falta. ………. dez anos que a queixa era a mesma.

a) havia           – fazia         – Havia
b) havia           – faziam      – Havia
c) haviam        – faziam      – Haviam
d) haviam        – fazia         – Haviam
e) haviam         – faziam      – Havia

 

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Concordância com verbos impessoais – HAVER, FAZER, etc.

Qualquer brasileiro sabe que a regra de ouro de nossa sintaxe é a de que todo verbo concorda com o sujeito da frase. O que devemos fazer, contudo, com aqueles verbos que não são atribuídos a sujeito algum, os chamados verbos impessoais? O uso culto prefere deixá-los imobilizados na 3a. pessoa do singular. Felizmente esses verbos formam um grupo extremamente reduzido:


1. HAVER – Este verbo, quando usado nos sentidos de “existir” ou “ocorrer”, fica sempre  na 3ª do singular (o elemento em destaque é analisado como objeto direto):

 

CORRETO:

EVITE:
  • Havia dez interessados.
  • Haviam dez interessados.
  • Aqui houve alterações.
  • Aqui houveram alterações.
  • Haverá sessões contínuas.
  • Haverão sessões contínuas.

 

Você já deve ter-se acostumado a ouvir *”haviam pessoas”, *”haverão dúvidas” — construções provavelmente inspiradas, por analogia, em “existiam pessoas” e “existirão dúvidas”, mas com certeza ficaria surpreso se soubesse o quanto se discute, entre os estudiosos, a conveniência de considerar, de uma vez por todas, o verbo haver como um verbo comum com sujeito posposto. Há bons argumentos contra e bons argumentos  a favor desse “reenquadramento” de haver, e tanto um quanto o outro lado têm a defendê-los jovens e velhos gramáticos. Aqui se trata, porém, de definir um item do uso culto escrito; portanto, se você quer se sentir seguro, não invente moda e opte por deixar o verbo sempre no singular. Em outras palavras: se você não quer chamar a atenção de todos durante a cerimônia, use gravata (e, de preferência, com um nó clássico).


2. FAZER (e HAVER, também), indicando TEMPO DECORRIDO

CORRETO:                                           EVITE:

  • Faz três meses.                                  * Fazem três meses.
  • Amanhã fará dois anos.                     * Amanhã farão dois anos.
  • Fazia duas horas que esperava.         * Faziam duas horas que esperava.
  • Havia dois dias que não comia.         * Haviam dois dias que não comia.


3. FAZER, indicando CONDIÇÕES METEOROLÓGICAS:

CORRETO:                            EVITE:

  • Fez dias belíssimos.           * Fizeram dias belíssimos.
  • Ali fazia 40° à sombra.       * Ali faziam 40° à sombra.


4. PASSAR DE, em expressões de tempo:

CORRETO:                              EVITE:

  • Passava das duas horas.      * Passavam das duas horas.
  • Passa das três da tarde.       * Passam das três da tarde.


Não confunda esta estrutura, que é considerada  SEM SUJEITO (note que “duas horas”, “três horas”, etc., vêm precedidos da preposição DE), com o verbo PASSAR que aparece nos exemplos abaixo, em que “três horas” e “três minutos” funcionam como SUJEITO:

  • Passam três horas do meio-dia.
  • Passavam três minutos das duas.


5. BASTAR DE e CHEGAR DE:

  • Basta de reclamações      (e não *bastam de)
  • Chega de pedidos             (e não *chegam de)


6. TRATAR-SE DE, com referência a uma afirmação anterior.


  • CORRETO:     Lá vêm elas. Não esqueça: trata-se das filhas do prefeito.
  • EVITE:            Lá vêm elas. Não esqueça: *tratam-se das filhas do prefeito.

_______________________________________________________

Para o falante brasileiro, as três frases abaixo são sinônimas

  • (1) Não havia dinheiro no cofre.
  • (2) Não existia dinheiro no cofre.
  • (3) Não tinha dinheiro no cofre.

Se trocarmos dinheiro por documentos, no entanto, está armada a confusão:

  • (1) Não HAVIA documentos no cofre.
  • (2) Não EXISTIAM documentos no cofre.

A frase (3) é mais complicada, pois o uso de ter com valor existencial ainda é classificado como inadequado na língua culta formal escrita. Se quisermos assim mesmo empregá-lo, vamos ter de escolher qual dos dois modelos (o de haver, impessoal, ou o de existir) ele vai seguir. Minha intuição aponta para a primeira hipótese: “Não tinha documentos no cofre”.

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Testes sobre a passiva sintética – Respostas comentadas

[Testes sobre a concordância com a passiva sintética]

Respostas comentadas

Questão 1 – Na primeira lacuna, viver fica no plural para concordar com o sujeito, “as civilizações modernas”. O verbo cancelar, que é transitivo direto, está numa construção de passiva sintética; vai para o plural, pois o sujeito é “todas as restrições” (equivale, na passiva analítica, a “todas as restrições SÃO ACEITAS”). Na terceira lacuna, não se trata de passiva sintética, porque o verbo obedecer é  transitivo indireto (notem a presença da preposição A); fica no singular, portanto, pois é um simples caso de sujeito indeterminado. A resposta é  A.

Questão 2 –  Na primeira lacuna, expor é transitivo direto; temos aqui um caso de passiva sintética. O sujeito, “os assuntos”, faz o verbo ficar no plural. Cuidado: atrair, na segunda lacuna, fica no singular, porque o sujeito é “a maneira”, e não “assuntos”. O pronome relativo “que”, sujeito da última oração, representa o antecedente “alunos”, levando queixar-se para o plural. A resposta é B.

Questão 3 – Esta é uma excelente questão para mostrar  a diferença entre as duas principais construções em que aparece o SE em nosso idioma: (1) a voz passiva sintética, com verbos transitivos diretos, e (2) o sujeito indeterminado, com intransitivos e transitivos indiretos. Na frase apresentada no cabeçalho, tínhamos “que se LEVANTEM  os problemas” (pas. sintética), “que se REFLITA sobre os assuntos (sujeito indeterminado – o verbo é t. indireto) e “não se TOMEM medidas (pas. sintética). Na substituição proposta, falar, na primeira lacuna, fica no singular, pois é suj. indeterminado; avaliar é transitivo direto, e vai para o plural (pas. sintética); pensar fica no singular, porque seu sujeito também é indeterminado. A resposta é A.

Questão 4 – As duas primeiras lacunas completam estruturas de passiva sintética: “que se READMITAM todos os desempregados” (igual a “que todos os desempregados SEJAM READMITIDOS”) e “que se ESQUEÇAM todos esses desentendimentos” (igual a “que todos esses desentendimentos SEJAM ESQUECIDOS”). A última oração é a mais perigosa, pois está presente o verbo desejar; ora, como vimos, os verbos que exprimem vontade ou intenção bloqueiam a voz passiva (os chamados “auxiliares volitivos”); o verbo fica no singular. A resposta é D.

Questão 5 – Muito semelhante à anterior: as duas primeiras construções são de passiva sintética – “quando se ESGOTAM as possibilidades, BUSCAM-se os pais do casal”. Há uma dificuldade adicional, contudo:  a banca intercalou, entre o verbo e o seu sujeito, expressões no singular (“meu amigo” e “em última instância”), que podem ter levado muitos candidatos a deixar o verbo no singular. A terceira lacuna envolve pretender, outro auxiliar que exprime vontade, o que explica o verbo principal no singular. A resposta é C.

Questão 6 – Da mesma forma que o verbo haver, a construção “tratar-se de” é impessoal (ou seja, não tem sujeito algum), ficando sempre no singular. Resolver está numa estrutura de passiva sintética e, portanto, vai concordar com  coisas (“coisas simples que se RESOLVEM facilmente” = “coisas simples que SÃO RESOLVIDAS facilmente”). A última oração também apresenta a passiva: “EVITEM-se discussões”. A resposta é E.

Questão 7 – A primeira oração é uma passiva sintética: “ali onde se VÊEM as cruzes” = ali onde “as cruzes SÃO VISTAS”. Já na segunda o verbo fica no singular: é um simples caso de sujeito indeterminado, uma vez que assistir, no sentido empregado, é transitivo indireto. A resposta é A.

Questão 8 – No primeiro verbo, temos um caso simples de sujeito posposto (“dúvidas”). O sujeito do segundo está também posposto: “as críticas”. A terceira oração tem uma passiva sintética: “as críticas que SE FIZERAM ao projeto” (na analítica, seria “as críticas que FORAM FEITAS ao projeto”).  A resposta é D.

Questão 9 – Na segunda lacuna, o verbo haver, que é impessoal, faz com que o seu auxiliar estar também se impessoalize: “ESTÁ havendo”. A terceira lacuna recebe o verbo no plural, porque se trata de uma voz passiva sintética, cujo sujeito é “irregularidades”. O sujeito de afirmar, na primeira lacuna, é a oração subjetiva “que está havendo irregularidades”; o verbo ficará, portanto, no singular. A resposta é C.

Questão 10 – A primeira lacuna envolve uma passiva sintética: “que SE FAÇAM todas as recomendações”. Na segunda, aparece o verbo fazer impessoal (indicando tempo decorrido); fica no singular, portanto. Na terceira, temos nova passiva: “que SE COMETEM os mesmos erros” (igual a “que SÃO COMETIDOS os mesmos erros”). A resposta é D.

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Testes – concordância com a passiva sintética

Dez testes selecionados (e comentados) pelo Doutor; avalie o quanto você sabe sobre esse pesadelo de nossa concordância verbal.

 

Prezado leitor: estes testes se referem ao conteúdo explanado em Concordância com a passiva sintética.


1 – A crise no emprego da língua materna insere-se no contexto mais amplo das circunstâncias culturais em que ……… as civilizações modernas. Numa época em que se ……… todas as restrições e em que se ………. a todas as normas estabelecidas, não há, seguramente, maior zelo pela linguagem.

a) vivem              cancelaram          desobedece
b) vive                 cancelaram          desobedece
c) vive                 cancelou             desobedece
d) vive                 cancelaram          desobedecem
e) vivem              cancelaram          desobedecem

 

2 – A maneira como se ……… os assuntos não ……… os alunos, que disso se ……… .

a) expõe              atraem         queixa
b) expõem           atrai             queixam
c) expõem           atraem         queixam
d) expõem           atrai             queixa
e) expõe              atraem         queixam

 

3 – (PUC) “Convém que se LEVANTEM os problemas, que se REFLITA sobre os assuntos e não se TOMEM medidas apressadas.”

Substituindo-se os verbos sublinhados respectivamente por FALAR, AVALIAR e PENSAR, obtém-se a construção correta

a) Convém que se fale dos problemas, que se avaliem os assuntos e não se pense em medidas apressadas.
b) Convém que se falem dos problemas, que se avaliem os assuntos e não se pensem em medidas apressadas.
c) Convém que se fale dos problemas, que se avalie os assuntos e não se pense em medidas apressadas.
d) Convém que se falem dos problemas, que se avalie os assuntos e não se pensem em medidas apressadas.
e) Convém que se fale dos problemas, que se avalie os assuntos e não se pensem em medidas apressadas.


4. Espero que se ………. todos os desempregados e que se …….. todos esses desentendimentos que não se …….. causar.

a) readmitam          esqueçam      desejavam
b) readmitam          esqueça         desejavam
c) readmita             esqueça         desejava
d) readmitam          esqueçam      desejava
e) readmitam          esqueça         desejava

 

5 –  Quando se ………, meu amigo, todas as possibilidades de conciliação, ………., em última instância, os pais do casal. Desta forma, obtemos, muitas vezes, as soluções que se …….. atingir.

a) esgota             busca-se             pretendiam
b) esgota             buscam-se          pretendia
c) esgotam          buscam-se          pretendia
d) esgotam          busca-se             pretendia
e) esgotam          buscam-se          pretendiam

 

6 – ……….-se de coisas simples que se……… facilmente;……..-se, portanto, discussões paralelas.

a) Trata         resolverá      evite
b) Tratam      resolverá      evitem
c) Tratam       resolverão    evite
d) Tratam       resolverão    evite
e) Trata           resolverão    evitem

 

7 – Ali onde se ……… aquelas cruzes ………. cenas de selvageria, durante os combates.

a) vêem               assistiu-se a
b) vêem              assistiram-se a
c) vê                   assistiram-se a
d) vê                   assistiu-se
e) vê                  assistiu-se a

 

8 – Não …….. dúvidas de que ……….de razão as críticas que se ………. ao projeto.

a) resta                carecem     fez
b) resta                carece        fizeram
c) resta                carece        fez
d) restam             carecem     fizeram
e) restam             carecem     fez


9 – ………, em todos os cantos da cidade, que ………. havendo irregularidades nas eleições que se ………. no município.

a) Afirma-se               estão          organizaram
b) Afirma-se               estão          organizou
c) Afirma-se               está            organizaram
d) Afirmam-se            está            organizou
e) Afirmam-se            estão           organizou

 

10 – Urge que se ……… todas as recomendações, pois já ………. meses que se ……… os mesmos erros.

a) façam      fazem         cometem
b) façam      faz              comete
c) faça         fazem         comete
d) façam      faz              cometem
e) faça         faz              comete

 

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concordância com a passiva sintética

As leitoras Diva Lea, de Assis (SP), e Maria Angélica, de Porto Velho (RO), estranham que ainda seja considerado erro deixar no singular o verbo  de vende-se casas. Elas — como todo falante brasileiro não sentem casas como o sujeito dessa construção, nem vêem aí uma equivalência com casas são vendidas. Em qualquer cidade do Brasil, em qualquer estrada, nas páginas dos classificados, nos anúncios da lista telefônica para onde quer que você olhe, vai enxergar exemplos do famigerado “erro” da passiva sintética. Sem dar a mínima para o  que dizem os gramáticos mais tradicionais, as pessoas povoam a paisagem brasileira de grandes cartazes e belos letreiros com aluga-se casas, conserta-se fogões, faz-se carretos, aceita-se encomendas, traçados em todas as cores e tamanhos. Por alguma misteriosa razão, os vendedores de terrenos  recusam-se a fazer o verbo vender concordar com os  terrenos que eles vendem; em vez de vendem-se, teimam em escrever “vende-se terrenos“, assim mesmo, com o verbo no singular.  Alguns começam a se perguntar se a  voz passiva sintética está ameaçada; eu vejo, simplesmente, que a questão já foi decidida há muito tempo: a passiva sintética deixou de ser uma estrutura viva de nossa língua. Ficou apenas a lenda, contada ainda respeitosamente junto ao fogo dos acampamentos gramaticais mais conservadores. E por que morreu? Porque o que ela teria a oferecer não interessa mais aos falantes, que vêem a voz passiva analítica a verdadeira atingir as mesmas finalidades, com muito mais vantagem.

Vamos ser sinceros: quando eu escrevo vende-se este terreno, pretendo significar que “este terreno é vendido” (ou “está sendo vendido”)?  Claro que não.  É  o interesse de não ser identificado (ou, às vezes, um simples pudor) que me leva a não escrever vendo este terreno (o que seria claro, direto e honesto). Ao optar pelo vende-se, quero anunciar algo assim como “alguém vende este terreno”. Em outras palavras, estou tentando usar, com um verbo transitivo direto, aquela mesma  construção que empregamos com os verbos transitivos indiretos quando queremos indeterminar o sujeito (“precisa-se de operários”, “necessita-se de costureiras”). Como explicava Celso Pedro Luft, usamos o SE sempre que não nos interessa especificar o agente. Em “aluga-se uma casa” e “vende-se este terreno” não interessa saber quem vende ou aluga; interessa a ação e seu objeto. Por isso mesmo, quando o próprio objeto está diante dos olhos do leitor, basta pregar nele uma tabuleta com o verbo, e pronto: aluga-se, vende-se.   Essa é a realidade; nossa insistência em manter o verbo no singular, a despeito do plural que vem depois, comprova que ninguém sente casas ou terrenos como sujeito dessas frases.

Há muito os lingüistas brasileiros já sabem que a passiva sintética é pura ficção, mas este é um daqueles tantos itens em que fica evidenciado o imenso (e estranhíssimo!) fosso que separa,  de um lado, o que hoje conhecemos sobre a nossa língua, e do outro,  o que a disciplina gramatical (sustentada pela maior parte dos livros didáticos) ainda difunde através do ensino. Neste caso, em particular, há um apego ainda mais inexplicável a uma dessas falsas verdades, já que muitos gramáticos “velhos”, dos bons (entre outros, o grande Said Ali em 1908! e João Ribeiro) já expressaram sua convicção  de que esta estrutura estava morta. Acontece que não são  os verdadeiros especialistas quem detém o poder da opinião gramatical no Brasil; este vem sendo exercido, desde o Império, por indivíduos dotados geralmente de pouca cultura lingüística e magros dotes intelectuais, que ocupam as posições de destaque na imprensa e nas editoras, impondo ao sistema escolar uma língua aprisionada numa estreita moldura teórica o que é, paradoxalmente, a verdadeira razão de seu sucesso, pois isso dá ao usuário aquela  sensação de segurança que o espírito redutor sempre oferece. Basta comparar a atitude aberta, indagativa, de velhos sábios como Said Ali ou Mário Barreto, com a posição autoritária e estreita da grande maioria dos autores que escrevem hoje, século XXI, sobre Língua Portuguesa, aqui nesta Pindorama. O próprio Said Ali já definia, curto e seco,  o problema desses bacharéis gramatiqueiros, com sua mirrada análise lingüística: eles “pecam por excesso de raciocínio dentro de limitado círculo de idéias“. Criaram um estreito arcabouço lógico para a língua (que, como sabemos, não é lógica) e nele basearam toda uma “disciplina gramatical” que, como não poderia deixar de ser, não passa de uma entediante arquitetura fantasiosa, sem o imprescindível apoio da realidade.

É só nesse mundo fictício que a passiva sintética sobrevive. É um mecanismo perverso: mesmo aqueles que já estão convencidos de que ela é uma estrutura artificial não ousam ignorá-la, pelo medo de ser avaliados desfavoravelmente por seus leitores, que provavelmente acreditam nessa versão “oficial” do Português. Eu, por exemplo (que não acredito na sintética), vou escrever “vende-se casas”? Pois jacaré escreveu? Nem eu! Esse é um dos maiores fatores dessa sobrevivência virtual desta construção obsoleta: ninguém quer se arriscar a ser o primeiro. Isso é mais que humano (além do fato de que, vamos ser sinceros, não se trata de algo tão importante assim que valha o incômodo…). E ela segue vivendo da ilusão dos concursos, dos vestibulares, das petições, dos textos formais e conservadores. O que apresento a seguir é uma suma da concepção tradicional sobre a voz passiva sintética; embora eu dela discorde, friso que ela deve ser conhecida por quem quer que precise demonstrar domínio da Norma Culta Escrita.

1 – Concordância  com  a passiva sintética (visão tradicional)

Ao lidar com a voz passiva sintética (também chamada de pronominal, por causa do SE, que é um pronome apassivador), nosso maior problema é reconhecer o sujeito da frase.   Em estruturas do tipo aceitam-se cheques ou compram-se garrafas, o elemento que vem posposto ao verbo é considerado o sujeito (o paciente da ação).  Ocorre, no entanto, que a passiva sintética não é sentida como voz passiva pela maioria dos falantes, os quais,  vendo em cheques e garrafas um simples objeto direto, deixam de concordar o verbo com eles. Nasce aqui o que um antigo gramático chamava de “erro da tabuleta”: *aceita-se cheques, *compra-se garrafas, *vende-se terrenos, *aluga-se barcos.

Como já disse acima, não vou discutir, aqui, a real existência da passiva sintética; contento-me em explicar como é que a doutrina gramatical escolar a descreve. Não esqueça de que ela é ainda encarada como um dos traços que caracterizam o uso culto formal, e você pode ter certeza de que ela estará presente nas questões de vestibulares e concursos. É necessário, portanto, que você saiba  identificá-la, fazendo em seguida a competente concordância.

Para quem tem uma formação mínima em sintaxe, não é tão difícil reconhecê-la: verbos TRANSITIVOS DIRETOS seguidos de SE (não reflexivo) constituem casos inequívocos dessa estrutura. Se ainda assim persistirem dúvidas, lembre que a frase na passiva sintética tem forma equivalente na passiva analítica:

Aceitam-se cheques Cheques são aceitos.

Compram-se garrafas Garrafas são compradas.

Se o verbo for transitivo indireto, é evidente que não pode haver passiva tanto a sintética quanto a analítica.  A construção com VERBO TRANSITIVO INDIRETO+SE é uma das formas do sujeito indeterminado no Português, ficando o verbo sempre na 3ª pessoa do singular:

Precisa-se de serventes.

Falava-se dos últimos acontecimentos.

Como serventes e últimos acontecimentos têm a função de objetos indiretos, o fato de estarem no plural não afeta o verbo, que continua imóvel no singular. Aqui muitas vezes ocorre a hipercorreção, aquele curioso erro invertido: assim como o caipira da anedota, muitas vezes advertido a não dizer fia e paia em vez de filha e palha, termina caprichando num *”as arelhas da pralha”, assim também falantes que se preocupam demais em errar a concordância com a passiva terminam por flexionar erroneamente essas estruturas, apesar do verbo ser transitivo indireto:

*Precisam-se de serventes (em vez de “precisa-se”).

*Falavam-se dos últimos acontecimentos (em vez de “falava-se”).

Para ter certeza de que não vai cometer este erro, você precisa identificar a regência do verbo; se for transitivo indireto, certamente não se tratará de caso de voz passiva. A mensagem por trás disso tudo, porém, é trágica: ninguém será capaz de lidar com essa estrutura se não for capaz de fazer todas as distinções sintáticas necessárias; nada mais natural, portanto, que o uso da sintética tenha ficado reduzido à escrita de usuários cultos e extremamente cautelosos.

2 – Aumenta a preocupação: as locuções verbais

Quando o verbo principal de uma locução verbal é transitivo direto, ocorrerá normalmente a voz passiva, flexionando-se (como é característico das locuções) o verbo auxiliar:

(ativa)         O rei tinha autorizado as núpcias do poeta.

(analít.)       As núpcias do poeta tinham sido autorizadas pelo rei.

(ativa)         A miopia pode estar prejudicando este garoto.

(analít.)        Este garoto pode estar sendo prejudicado pela miopia.

(analít.)        Essas terras tinham sido compradas.

(sintét.)        Tinham-se comprado estas terras.

(analít.)         As condições do tratado devem ser respeitadas.

(sintét.)        Devem-se respeitar as condições do tratado.

Nessas construções de passiva sintética com auxiliar, mais difícil ainda se torna reconhecer o sujeito posposto:

*Tinha-se comprado estas terras (em vez de “tinham-se”).

*Deve-se respeitar as condições do tratado. (em vez de “devem-se”)

Aqui, no entanto, há um caveat: existem vários auxiliares que impedem a transformação passiva (analítica ou sintética). Os gramáticos velhos os denominam de auxiliares volitivos os que indicam vontade ou intenção, como  QUERER, DESEJAR, ODIAR, e os que indicam tentativa ou esforço, como BUSCAR, PRETENDER, OUSAR, etc.

A frase “O homem tenta desvendar os mistérios da Natureza” não admite a passiva *”Os mistérios da Natureza tentam ser desvendados pelo homem”, da mesma forma que “Eu quero convidar Fulana”  não corresponde a “Fulana quer ser convidada por mim”. O mesmo vai acontecer com a passiva sintética: numa frase como “Pretende-se importar os componentes”, o auxiliar volitivo deixa  claro que componentes não pode ser o sujeito de “pretender”. O que temos aqui, na verdade, é um SUJEITO ORACIONAL o sujeito das frases abaixo é a oração subjetiva entre colchetes, e o verbo, conseqüentemente, fica na 3ª pessoa do singular:

Pretende-se  [importar os componentes].

Busca-se   [eliminar as diferenças].

 

Depois do Acordo: vêem, lingüista, lingüística, idéia e conseqüentemente passam a veem, linguista, linguística, ideia e consequentemente.